O PAPEL DO ENFERMEIRO NA REABILITAÇÃO PSICOGERIÁTRICA

Jan 14, 2013

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ROLE OF NURSING IN PSYCHOGERIATRIC REHABILITATION

PAPEL DE LO ENFERMERO EN LA REHABILITACIÓN PSICOGERIÁTRICA

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AUTORES: Albano Ramos, César Fonseca, Vítor Santos

RESUMO:

A Clínica de Psicogeriatria Frei Júlio dos Santos é uma unidade de longo internamento da Casa de Saúde do Telhal, onde os enfermeiros assumem um papel importante na reabilitação dos doentes do foro mental e psiquiátrico. Aqui a tónica situa-se sobre a autonomização máxima possível dos doentes mentais, evitando ou desconstruindo a ocorrência hospitalismo, integrando sempre que possível a família e a comunidade numa acção concertada de reeducação, formação, socialização e profissionalização tendo a vista a reabilitação possível dos doentes mentais aqui internados.

Palavras-chave: Casa de Saúde do Telhal, Reabilitação, Enfermeiro, Hospitalismo

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ABSTRACT

The Clinic of Psychogeriatry Frei Julio dos Santos is a long term unit home from Telhal House of Health, where nurses play an important role in the rehabilitation of patients in  psychiatric and mental forum. Here the emphasis lies on the maximum possible autonomy of the mentally ill, avoiding or deconstructing the occurrence hospitalism, where possible  integrating family and community in a concerted action of rehabilitation, training, socialization and professionalization with the view to possible rehabilitation of the mentally ill interned here.

Keywords: Telhal House of Health, Rehabilitation Nurse, hospitalism

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A população da Unidade de Sto. António da Casa de Saúde do Telhal, agrupa-se de forma genérica, em adultos e alguns pacientes geriátricos. O primeiro grupo enquadra-se de forma semelhante ao descrito por FLAHERTY, DAVIS & JANICAK (1995:143) “heterogéneo de elementos em termos de patologia. Altamente lábeis e que exibem deficits cognitivos e uma baixa tolerância ao stress ou a estimulação. Necessitam principalmente de vidas estruturadas e de cuidados mínimos de enfermagem”. 5 (FLAHERTY, DAVIS & JANICAK, 1995: 143) Os segundos, enquadram-se em grupo muito idêntico ao definido pelo mesmo autor 5, como de “ex-pacientes mentais, que envelheceram (principalmente esquizofrénicos)” (FLAHERTY, DAVIS & JANICAK, 1995: 143) na instituição. 5

“O modelo preventivo da saúde pública identifica a prevenção terciária como a redução da deficiência relacionada a um episódio de doença,” (STUART & LARAIA, 2001:275) a prevenção terciária, é por conseguinte o conjunto de medidas para reduzir ao mínimo o prejuízo residual da doença “e reinserir os ex-doentes, no ambiente familiar, profissional e social.” (GAMEIRO, 1989; 179).

Na prevenção da deficiência em pessoas com doenças mentais serias e persistentes, a medicação correcta é importante na reabilitação na doença mental, contudo não é o suficiente, já que há que providenciar uma faixa completa de serviços voltados para a reabilitação, para a independência e para a melhor qualidade de vida à pessoa com doença mental. 4

Apesar de a reabilitação estar associada a qualquer episódio de doença, esta surge com uma importância impar em pessoas com doença mental crónica. A reabilitação propõe que as pessoas com doença mental crónica vivam, aprendam e trabalhem nas comunidades, assim a reabilitação psiquiatria é uma abordagem centrada na pessoa. 1,6

Tendo sempre em atenção que só um sistema de reabilitação “precoce e integral pode resolver os problemas relacionados com o hospitalismo” (GAMEIRO, 1989: 179) prevenindo-o, e que “a reabilitação dos doentes em muitos casos pode e deve começar antes mesmo do seu internamento, até mesmo a evitá-lo” (GAMEIRO, 1989:179). 6 É exigido dos enfermeiros, como agentes reabilitadores, que mantenham o seu foco em três elementos essenciais: o sujeito, a família e na comunidade e por conseguinte todas as medidas e intervenções terapêuticas devem ter em conta esta realidade.

Contudo quando por várias circunstâncias, isso não é possível, surgem instituições de caris hospitalares. Aqui a qualidade da assistência prestada é uma das preocupações do cuidar em Hospitalidade. A excelência profissional na prática tem muito a ver com a arte de saber cuidar, por conseguinte, devido ao princípio de beneficência um enfermeiro deve antes de mais cuidar em dignidade. 1 Assim é importante “evitar a segregação, segregação verbal, isolamento, (…) já que tudo isso significa a negação da reabilitação” (GAMEIRO, 1989:180) Contudo quando a segregação é impossível de ser contornada, há que limitá-la, “integrando doentes menos deteriorados e pessoal de reabilitação suficiente que os ajude e preencha as funções de figuras de identificação.”(GAMEIRO, 1989:180) medidas estas, que são procuradas, como filosofia da Unidade de Sto António.

Aqui o enfermeiro como agente reabilitador, deve ter em si o principio de que é um elemento, na reabilitação, ao ajudar a fornecer ao doente uma “ponte, para ele passar de uma dependência hospitalar, para uma independência e autonomia social, total ou pelo menos, parcial.” (GAMEIRO, 1989:188 e 189) Contudo os enfermeiros tradicionalmente não estão preparados para a tarefa de reabilitar, apesar de lhe serem indispensáveis, neste sentido uma formação teórica, apesar de importante, é secundária a uma formação que é mais eficaz quando adquirida e avaliada em contexto profissional. 6 Um outro grande problema que os enfermeiros incorrem, são o risco de por vezes se acostumarem “a trabalhar em esquemas que são possessivos em grande parte e por isso mesmo anti-reabilitadores” (GAMEIRO, 1989:186) já que o exercício dos cuidados na vida quotidiana é polvilhado por dificuldades muito distintas e porque cada ser humano requer cuidados concretos e personalizados isso impossibilita fórmulas e cuidados em série. 1,6 

No nosso entendimento, o principal entrave ao processo reabilitador é o hospitalismo ou Institucionalismo (GAMEIRO, 1989:187) onde doentes de longos internamentos se tornaram excessivamente dependentes do hospital e incapazes principalmente por medo, de viverem na sociedade. 6 Para evitar o hospitalismo, tal como defendido por GAMEIRO (1989:187) a unidade de Sto António, tem em articulação entre vários profissionais e familiares dos doentes, ensaiado frequentemente licenças de fim-de-semana, licenças de curta e média duração do doente na família ou com outros cuidadores significativos e os doentes a nosso cargo, têm licença para passear e deambular fora dos limites físicos da unidade e fora dos portões casa de saúde do Telhal, 6 procurando salvaguardar claro, os esquemas terapêuticos vigentes sejam eles farmacológicos ou outros.

Reabilitar requer sensibilidade e técnica, porque cuidar de um ser humano constitui uma tarefa de grande complexidade com muitas variáveis a ter em conta. 1,6 A tarefa de cuidar o outro vulnerável, como uma pessoa com doença mental, deve ser contemplada, em si mesma, como uma acção positiva, contudo devemos ter cuidado com todas as formas de paternalismo que podem pôr em causa a liberdade da pessoa com doença mental, 1,6 e devemos sempre acreditar nas capacidades dos doentes reabilitados. 6 Tudo isto não é contudo, uma tarefa fácil, nem arbitrária, necessitando por parte do enfermeiro um grande poder criativo e organizativo, 6 porque o ser humano, é na sua profundidade, um mistério único. 2,6

O ser humano deve ser cuidado, especialmente quando atravessa uma situação vulnerável, como é o processo reabilitativo, mas deve ser cuidado de um modo adequado, 3 já que reabilitar de uma pessoa humana é cuidar de um sujeito único e singular com uma história única. 6

Reabilitar na nossa óptica vai de encontro à tónica de que não consiste em substituir, ocupar o lugar do doente ou reduzi-lo a nada, cada um tem o seu espaço natural e o cuidador deve promover o outro, na sua autonomia moral e em ultima análise na sua autenticidade, criticamos modelos de cuidar e reabilitar dominadores que reduzem o sujeito cuidado a um mero objecto. 1,6

O enfermeiro, deverá por conseguinte “adoptar medidas [reabilitadoras] de natureza (re) educativa, formativa, social e profissional”, (GAMEIRO, 1989:179) de modo a atingir o objectivo de reabilitação., já que “todos os doentes mentais são capazes de um certo grau óptimo de reabilitação de modo a permitir o máximo de independência pessoal” (GAMEIRO, 1989;179).

Procurando respeitar a estruturação mencionada por GAMEIRO (1989:179), na unidade de Sto. António – Casa Saúde do Telhal, como terapêuticas reeducativas procuramos a reeducação por parte dos doentes que perderam determinadas capacidades e habilidades, principalmente na aquisição hábitos de higiene pessoal, higiene oral, higiene das mãos, vestuário adequado e comportamentos de alimentação adequados.

 Na temática da formação, passa principalmente em fomentar capacidades e habilidades em doentes não o demonstram essas mesmas capacidades, passando principalmente hábitos de vida saudáveis, hábitos de higiene pessoal e hábitos e comportamentos de alimentação adequados e a aquisição de hábitos de lazer, muito importantes na quebra do ciclo vicioso do hospitalismo 6.

Do ponto de vista de terapêuticas reabilitadoras socais, procuramos realizar reuniões de grupo, reuniões de unidade, actividades de lazer em grupo de modo a fomentar a interacção social entre os vários doentes ao nosso cargo fomentando regras básicas de cortesia e investimos bastante na integração da família nos cuidados. 1

Como medidas de natureza profissional, passa bastante pelo pela articulação e incentivo dos doentes para sua integração e manutenção em projectos que existem nesse sentido na própria Casa de Saúde do Telhal ou em instituições externas articuladas com a Casa de Saúde do Telhal para esse fim, contudo dentro da própria Unidade, procuramos fomentar nos doentes a realização de tarefas individuais ou em grupo para a manutenção e funcionamento da unidade, indo individualmente ao encontro das preferências e história pessoal do pessoa com doença mental. 1

Reabilitar será antecipar o potencial do outro e ajuda-lo a actualizar as suas potencialidades. Cada um de nós tem as suas potencialidades e os seus limites, cuidar é assim antecipar o poder de ser em cada um dos nossos doentes, e promover essas habilidades e capacidades que o doente é capaz agora e no futuro. Neste sentido o enfermeiro enquanto agente reabilitador, necessita de um enorme poder organizativo e criativo já que irá intervir no processo reabilitador numa uma tónica de antecipação, de pré-ocupação e de pré-visão sempre orientada para o outro e no outro (ROSELLÓ, 1999:162). 1

Neste sentido reabilitar é libertar o outro dos obstáculos que dificultam o seu processo de construção pessoal, capacitando-o de antecipar, prever e superar esses mesmos obstáculos, aqui a educação tem um papel importante já que cria essas capacidades antecipatórias, 6 contudo sem deixar que o doente, neste processo de transformação, se sinta sozinho, ajudando-o a viver o choque da readaptação, articulando-se e servindo de agente catalizador conjuntamente com os outros profissionais de saúde intervenientes em todo o processo e funcionando também como elo de ligação entre a pessoa com doença mental e a sua família.1,6


Referências Bibliográficas:

1. ROSELLÓ, Francesc Torralba; Humanización, pastoral y ética de la salud – Lo ineludiblemmente humano – Hacia una fundamentación de lá ética del cuidar in revista Labor Hospitalaria 3-99 n.º 253; 1999 Institut Borja de Bioètica

2. G. BRUCKZUNSKA, Moya J.; Nursing Care; Edward Arnolf, London; Melbourne, 1992

3. PHILLIPS, S; BENNER, P; The Crisis of care; Georgetown University; Washington, D.C.; 1994; p44.

4. STUART, Gail W; LARAIA, Michele T; Enfermagem Psiquiátrica – Principios e Prática; 6ª Edição; Artmed editora; 2001; Porto Alegre; ISBN: 85-7307-713-1

5. FLAHERTY, Josheph A.; DAVIS, Jonh M.; JANICAK, Philop G.; Psiquiatria, diagnóstico e tratamento; 2º Edição; Artes Médicas; 1995

6. GAMEIRO, Aires; Manual de Saúde Mental e Psicopatologia, 4ª Edição, Edições Salesianas; 1989; Porto; ISBN: 972-690-187-1

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O DOENTE PSIQUIÁTRICO E A ADESÃO TERAPÊUTICA

Jan 14, 2013

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PSYCHIATRIC PATIENT AND TREATMENT ADHESION

EL PACIENTE PSIQUIÁTRICO Y ADHESIÓN AL TRATAMIENTO

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AUTORES: Albano Ramos, César Fonseca, Vítor Santos

Resumo:

Na doença mental, a adesão à terapêutica constitui o factor determinante do êxito ou falência da terapêutica e do consequente prognóstico do doente.

A adesão à terapêutica é pois o verdadeiro “calcanhar de Aquiles” da toma da medicação nos doentes mentais. Contudo, é possível alterar comportamentos e melhorar a adesão dos doentes mentais à terapêutica, através de um investimento específico dos profissionais de saúde e consequente participação activa dos doentes no seu próprio plano terapêutico.

O médico/enfermeiro deve tentar perceber quais os factores que funcionam como obstáculo para uma completa adesão e procurar meios para os ultrapassar.

Palavras-chaves: Adesão, Terapêutica, Doentes Mentais

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ABSTRACT

In mental illness, adherence to therapy is the key to success or failure of therapy and subsequent prognosis. Adherence to therapy is the true “Achilles heel” of taking the medication on mentally ill. However, you can change behaviors and improve adherence to treatment of the mentally ill through a specific investment of health professionals and consequent active involvement of patients in their own treatment plan. The doctor / nurse should try to understand the factors that serve as obstacles to a full membership and find ways to overcome them.

Keywords: Adhesion, Therapy, Mental Illness

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Introdução

A adesão, definida como «(…) o grau em que o paciente adere ao tratamento prescrito ou o grau em que o comportamento da pessoa coincide com o conselho ou a prescrição médica» (Davidson; Turk & Meichenbaum: 424), é um dos problemas centrais da medicina actual, calculando-se que pelo menos um terço dos utentes não seguem a rigor ou na totalidade os tratamentos que lhe são prescritos (Haynes, Taylor & Sackett).

Ao abordarmos a problemática da adesão no contexto da doença mental temos de tomar consciência da sua verdadeira importância e amplitude, visto que se exige a estas pessoas uma adaptação rápida a um diagnóstico que afecta totalmente o seu projecto de vida, e uma série de mudanças profundas e simultâneas que levam o indivíduo a alterar determinados comportamentos sociais, alimentares, hábitos, dependências, rotinas sociais e profissionais, e a introduzir no seu plano de vida as idas regulares à consulta e as tomas diárias de terapêutica (que para além de ser complexa, pode levar ao aparecimento de efeitos secundários) (Marques 1999).

Segundo Marques (1999), face à necessidade de mudança de comportamentos enraizados, verifica-se por parte destes indivíduos a existência de resistências, manifestando-se através da negação da doença e da não adesão à medicação prescrita.

Assim, na doença mental, doença muitas vezes de carácter “crónico”, a adesão constitui o factor determinante do êxito ou falência da terapêutica e do consequente prognóstico do doente, factor esse que é limitante à difícil decisão de prescrever ou não a terapêutica (Poças www.aidscongress.net in Internet), uma vez que as estimativas de não adesão à mesma estão relatadas «entre uma média de 35 e 50%» (Eldred et al.; Giofford et al.; Singh et al.,: 276).

Factores limitativos da adesão à terapêutica

Sendo este grupo de doentes considerado de menos aderente que os restantes, é importante os profissionais de saúde não os designarem de aderentes e/ou não aderentes, podendo esta dicotomização «(…) ser em simultâneo, estigmatizante e precipitada» (Poças www.aidscongress.net in Internet), uma vez que os indivíduos, podem apresentar distintos comportamentos de adesão em diferentes momentos e circunstâncias da sua vida, condicionados pela influência de numerosos factores (Castro, 2000).

Segundo Poças (www.aidscongress.net in Internet), Marques (1999), Casquilho e Castro (2000), existem diversos factores identificados como limitativos da adesão de um sujeito com doença mental a uma dada terapêutica, que podemos dividir em:

  • Factores relacionados com o sujeito;
  • Factores relacionados com a doença;
  • Factores relacionados com a relação equipa de saúde/doente;
  • Outros factores, tais como a distância geográfica entre o serviço de saúde e o local de habitação do doente; as dificuldades no acesso à consulta (face à falta de médicos, ao grande número de doentes inscritos e às numerosas listas de espera); e o grande espaçamento do período de tempo entre as diferentes consultas, que funcionam como limitativos e/ou impeditivos da adesão do doente à consulta e à terapêutica.

Também as características do serviço de saúde funcionam como estímulo para o doente a ele se deslocar e para a adesão deste aos tratamentos e à terapêutica. Assim, é extremamente importante que estas estejam adequadas à realidade das necessidades dos utentes e da equipa multidisciplinar, que permitam a existência de um ambiente fidedigno e confidencial, de um atendimento personalizado e que haja articulação condigna entre ao diferentes serviços inter e extra institucionais, de forma a que se prestem cuidados com qualidade, atendendo sempre às necessidades do doente/família.

A intervenção das equipas de enfermagem na adesão à terapêutica em doentes mentais

A adesão à terapêutica é pois o verdadeiro “calcanhar de Aquiles” da toma da medicação nos doentes mentais. Contudo, é possível alterar comportamentos e melhorar a adesão dos doentes mentais à terapêutica, através de um investimento específico dos profissionais de saúde e consequente participação activa dos doentes no seu próprio plano terapêutico.

Assim, ao aferir a existência de diversas dificuldades ao nível da adesão, a equipa multidisciplinar dos serviços de apoio aos doentes portadores de doença mental, deve contribuir para melhorar a conduta do sujeito nesta área, recorrendo «(…) a técnicas específicas que ajudem o doente concreto a desenvolver e a consolidar a sua capacidade de auto-domínio» (Marques, 1999: 32).

Convictos de que adesão é da responsabilidade do doente, do médico e do sistema de saúde, surge um aumento da preocupação dos profissionais de saúde com a qualidade de vida e com a prevenção da doença e uma necessidade de humanização dos cuidados de saúde e promoção da qualidade dos serviços de saúde prestados.

Também os enfermeiros, como elementos activos e participativos das equipas multidisciplinares, encontram-se convictos das necessidades destes utentes, associadas aos múltiplos e complexos problemas, que têm com estas doenças e todos os que com eles vivem e deles cuidam.

Assim, para prestar cuidados a estes indivíduos, sãos ou doentes, ao longo do ciclo vital, e ao grupo social onde se encontram integrados, de modo a manter, a melhorar, ou a recuperar o seu estado de saúde, ajudando-os a atingir um nível elevado de qualidade de vida, as diversas equipas de enfermagem têm necessidade de reestruturar e reorganizar as suas actividades de acordo com a nova realidade, os novos objectivos e, as novas necessidades do utente e das equipas multidisciplinares.

Com vista a tornar realidade essa reestruturação e reorganização desenvolvem-se nos diferentes serviços algumas actividades realizadas pelos enfermeiros, tais como:

  • Recepção e acolhimento do utente/família;
  • Estabelecimento de relação de ajuda empática;
  • Promoção da integração do utente no serviço;
  • Estabelecimento de ambiente terapêutico;
  • Prestação de cuidados de enfermagem de acordo com as necessidades do utente, atendendo à prescrição médica (administração de terapêutica, realização de exames);
  • Preparação e administração de terapêutica, consoante prescrição édica;
  • Colaboração em equipa na realização de exames e sempre que necessário programação de novo tratamento e/ou exame;
  • Elaboração de registos correctos e adequados em folha própria;
  • Elaboração e preenchimento do guia de colheita de dados em processo próprio, demonstrando confidencialidade dos dados colhidos;
  • Avaliação e registo de sinais vitais e dados antropométricos;
  • Identificação dos conhecimentos do doente sobre:

– A sua patologia;
– Efeitos colaterais da medicação;
– Importância da toma da terapêutica prescrita.

  • Distribuição de panfletos de ensino específicos à sua patologia;
  • Esclarecimento das dúvidas manifestadas pelo doente/família;
  • Ensinos ao doente/família sobre a necessidade de terapêutica e seus benefícios;
  • Reforço dos ensinos efectuados ao doente/família;
  • Promoção do encaminhamento e da continuidade dos cuidados de enfermagem após a alta;
  • Sensibilização da família para a continuidade dos cuidados a prestar ao utente;
  • Participação nas acções de formação em serviço.

ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO DE ENFERMAGEM NA ADESÃO À TERAPÊUTICA

Actualmente é importante que cada Unidade/Serviço instaure um programa de adesão à terapêutica, sendo necessária a colaboração de todos os elementos da equipa multidisciplinar. Assim, os enfermeiros como elementos desta e preocupados com a implementação e continuidade destes programas cuja finalidade é minimizar ou solucionar a problemática da não adesão terapêutica por parte dos doentes mentais, consideram fundamental o envolvimento da enfermagem, como colaborador activo entre toda a equipa na negociação e estabelecimento de estratégias eficazes a esta adesão.

Estratégias de Intervenção de Enfermagem a implementar:

√  O acolhimento do cliente/família na unidade;

√  A elaboração de ensinos sobre a patologia, cuidados a ter, reforçando a comunicação médico/doente, com o objectivo de ajudar o doente a compreender e a acreditar no diagnóstico;

√  A elaboração de ensinos sobre as necessidades, benefícios e efeitos secundários da terapêutica, com o intuito de antecipar a eficácia do tratamento prescrito;

√  A conversa informal, para avaliar e discutir com o doente o impacto potencial da sua doença, e posteriormente com ele definir as estratégias seguintes, tendo em vista a obtenção de comportamentos de adesão ao tratamento e terapêutica por parte deste;

√  A elaboração de ensinos sobre auto-administração de terapêutica, de forma a encontrar com o doente a maneira mais fácil de tomar a medicação, e mais compatível com a sua vida social e laboral, verificando para tal:

  • Se o doente tem como suporte social algum amigo ou familiar, incentivando-o a colaborar neste processo, de forma a apoiar/ajudar o doente.

√   Realização de reuniões com a equipa multidisciplinar para a definição de estratégias de intervenção comuns face à realidade de cada doente.

√  Reestruturação de panfletos informativos existentes nas Unidades/Serviços e elaboração de outros, nomeadamente sobre a terapêutica TOD – toma da medicação controlada a todos os doentes.

Elaboração de uma brochura que estimule a adesão à terapêutica, podendo ser utilizadas as características e efeitos secundários dos fármacos de uma forma pedagógica e com humor.

Este projecto de intervenção tem a finalidade de incentivar o doente a aderir na totalidade aos tratamentos e terapêuticas prescritas, com o objectivo de promover a Qualidade de Vida dos Doentes. A intervenção de Enfermagem neste projecto não deverá permanecer só ao nível do doente durante o internamento, tornando-se mais globalizante e inter accionista, actuando também ao nível dos cuidados de saúde primários, das instituições de apoio a utentes mentais, comunidade, da família. Assim:

  • A articulação de cuidados de enfermagem entre os Serviços e os Centros de Saúde/Unidades de Apoio deve ser feita mediante contacto telefónico e Carta de Transferência/Alta, com o intuito de se aferir os cuidados a prestar ao cliente e de esclarecer dúvidas
  • A intervenção de enfermagem junto dos familiares ou elemento de referência deve ser sempre feita com o conhecimento e a autorização do doente. Consiste na informação da situação de saúde do utente, no ensino pormenorizado sobre a mesma e dos cuidados a ter, é ainda solicitado um contributo especial da família na colaboração e vigilância da toma da terapêutica, sendo para tal efectuado ensino especifico.

Com isto tudo verifica-se que para a eficácia de qualquer tratamento é importante a adesão do doente. Por comportamentos de adesão entende-se o conjunto de comportamentos relacionados com o envolvimento activo, voluntário do doente e de acordo com a prescrição médica (Rogado, Trindade, Carvalho Teixeira, 1997).

Assim, perante o aparecimento destas doenças é necessário um reajuste no estilo de vida mediante uma mudança de atitude do doente, que deverá estar motivado para todo o processo terapêutico tendo um papel activo, quer na aquisição de informação, quer no cumprimento do tratamento, adquirindo a consciência que a adesão terapêutica depende sobretudo da sua atitude, e que desta pode depender o curso da sua doença e consequentemente o seu bem-estar.

ESTRATÉGIAS PARA MELHORAR A ADESÃO

A adesão é responsabilidade do doente, do médico e do sistema de saúde. Idealmente a equipa que trata os utentes com patologia mental deve ser multidisciplinar, incluindo o Médico, o Enfermeiro, o Psiquiatra, o Psicólogo e o Assistente Social, o Terapeuta Ocupacional, o Auxiliar.

Algumas das estratégias utilizadas pelos diversos elementos da equipa multidisciplinar para melhorar a adesão têm sido as seguintes:

– Informação adequada do doente em relação à doença, à eficácia terapêutica dos esquemas utilizados, efeitos laterais potenciais dos fármacos, interacções medicamentosas, consequências da má adesão.

A informação é fornecida ao doente pelo médico durante a observação, sendo complementada pelos enfermeiros.

– Esquema terapêutico fácil e o mais adequado possível ao doente, tendo em conta o seu perfil psicológico e o seu ritmo de vida diário. O mais eficaz método de promover a adesão é a simplificação do esquema terapêutico. Cumprimento de TOD a todos os doentes.

Procurar integrar o esquema nos horários do doente, nomeadamente tendo em conta a hora das refeições, de acordar e de ir para a cama.

– Identificação de doentes de risco para não adesão, nomeadamente, casos de consumo de drogas ou álcool ou ausência de suporte familiar e / ou social.

A comunicação entre os vários elementos da equipa de trabalho é contínua, numa tentativa de identificação destes problemas e sua resolução.

A ligação com Instituições Sociais de apoio torna-se necessária e muitas vezes essencial, tendo em conta que uma grande percentagem dos doentes mentais tem problemas sociais graves.

– Maior investimento para o desenvolvimento de uma boa adesão durante as primeiras semanas do tratamento, pois o nível de adesão na fase precoce de terapêutica é preditiva da adesão a longo prazo.

– Demonstrar disponibilidade e ausência de juízos de valor em relação à adesão. A confiança e um bom relacionamento com a equipa de saúde são factores importantes na promoção de uma adesão adequada. Uma das formas de avaliação do grau de adesão é simplesmente inquirir o doente sobre esta, sem o pretender julgar ou fazer sentir culpado.

Um factor importante para a adesão é a percepção que o indivíduo tem da sua doença, assim como a correcta informação das consequências, a curto e a longo prazo, do não cumprimento da medicação.

É da responsabilidade do médico e dos outros profissionais de saúde fornecer a informação adequada para que o doente faça o seu julgamento e fundamente as suas opções. Muitas vezes a complexidade técnica desta informação leva a que rapidamente seja esquecida. Cabe aos profissionais de saúde torná-la o mais simples e objectiva possível. Mesmo com a informação adequada e interiorizada muitos doentes podem continuar não aderentes. O médico/enfermeiro deve tentar perceber quais os factores que funcionam como obstáculo para uma completa adesão e procurar meios para os ultrapassar.

BIBLIOGRAFIA:

  • Castro, 2000;

  • Davidson, 1982; Turk & Meichenbaum, 1991 ap. Reis, 1999: 424;

  • Eldred et al., 1998; Giofford et al., 1998; Singh et al., 1996; ap. Filipe et al., 2000: 276 ;

  • Haynes, Taylor & Sackett, 1979 ap. Santos e Barros, 1999;

  • Marques, 1999: 32;

  • Poças www.aidscongress.net in Internet;

  • Rogado, Trindade, Carvalho Teixeira, 1997.

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DOENTE ESQUIZOFRÉNICO NO SEIO FAMILIAR

Jan 14, 2013

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SCHIZOPHRENIC PATIENT WITHIN FAMILY

 

EL ENFERMO ESQUIZOFRÉNICO EN FAMILIA

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RESUMO

A doença mental e, em particular, a esquizofrenia afecta profundamente a família, e aceitar
que um familiar sofre desta doença leva o seu tempo. Na nossa sociedade ainda existe um grande estigma em volta das pessoas que sofrem de doenças mentais, não havendo um grande conhecimento sobre elas, daí que quando esta surge na família, estes não sabem como agir com o seu familiar, a quem recorrerem, não compreendendo os comportamentos cada vez mais anormais, ficando por isso sujeitas a grandes pressões

Palavras chave: Família, esquizofrenia, doente

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ABSTRACT

Mental ilness and, particularly, schizophrenia, profoundly affects the family, and takes his time having to accept the fact that one of your own suffering from this disease. In our society, there´s still a huge stigma surrounding people who suffer from mental illness, without a great knowledge about it, so when it appears in your own family, they do not know how to act, who use aid, not inclunding the increasingly abnormal behaviour, leaving therefore subject to great pressure.

Keywords: Family, schizophrenia, patient

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INTRODUÇÃO

A família é um sistema muito complexo, uma vez que não existem duas famílias iguais, é a principal unidade básica de desenvolvimento pessoal a que pertence um indivíduo e, igualmente o local onde se vivência um conjunto de experiências fundamentais para a formação da sua personalidade. Desde sempre tem havido a consciência de que a família é uma estrutura social importante, que tem um impacto crucial no desenvolvimento e na saúde do indivíduo.

Se a doença que surge num dos membros da família for do foro da  saúde mental, é vivida pelos familiares de forma mais dramática, originando uma situação  de crise que modifica a estrutura habitual da família e o movimento natural do ciclo de vida  familiar.

O doente esquizofrénico não deve ser considerado como um indivíduo isolado, afectado de perturbações intrapsíquicas de base hereditária, constitucional, somática ou bioquímica, mas inserido num contexto social no sentido mais lato, desde a classe social,  meio cultural ao ambiente familiar, que influencia o indivíduo de maneira fundamental, condicionando o conjunto de valores educativos, as atitudes, a posição social nas quais o  doente esquizofrénico se forma e desenvolve.

A ADAPTAÇÃO DA FAMÍLIA PERANTE O SURGIR DE UM DOENTE ESQUIZOFRÉNICO NO SEU SEIO

O conceito de família tem vindo a mudar ao longo dos tempos, acompanhando as mudanças económicas, culturais e religiosas no contexto onde se encontra inserida. Todas as famílias passam por várias crises durante o seu desenvolvimento, provocando uma série de mudanças nas suas funções, originando a aquisição de um maior ou menor grau de capacidade de reestruturação do seu modo de vida, estabelecendo-se um padrão próprio para lidar com a crise. Quando surge uma nova etapa ou um novo elemento, se esta família não tiver capacidade de se organizar surge então o conflito.

A doença mental e, em particular, a esquizofrenia afecta profundamente a família, e aceitar que um familiar sofre desta doença leva o seu tempo. Na nossa sociedade ainda existe um grande estigma em volta das pessoas que sofrem de doenças mentais, não havendo um grande conhecimento sobre elas, daí que quando esta surge na família, estes não sabem como agir com o seu familiar, a quem recorrerem, não compreendendo os comportamentos cada vez mais anormais, ficando por isso sujeitas a grandes pressões ( WIKIPÉDIA 2005 ).

A família é um sistema aberto, integrado por partes em interacção, que se modificam se algum dos seus elementos se alterar. Todos mudam para manter o equilíbrio dinâmico, mesmo que, aparentemente, só um tenha sofrido alterações. De certa forma, a patologia individual converte-se em patologia familiar, porque todos sentem a influência negativa do sofrimento. A família como tal não é a mesma antes, durante e depois da doença.

A doença, como crise, supõe uma ruptura do equilíbrio anterior da família, que a desestabiliza perturbando os respectivos membros. Esta situação constitui uma das dificuldades que o doente esquizofrénico sente.

Geralmente, a alteração do comportamento do doente esquizofrénico, é notada por um ou mais membros da família.

Para a família “tudo é muito complicado”, quando há um doente mental em casa.  Todas estas se sentem sós para fazerem face aos problemas. Com efeito, a doença quando surge num dos elementos deste complexo relacional é um dado novo. Geralmente é uma situação que nunca é esperada, não havendo preparação para enfrenta-la. Como tal, cria desadaptações mais ou menos graves nos familiares ditos “sãos”, atingindo a pessoa doente. É pois uma situação problemática e difícil, tanto mais quando se trata de uma doença mental, uma vez que sai do domínio da “normalidade”. A falta de informação dos problemas relativos à doença mental deixa-as desarmadas quando surgem os primeiros sintomas da doença, onde uma maior e melhor informação permitir-lhes-ia compreender o que se  passa e atenuaria a angústia que emerge perante o desconhecido.

As dificuldades materiais que surgem da doença mental contribuem também para modificar a estrutura da família e para criar novas relações entre os seus membros. Alguns deles, o pai ou a  mãe, vê-se obrigado a parar ou a retomar o seu trabalho em função das necessidades do doente.

Esta situação pode provocar-lhes uma reacção de frustração, mesmo um certo ressentimento contra o doente, uma sensação de injustiça perante a sociedade, que não assume a parte das suas responsabilidades. Com efeito, os tratamentos ocasionam despesas que nem sempre correspondem aos critérios de reembolso da Segurança Social.

Devido à doença e às suas consequências, a família percebe-se e é percebida de modo diferente pelo ambiente social. Com frequência, a relação com os outros perturba-se, mesmo que eles se mostrem compreensivos.

Perante estas dificuldades, as atitudes das famílias face à doença são diferentes. MORENO(1992) salienta que, as famílias reagem segundo o contexto que lhes é próprio, oscilando  entre duas atitudes extremas. No primeiro caso, sentem-se responsáveis pela doença:  censuram-se por erros educativos; consideram-na um fenómeno hereditário ou sentem-se  vítimas do destino. No segundo caso: responsabilizam o doente ou atribuem a acontecimentos exteriores traumatizantes, como o serviço militar, desgosto sentimental, intervenção cirúrgica, entre outros.

O desgaste, tensões e conflitos causados pelo convívio com uma pessoa mentalmente perturbada frequentemente constituem os problemas mais graves para as famílias. Os próprios sentimentos dos parentes em relação ao doente e à sua doença contribuem para odesgaste experimentado pelas famílias e tais sentimentos incluem entre outros, a culpa, a ansiedade e a raiva. O sentimento de culpa, isto é, a ideia de que se é responsável pela doença  mental de um familiar próximo, é comum e muito angustiante. A culpabilidade é um dos principais factores que, por vezes, impede as pessoas de pedir e de receber ajuda (WIKIPÉDIA 2005).

O clima emocional da família com um doente esquizofrénico caracteriza-se também por muita  ansiedade quanto à maneira correcta de lidar com o doente e pelos problemas aumentados da vida familiar. Entretanto, segundo (CORDO 1992), o sofrimento é tanto menos aceite pela família quanto mais jovem for o doente. Normalmente, à juventude está associado um bom equilíbrio físico e mental.

Para que a família possa caminhar ao lado do doente, e não no sentido contrário, é imprescindível que os vários elementos da  família respeitem as necessidades de cada um, devem decidir que um tipo de comportamento é inaceitável e devem ser capazes de impor esses limites. Quando é um dos elementos do casal, é importante manter um equilíbrio de poder entre eles, ajustar os papeis dos membros da família para que o doente possa encontrar uma área de competência que contribua para o bem estar da família, assegurar que o outro membro do casal possa ter um tempo para si.

Na opinião de Elenor Smith (citado por SANTÉ ET BIEN-ÊTRE SOCIAL, 1991), é raro a família reconhecer o seu próprio stress. A pessoa doente torna-se uma prioridade e com o tempo a família acaba por se “esgotar”, o que pode originar a depressão, a ansiedade, o esgotamento e doenças psicossomáticas.

O papel activo da família é essencial para o tratamento, reabilitação e reinserção social do seu familiar que sofre de esquizofrenia. Muitas famílias procuram o apoio junto dos técnicos de saúde, permitindo assim que esta superem e sobrevivam às dificuldades que encontram, no entanto, há aquelas que não o fazem levando ao seu adoecimento, ou seja, não conseguem lidar com as crises, conduzindo à sua desestruturação ou destruição.

A família deve estar preparada para o facto de o doente puder ter recaídas ao longo do tempo, o que pode conduzir a um possível internamento hospitalar. É bastante importante o apoio da família ao doente durante o tempo da sua permanência no hospital, através de reforço positivo, comunicação, visitas, mostrar interesse em saber como vai a evolução da sua doença.

É natural que muitas dúvidas surjam na família em relação ao comportamento que vão ter de adoptar perante esta nova etapa da vida do seu familiar. Primeiro que tudo é importante que o familiar comece por se colocar no lugar da outra pessoa.

Os problemas que geralmente ocorrem na família do esquizofrénico são os seguintes (WIKIPÉDIA 2005):

Medo… “Ele poderá fazer mal a si ou às outras pessoas?”

Negação da gravidade… “Isto daqui a pouco passa”

Incapacidade de falar ou pensar noutra coisa que não seja a doença… “Toda a nossa vida gira em torno do nosso filho doente”

Isolamento social… “As pessoas até nos procuram, mas não temos como fazer os programas que nos propõem”

Constante busca de explicações… “Ele está assim por algo que fizemos?”

Depressão… “Não consigo falar da doença do meu filho sem chorar”

RELATO DE UMA FAMÍLIA TIPO

Para ilustrar melhor o sofrimento de uma família tipo, vou transcrever pequenos estratos de uma carta de 11 páginas dirigida ao serviço de admissão de doentes da Casa de Saúde do Telhal , pela mãe de um jovem com esquizofrenia, que ilustra bem todo este problema:

“História de amor…Uma caminhada tão preenchida de muito amor, mas, também de muito sofrimento, por vezes dias tão dolorosos, que, só o companheirismo e o amor nos tem deixado sobreviver….Depois de uma espera e busca para ter filhos, fomos confrontados que não podíamos ser pais biológicos,….

Em 82, estávamos de férias numa vila do interior…adoptámos um bebé…saímos com o nosso T. ao 4º dia de vida do hospital, com um simples papel que foi lavrado em acta por alguns responsáveis do hospital e da misericórdia local….

O T. foi crescendo ao longo dos anos, surgindo alguns problemas, mas era uma criança feliz.

Ao morrer a avó do T. que viveu connosco os últimos anos, ele faz um luto muito complicado, não aceita a perca da avó fica muito agressivo, e começa a fazer um acompanhamento na Clínica da Juventude, a nossa vida começa a fechar-se, os amigos afastam-se, não por falta de amizade, mas, porque o convívio vai ficando impossível, deixámos de poder ter férias,….

…trabalho nove horas por dia para que não me chamem a atenção do tempo que perco com o T, mas mesmo assim é muito difícil, ninguém (ou muito poucas pessoas) está preparado para entender uma doença crónica, em especial do foro psiquiátrico.

Depois de nova mudança de escola a saúde mental do T. agrava-se e entra num período muito complicado, fica muito agressivo, com oitenta quilos, uma força desmedida e descoordenada, revolta-se, assim o vemos ficar sem afectos, agredindo-nos todos os dias, temos cada vez mais dificuldade em o levar para a carrinha, em o segurar na rua, sem capacidade para fazer compras, aí a nossa vida volta a fechar-se mais ainda, sem ajudas, até a família só passa a falar ao telefone e às vezes para se pouparem à realidade até isso vão deixando de fazer…nós pessoas de paz, vivemos momentos de terror…. Vamos para o trabalho nesses dias desfeitos, envolvidos em pancada todas as manhãs, correndo riscos muito sérios de vida,…, vivemos fins-de-semana em que comíamos com as mãos, para não por talheres na mesa, pois isso eram armas fáceis para o T. …ele tinha um pensamento constante, matar e matar o pai, a porta da cozinha estava sempre fechada à chave, só assim se pernoitava, manter de dia a trabalhar com estes inícios de manhã, e a incerteza no coração do regresso a casa, achei que íamos mesmo morrer aqui os três….

Temos uma vida sem convívio, fazemos tudo um de cada vez, quando um sai nem que seja para beber um café o outro fica em casa com o T.….

Na nossa vida passamos por situações que não agradam ao T., fico triste por o ver tão longe de se encontrar. Também está com uma diabetes insulina-dependente.

Estamos muito cansados, e só queríamos ver o T. feliz, protegendo-o sempre, e ter um tempinho que fosse para viver um pouco o casamento, tomar um café juntos, ler um livro, visitar um museu, ou ir mesmo uma vez ao cinema, não ser só estarmos juntos em situação de remediar todas estas situações sem solução.

Se nada puder fazer por nós, pelo menos leu o nosso testemunho, se me expressei mal ou fui muito descritiva é porque me é difícil falar da nossa vida de amor, mas tão dolorosa e difícil.

O T. é a razão da nossa vida, mas queríamos muito uma restinha de tempo para ver o T. bem, e nós a caminhar juntos bem e orgulhosos pela nossa vida e História de Amor, e de tanta partilha….”

INTERVENÇÃO NAS FAMÍLIAS PERANTE O SURGIR DE UM DOENTE  ESQUIZOFRÉNICO NO SEU SEIO

Os doentes e seus familiares procuram nos Profissionais de Saúde diferentes tipos de ajuda, permitindo assim que superem e sobrevivam às dificuldades que encontram, onde o enfermeiro desempenha um papel de agente facilitador, estimulador e motivador da aprendizagem (Pearson, e outros, 1992).

Depois dos primeiros momentos de desarranjo familiar é importante a ida a uma consulta médica urgente, que permita um diagnóstico claro e precoce da pessoa doente, evitando internamentos e que assegura um melhor prognóstico. Deixar passar o tempo só ajuda a aumentar o sofrimento do doente e família e o risco de cronicidade, desta forma os cuidados de enfermagem têm como primeiro objectivo a promoção da saúde, tendo em conta a manutenção e o desenvolvimento da saúde das famílias e dos seus membros, através de processos de aprendizagem.

O enfermeiro deve ensinar à família o que pode tentar fazer inicialmente para convencer o doente da necessidade de comparecer a uma consulta médica:

Não tratar o doente de forma diferente daquela que sempre se tenha feito;

Criar um ambiente próximo e de afecto para falar do que se está a passar;

Partilhar desde o princípio com o doente a preocupação que cada um dos membros da família tem para que venha a encontrar-se bem;

Falar claramente de cada uma das alternativas que à família ocorrem, já que o doente é o principal interessado;

Também pode ser útil que a aproximação seja feita pelo familiar mais próximo dele, que lhe mereça maior confiança;

Não permitir ao doente “abusar” dos membros da família, a pretexto da sua doença; os familiares devem ser “compreensivos” mas “não permissivos”;

Deve socorrer-se dos argumentos que seriam utilizados numa doença física.

Se o doente resiste em ir à consulta, os familiares devem aproveitar igualmente o espaço terapêutico a que têm direito, utilizando-o para desabafar e aprendizagem familiar. É de primordial importância que o enfermeiro ajude o doente e a sua família a identificar a ou as circunstâncias imediatamente anteriores ao momento em que surgem as crises, para assim as se poderem evitar. O ponto fulcral dos cuidados de enfermagem está baseado na interacção da família, saúde, aprendizagem e colaboração.

Na perspectiva de Moyra Allen o processo de enfermagem baseia-se na aprendizagem por parte da família/indivíduo, de condutas para a promoção da sua saúde, necessitando para isso, do desenvolvimento de uma colaboração essencial entre o enfermeiro/pessoa/família a cuidar, nunca esquecendo o contexto social no qual a aprendizagem se efectua (Pearson, e outros, 1992). Assim o enfermeiro deve dar esperança à família, reforçando em relação ao prognóstico, que muitas pessoas que desenvolvem esquizofrenia podem melhorar e serem capazes de fazer uma vida relativamente normal fora do hospital. Deve também orientar os familiares a enfrentarem a recusa da toma da medicação, em momentos de equilíbrio e não na situação de desespero própria da crise. Deve ensinar à família a proporcionar uma atmosfera calma em vez de argumentativa, com atitudes previsíveis em vez de inconsistentes, com apoio e tolerância para com o doente, em vez de rejeição.

CONCLUSÃO

Como conclusão posso extrair as seguintes ideias chaves:

O “mito” da esquizofrenia, o desapontamento perante a sua imprevisibilidade, o carácter inesperado de que se reveste, o desconhecimento do que deve ou não deve ser feito, são factores que desestabilizam a dinâmica familiar;

O impacto que uma pessoa com esquizofrenia tem na família e a forma como esta se adapta face à situação depende da singularidade de cada um dos seus membros, mas também da forma como a doença surge (insidiosa ou abrupta), o seu curso, as suas consequências, no sentido de haver risco de vida ameaçada ou não (fase de crise à fase crónica), e ao grau de incapacidade gerado. Todos estes factores têm de ser vistos numa perspectiva psicossocial e não isoladamente. O que precisamos de ter em atenção é que o próprio esforço de adaptação por parte da família pode ter como consequência um estado de exaustão por parte desta.

Ver com outros olhos a pessoa doente, confiar nas suas possibilidades, abrirá novas perspectivas à sua saúde e dos seus familiares. Sendo necessário ser claros, não mentir nem emitir mensagens contraditórias, ajudando assim a que o doente vá encontrando o equilíbrio que necessita e a evitar que experimente maior confusão;

Cada pessoa afectada por uma enfermidade mental requer uma atenção individualizada em função da sua especificidade. Quanto mais cedo se iniciar a reabilitação, maiores serão as possibilidades de manter as capacidades de relação consigo própria e com o seu círculo envolvente, será também menor a deterioração.

A partir destas conclusões deste podemos extrair as seguintes recomendações/sugestões:

Seria benéfico para as famílias ter valências de saúde mental distribuídas pela comunidade, de forma a poderem satisfazer as necessidades da população;

São necessários cada vez mais técnicos especializados na área de saúde mental, de forma a poderem ajudar a população.

Todos os membros da família podem ser protagonistas de pequenas mudanças saudáveis na inter-relação, as quais também se repercutem no processo de recuperação do familiar doente;

Nenhuma verdadeira melhoria ocorre da noite para o dia; é importante estar atento a cada pequena mudança que se produz nesse sentido e poder valorizá-la.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASTEIRO, Sílvia; GIL, Carmen Maria; MARÍN, Remédios (2003). Guia para familiares  e doentes mentais. Lisboa, Federação Nacional das Associações de Famílias Pró-Saúde  Mental.

CARTA dirigida ao serviço de admissão de doentes da Casa de Saúde do Telhal a solicitar internamento (2004).

CORDO, Margarida (Abril – Junho, 1992). Desfamiliarização/refamiliarização dos doentes psíquicos em situação de longo internamento. Hospitalidade, revista de saúde mental,  relações humanas e problemas de marginalização nº 219, 49 – 56.

CORDO, Margarida e Outros (1995). Intervenção nas famílias com doentes psiquiátricos –  1994 Ano Internacional da Família. Telhal, Editorial Hospitalidade.

JENNER, F. A.; CARDOSO, J. A. Zagalo; MONTEIRO, António C. D.; OLIVEIRA, J. A. Cunha. (1992). “Esquizofrenia” – Uma doença ou alguns modos de ser humano? Lisboa, Editorial Caminho, SA.

MARCOLINO, Alberto, M. Carvalhosa (1987, Julho-Dezembro). Conferência Internacional para a promoção da saúde – Carta de Otawa, Revista Portuguesa de Saúde Pública (5), 3- 4.

MORENO, Mariano Galve (Outubro – Dezembro, 1992). As famílias e os círculos malditos  da doença mental. Hospitalidade,  revista de saúde mental, relações humanas e problemas de marginalização nº 221, 8 – 25.

PASCOAES, Teixeira de (1984). São Paulo, Lisboa – Assírio & Alvim.

PEARSON, A. ; VAUGHAN, B. (1992). Modelos para o exercício de enfermagem. Lisboa, ACEPS, 178 p.

SANTÉ, et Bien-Être Social (1991). La Schizophrénie – Guide l´intention des families. Publié en collaboration avec la Societé Canadienne de Schizophrénie, Canadá.

WIKIPÉDIA, Web page internet. Esquizofrenia. http://www.hostgold.com.br/hospedagem-sites/Esquizofrenia. 10-10-2005.

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UM OLHAR SOBRE A SAÚDE MENTAL EM PORTUGAL

Jan 12, 2013

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A OVERVIEW ON THE MENTAL HEALTH IN PORTUGAL

UNA MIRADA SOBRE LA SALUD MENTAL EN PORTUGAL

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AUTORES: Albano Ramos, César Fonseca, Vítor Santos

Resumo

Introdução: O Relatório Mundial da Saúde proporciona em muitos aspectos, uma nova forma de compreender as perturbações mentais, dando uma nova esperança aos doentes mentais e às respectivas famílias em todo o mundo. Examina minuciosamente a prestação e o planeamento de serviços e finda com um conjunto de recomendações de longo alcance que cada país pode adaptar de acordo com as suas necessidades e os seus recursos.Objectivos:Estabelecer a aplicabilidade de cada uma das recomendações em Portugal. Métodos: Pesquisa bibliográfica realizada em várias obras, estabelecendo sobretudo uma co-relação entre as recomendações do Relatório Mundial da Saúde para a saúde mental e as Orientações estratégicas para 2004 – 2010 do plano nacional de saúde. Conclusões: Portugal encontra-se em relação à saúde mental, nalguns aspectos, ainda distante daquilo que mundialmente se preconiza e aparentemente sem capacidade para contrariar essa evidência. Assim, é difícil num curto período de tempo preconizar a desinstitucionalização global e bem planeada dos doentes psiquiátricos.

Palavras-Chave: Saúde mental, Portugal, desinstitucionalização.

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Abstract

Introduction: A new way in order to understand mental diseases is given, in many aspects, by the World Health Report, as it becomes as a new hope for mental ill people and their families. Services delivery and planning is accurately examined, and it finishs with a long range whole recommendations, wich every country can adopt, according with their needs and resources. Goals: To settle that each recommendation will be applied in Portugal . Methods: Bibliographic research has been done among several works, in order to establish mostly a co-relationship between World Health Report for mental health and National Health Strategic Plan Orientations for 2004-2010. Conclusion: In a way, concerning mental health, Portugal stands away from world-wide recommendations and apparently without cappabilities in order to oppose the situation. So, in a short time, is rather dificult that a global and well planed psychiatric patients de-establishing will be preconize.

Key words: Mental Health, Portugal, De-establishing.

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INTRODUÇÃO

A Organização Mundial da Saúde procura com a publicação do Relatório Mundial da Saúde despertar a consciência do público e dos profissionais para o real ónus das perturbações mentais e os seus custos em termos humanos, sociais e económicos. Pretende-se também  que ajude a derrubar muitas barreiras, tais como o estigma, a descriminação e a  insuficiência dos serviços que impedem milhões de pessoas em todo o mundo, não fugindo  Portugal à regra, de receber o tratamento de que necessitam e que merecem.
O Relatório  Mundial da Saúde proporciona em muitos aspectos, uma nova forma de compreender as  perturbações mentais, dando uma nova esperança aos doentes mentais e  as respectivas famílias em todo o mundo. Este relatório examina minuciosamente a prestação e o planeamento de serviços em Saúde Mental e finda com um conjunto de recomendações de longo alcance que cada país pode adaptar de acordo com as suas  necessidades e os seus recursos.

RECOMENDAÇÕES PARA A ACÇÃO, SUA APLICABILIDADE EM PORTUGAL

O relatório aponta des ta forma, dez recomendações para a acção e, é sobre a aplicabilidade de cada uma destas dez recomendações em Portugal, que me vou debruçar de seguida:

Proporcionar tratamento em cuidados primários

O nosso país tem uma taxa elevada de  tentes sem se poderem inscrever nos Centros de Saúde devido a vários factores, sendo o mais marcante a falta de clínicos gerais ( médico de família ) e de enfermeiros, entre outros profissionais de saúde. Sem a inscrição nos respectivos Centros de Saúde qualquer utente fica condicionado no acesso aos cuidados primários. Temos assim um número elevado de utentes para um baixo número de profissionais de saúde, juntando a isso uma rede de cuidados primários e comunitários com infra-estruturas inadequadas e insuficientes. “ Num processo de produção em que as novas tecnologias não são substitutivas de mão-de-obra, como sucede noutro tipo de organizações, é reconhecida a carência de profissionais, … – nomeadamente de enfermeiros, médicos, técnicos de diagnóstico e terapêutica, assistentes sociais – que se assume como sendo um dos obstáculos ao desenvolvimento dos projectos de saúde que se pretendem concretizar” ( Ministério da Saúde, 2004 ).

Disponibilizar medicamentos psicotrópicos

Hoje em dia existem múltiplos medicamentos psicotrópicos, sendo uns mais recentes que outros e consequentemente mais eficazes atenuando de forma mais incisiva os sintomas, reduzindo a incapacidade: abreviando o curso de muitas perturbações, prevenindo recorrências; com menor número de efeitos secundários. Em Portugal, estes medicamentos existem, mas não de forma equitativa pelos diversos serviços de saúde, pois se eles são presença assídua nos grandes hospitais psiquiátricos, já não o são a nível dos cuidados de  saúde primários onde quando existem, são em quantidade insuficiente. O preço elevado dos  psicotrópicos de última geração ( considerados mais eficazes ), condiciona a sua prescrição e  administração em meio hospitalar e, de forma mais significativa ao nível dos cuidados de saúde primários.

É o próprio Ministério da Saúde ( 2004 ), a reconhecer que tem que melhorar o acesso aos medicamentos.

Para tal serão contempladas várias intervenções:

Uma harmonização do regime de acesso aos medicamentos destinados a patologias raras debilitantes e às doenças crónicas;
Informação e formação especializada aos profissionais de saúde e através da priorização da autorização de introdução no mercado e comparticipação.
Preconiza ainda contemplar o desenvolvimento de um sistema de cedência de medicamentos a nível dos cuidados de saúde primários, à semelhança do que ocorre em meio hospitalar, de forma a aproximar os recursos disponíveis do cidadão e como estratégia de encaminhamento do cidadão dos cuidados diferenciados para os cuidados de saúde primários. Tal situação torna-se mais importante no que diz respeito às doenças crónicas que possuem condições de ser tratadas em regime ambulatório, evitando dificuldades que possam afectar negativamente a adesão à terapêutica e ao controlo da doença.

Proporcionar cuidados na comunidade 

Nos últimos tempos muito se tem falado no encerramento dos hospitais psiquiátricos públicos e na desinstitucionalização dos doentes aí internados, com a sua consequente integração na comunidade, com o apoio de camas psiquiátricas a nível dos hospitais distritais. Por muito boas intenções que esta ideia tenha, ela é impraticável com as infraestruturas existentes actualmente em Portugal, pois para tal é necessário criar e desenvolver serviços de prestação de cuidados na comunidade, apoiados por camas psiquiátricas nos hospitais distritais e cuidados domiciliários, que respondessem a todas as necessidades dos doentes agora internados nos hospitais psiquiátricos. É uma medida que só se poderá por em prática num médio – longo prazo e, mesmo assim dependendo de uma boa organização e gestão e de recursos.

Segundo Baganha, a prestação de cuidados de saúde é assegurada, em cada região, pelos hospitais e pelos centros de saúde. O que se verifica na prática é que os centros de saúde têm uma posição enfraquecida perante o hospital. Isto apesar de, a nível político, os cuidados de saúde primários sempre terem sido considerados como a base do Sistema de Saúde e, portanto, uma prioridade política. Tal cisão entre a realidade e a prática efectiva é visível na distribuição de verbas, equipamentos e recursos humanos pelos centros de saúde e hospitais. Neste último caso, os dados do Ministério da Saúde ( OPSS, 2001 ) dizem-nos que, no ano de 1998, os efectivos distribuíam-se de forma desigual: 27 % dos efectivos do Ministério da Saúde estava nos centros de saúde e 73 % nos cuidados hospitalares.

De acordo com a obra supra citada, 47% das despesas correntes do Sistema Nacional de Saúde ia para os cuidados de saúde primários e 53 % para os cuidados hospitalares.

Como resultado desta discrepância temos uma oferta de serviços ambulatórios públicos que não consegue corresponder às necessidades da população, o que faz com que haja um aumento da procura dos hospitais ( EOCHCS, 1999 ).

A desinstitucionalização de doentes dos hospitais psiquiátricos também só será possível se os próprios organismos do estado mudarem a filosofia actual de internamentos, isto porque hoje em dia, são os próprios organismos do estado ( Segurança Social, hospitais distritais, etc. ) que por não terem capacidade nem meios para, incentivam e solicitam o internamento de doentes nos hospitais psiquiátricos públicos e dos Institutos Hospitaleiros. Quanto aos hospitais distritais, já de si pequenos para tantas necessidades, onde é que irão arranjar espaço para construírem serviços de psiquiatria?

Para agravar ainda mais a situação temos uma  inadequada política de contratação e distribuição dos recursos humanos pelos diferentes serviços de saúde, pois o que se verifica é o aumento de profissionais de saúde ( que não mostram interesse em mudarem pois já aí têm interesses instituídos ) nos grandes hospitais, ficando os cuidados de saúde primários e na comunidade despovoados de profissionais de saúde, acentuando-se ainda mais na periferia das grandes cidades e no interior do país. Segundo o Ministério da Saúde ( 2004 ), a concentração de médicos e enfermeiros nos estabelecimentos de saúde do litoral, nomeadamente em Lisboa, Porto e Coimbra, tem conduzido a problemas de escassez destes profissionais nos serviços da extrema periferia com a consequente dificuldade de resposta às solicitações das populações que servem.

Educar o público

Desde sempre que os “ loucos ” foram estigmatizados e vítimas de exclusão social, sendo sempre que possível colocados em hospícios longe de tudo e de todos. Ainda hoje, no nosso país se vive esse estigma, não estando a população em geral, políticos e até mesmo os profissionais de saúde preparados para viverem lado a lado com pessoas portadoras de perturbações mentais, pois numa sociedade tradicionalmente conservadora como a nossa, difícil é a mudança de mentalidades. Por outro lado, difícil também será educar e sensibilizar a população em geral, políticos e até mesmo os profissionais sobre a importância da saúde mental, pois esta ainda não é vista como parte integrante de uma saúde plena. Sendo no entanto esse um objectivo a prosseguir seguindo todas as orientações de política de saúde Europeia e Nacional.

Investir-se-á na promoção dos direitos humanos das pessoas com doença mental e na implementação de medidas contra o estigma ( Ministério da Saúde, 2004 ).

Envolver as comunidades, as famílias e os utentes

Qualquer tomada de decisão deveria ser acompanhada de uma prévia auscultação às pessoas intervenientes e visadas no respectivo processo. Neste momento em Portugal, prepara-se o Ministério da Saúde para unilateralmente formular e tomar decisões políticas a nível da saúde mental e da psiquiatria sem que tenha consultado as comunidades, as famílias e os utentes envolvidos. Uma decisão como a de encerrar os hospitais psiquiátricos, tendo com principal factor impulsionador o facto de colocar os doentes na comunidade junto das respectivas famílias, deveria ter em conta primeiro a opinião dos doentes mentais e em segundo o facto de mais de 30 % destes não terem qualquer tipo de familiares fora da instituição onde se encontram internados, já para não falar nos muitos deficientes mentais que nem a sua opinião conseguem verbalizar.

É o próprio Ministério da Saúde ( 2004 ), a preconizar a mudança centrada no cidadão: “A    percepção da equidade como um valor  realmente orientador da acção no sector da saúde é essencial para garantir uma maior aproximação entre o cidadão e o poder político, assim como uma cidadania mais centrada na participação activa na vida pública em geral e nas coisas da saúde em particular, aumentando as opções de escolha do cidadão, multiplicando os mecanismos de participação do cidadão no sector da saúde, dando voz à cidadania através de organizações da sociedade civil, combatendo as causas subjacentes às principais doenças relacionadas com os estilos de vida e criando um contexto ambiental conducente à saúde”.

Estabelecer políticas, programas e legislação nacionais

Portugal estabeleceu a introdução de novas políticas, programas e legislação sobre saúde mental a incrementar num curto espaço de tempo, resta agora saber de que forma o conseguirá fazer e com que verbas, uma vez que o país atravessa uma grave crise económica e financeira e que as medidas preconizadas envolvem um impacto tremendo a nível organizacional e são necessárias verbas avultadas para a sua concretização.

A legislação portuguesa referente ao sector da saúde caracteriza-se pela ausência de um código da saúde que centralize todas as normas fundamentais nesta área, e ainda pela existência de leis com grande importância estratégica na saúde que, apesar de nunca terem sido revogadas, se encontram caducas. Por este motivo, é necessário actualizar a legislação de saúde, através da criação de uma estrutura com funções de avaliação e correcção das insuficiências e lacunas da legislação de saúde em Portugal ( Ministério da Saúde, 2004 ).

Preparar recursos humanos

A eficiência de qualquer organismo ou empresa avalia-se entre outras coisas pela quantidade  dos seus recursos humanos mas sobretudo pela sua aptidão e pela formação quer básica, quer pós básica. Em Portugal a juntar ao baixo número de profissionais de saúde temos a sua pouca formação em saúde mental. Quanto à Enfermagem, os cursos bases continuam a não incluír de forma transversal a saúde mental nos seus conteúdos programáticos, optando pela sua inclusão em determinado momento específico do curso; quanto aos cursos de especialização em saúde mental estes tiveram encerrados cerca de 10 anos e aquando da sua reabertura são as próprias escolas a preferirem outras áreas de especialização em detrimento da saúde mental.

No âmbito da formação na área da enfermagem, começa a ser premente a oferta de cursos de pós-graduação, de maior especialização. Com efeito, após a extinção dos cursos de estudos superiores especializados, acentuou-se a carência de enfermeiros especializados ( Amaral, 2001 ).

Num mundo cada vez mais voltado para as tecnologias, também os jovens profissionais preferem iniciar a sua carreira num serviço de urgência, num bloco operatório ou numa cirurgia do que num serviço de psiquiatria, levando a que depois toda a sua formação pós básica seja efectuada em função dos serviços onde trabalham, ficando mais uma vez a psiquiatria para trás, com profissionais cada vez mais idosos e desgastados.

Existem áreas com um forte défice de pessoal, como sejam a da Saúde Materna e Obstetrícia e de Saúde Mental ( em que há um enfermeiro por 6531 habitantes e um enfermeiro por 10362 habitantes, respectivamente ), as idades médias são superiores a 45 anos. Perspectiva-se, assim, uma escassez de recursos humanos nestas áreas ( Ordem dos Enfermeiros, 2000 ).

Estabelecer vínculos com outros sectores

Um país bem organizado tem uma interligação entre os seus diversos sectores. As novas medidas que se pretendem tomar a nível da saúde e mais concretamente na saúde mental, deveriam ter como pano de fundo uma interligação entre sectores como o da saúde, educação, trabalho, segurança social, justiça, bem como o envolvimento de certas organizações não-governamentais. Como é do conhecimento comum Portugal não prima pela interligação dos seus diversos sectores, o que logo à partida irá comprometer seriamente qualquer medida que seja tomada a nível da reorganização dos serviços de saúde mental e psiquiatria.

Segundo o Ministério da Saúde ( 2004 ) a saúde mental percorre transversalmente todos os problemas de saúde humana, sendo fundamental a articulação dentro da saúde, em particular com os cuidados de saúde primários e o envolvimento com outros sectores e áreas, nomeadamente a educação, a segurança social, o trabalho, a justiça, a defesa, o serviço nacional de bombeiros e protecção civil, as autarquias, as organizações não governamentais e a comunicação social. É de realçar o papel a desempenhar pelos conselhos regionais de saúde mental e, num contexto mais amplo, pelo conselho nacional de saúde mental.

Monitorizar a saúde mental na comunidade

A monitorização é necessária para verificar a eficácia dos programas de tratamento e prevenção de saúde mental e, também para fortalecer os argumentos a favor da dotação adequada de recursos. A saúde mental das comunidades deve ser monitorizada, incluindo indicadores de saúde mental nos sistemas de informação e de notificação de saúde. Em Portugal esta monitorização encontra-se ainda numa fase de gestação ao nível da saúde mental, facto este que, por sua vez, vai dificultar bastante o processo de desinstitucionalização dos doentes mentais dos hospitais psiquiátricos para a comunidade pois essa monitorização ajuda a determinar tendências e a detectar mudanças na saúde mental.

Para o Ministério da Saúde ( 2004 ), no que diz respeito à situação actual da qualidade da prestação de serviços de saúde, reconhece a falta de indicadores de desempenho e de apoio à decisão: “ Os principais agentes de decisão, investigadores em saúde e líderes de opinião convergem na constatação da escassez (ou, mesmo inexistência) de indicadores válidos e fiáveis que suportem a gestão estratégica e operacional do sistema de saúde”.

Apoiar mais a pesquisa

A investigação é deveras importante em todas as vertentes científicas, havendo necessidade de mais pesquisas sobre os aspectos biológicos e psicossociais da saúde mental, de forma a melhorar a compreensão das perturbações mentais e de desenvolver intervenções mais eficazes. Sendo Portugal um país em desenvolvimento, muito se tem descurado a investigação, não por falta de cientistas, pois este existem, mas são “obrigados” a emigrar por falta de verbas destinadas à investigação em geral, e muito mais ainda a nível a investigação em saúde mental.

Para o Ministério da Saúde ( 2004 ) não existe um sistema de investigação em saúde que garanta um conhecimento científico equilibrado sobre a realidade nacional. Em todas as fases do ciclo de vida das actividades de observação ou intervenção incluídas no plano nacional de saúde , é necessário conhecimento cientificamente validado. Dado  que este nem sempre está disponível ou, se existente, não se refere à realidade portuguesa  actual, torna-se indispensável desenvolver projectos de investigação e desenvolvimento cujos resultados virão em apoio ao planeamento, execução e avaliação das diferentes componentes do plano nacional de saúde.

A investigação tem um baixo peso nas carreiras da saúde. Na cultura profissional, o trabalho de investigação não só não é incentivado como é tido como actividade tolerada ou mesmo não desejada. As administrações das instituições de saúde apreciam os serviços exclusivamente à luz do número de actos profissionais praticados. A investigação não é contemplada como uma necessidade nem sequer de prioridade secundária ( Ministério da Saúde, 2004 ).

CONCLUSÃO

É perante um cenário destes que       Portugal se encontra em relação à saúde mental, ainda distante daquilo que mundialmente se preconiza e aparentemente sem capacidade para contrariar, a curto prazo essa evidência. Um dos principais pontos de partida para contrariar essa evidência passará sem dúvida por uma mudança de mentalidade da população em geral, na forma como vêem os doentes mentais e também como encaram a saúde mental. Passará também pelo desenvolvimento de forma estruturada e organizada de toda uma rede quase inexistente de cuidados de saúde primários ao nível da saúde mental e de toda a sua interligação com as respectivas comunidades. Só depois de  concluído este passo de gigante é que se poderá planear e iniciar a desinstitucionalização de alguns doentes dos hospitais psiquiátricos para o seio  das suas famílias e, refiro-me a só alguns pois teremos que excluir deste grupo todos aqueles que não têm familiares e também aqueles que devido à sua profunda dependência física e mental não suportam a saída de um hospital.

BIBLIOGRAFIA

AMARAL, Alberto ( 2001 ). Plano estratégico para a formação nas áreas da saúde.  Relatório preparado para os Ministérios da Educação e da Saúde, ( policopiado ).

BAGANHA, Maria Ioannis; RIBEIRO, Joana Sousa; PIRES, Sónia. Funcionamento do sistema e caracterização sócio-profissional. O sector da saúde em Portugal.

EUROPEAN OBSERVATORY ON HEALTH CARE SYSTEM ( EOHCS ), ( 1999 ). Health Care Systems in Transition – Portugal. Observatório Europeu dos Sistemas de Saúde.

ORDEM DOS ENFERMEIROS, ( 2000 ). Alguns dados sobre os enfermeiros portugueses. Ordem dos Enfermeiros nº 1, Novembro de 2000.

OBSERVATÓRIO PORTUGUÊS DO SISTEMA DE SAÚDE ( OPSS ), ( 2001 ). Conhecer os
caminhos da saúde. Relatório de primavera do OPSS. Lisboa: OPSS.

MINISTÉRIO DA SAÚDE ( 2004 ).– Orientações estratégicas para 2004 – 2010. Mais  saúde para todos.

PLANO NACIONAL DE SAÚDE, Lisboa,Fevereiro de 2004.

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CONTEXTO HISTÓRICO DA PRESTAÇÃO DE CUIDADOS DE SAÚDE MENTAL

Jan 3, 2013

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HISTORICAL CONTEXT OF MENTAL HEALTH CARE

CONTEXTO HISTÓRICO DE LA  ATENCIÓN EN SALUD MENTAL
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AUTORES: Albano Ramos, César Fonseca, Vitor Santos

RESUMO

A evolução terapêutica, na Casa de Saúde do Telhal, foi, desde cedo, marcada pela preocupação de reabilitar os doentes para a vida social através do trabalho. A par dos melhores hospitais estrangeiros similares, foram-se aperfeiçoando métodos terapêuticos reconhecidamente eficazes para a época de que são exemplo: a hidroterapia, a diatermia, a organoterapia, a soroterapia, a malarioterapia, a electroconvulsivoterapia, tal como a terapêutica convulsionante e a realização de lobotomias aos doentes internados. De todas estas formas de tratamento hoje pouco mais nos resta que a sua história, mas todas ela contribuíram para realçar e desenvolver o papel do enfermeiro em enfermagem psiquiátrica.

PALAVRAS-CHAVE: Evolução, cuidar, terapêutica, CST, enfermeiro

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ABSTRACT

The therapeutical evolution, in Casa de Saúde do Telhal, was, since early, characterized for the concern to rehabilitate the sick people for the social life through the work.Along with the best similar hospitals of the world, they had been perfecting efficient therapeutical methods admittedly for each time, of that they are example: the hidrotherapy, the diatermy, the organotherapy, the sorotherapy, the malariotherapy, the electroconvulsive therapy, as the convulsive therapeutical and the accomplishment of lobotomias to the interned patients. Of all these forms of treatment, today little more remain of what its history, but all it had contributed to enhance and to develop the paper of the nurse in psychiatric nursing.

KEY-WORDS: Evolution, to care, therapeutical, CST, nurse.

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São João de Deus não frequentou nenhum curso de medicina, de enfermagem ou de gestão hospitalar, mas deu cartas aos médicos, aos enfermeiros e aos gestores das obras assistenciais do seu tempo e de todos os tempos, provocando uma autêntica revolução hospitalar. A sua escola foi a escola da vida, dinamizada pela força do amor. Ele foi um verdadeiro inovador nos campos da medicina e da enfermagem. Essa glória é-lhe hoje reconhecida, quer em Portugal quer no estrangeiro.

A Casa de Saúde do Telhal (CST), consagrada desde a sua fundação em 1893 aos doentes mentais, soube captar o espírito de S. João de Deus, da Ordem Hospitaleira e do seu restaurador em Portugal.

Antes de mais, a sua fundação veio preencher em Portugal uma grande lacuna no campo da medicina psiquiátrica, onde foi pioneira.

Os cuidados prestados aos doentes internados na CST foram quase sempre marcados pela inovação e pela excelência. Daí que desde a fundação da CST até aos dias que correm, a evolução dos cuidados aí praticados nunca tenha estagnado. Esta evolução não divergiu muito da que ocorreu nos grandes e importantes Hospitais psiquiátricos nacionais e europeus.

 Desde os primeiros tempos de existência da CST que o trabalho foi considerado como um dos meios mais valiosos, tendo em vista o tratamento e a reabilitação dos doentes. Chama-se ao trabalho executado com objectivos terapêuticos: trabalho terapêutico ou laborterapia, e, em função dos seus objectivos, terapia do trabalho, terapia activa ou, simplesmente, ergoterapia.

Assim, seleccionados previamente os enfermos, de harmonia com o estado físico, a idade e a educação, o trabalho agrícola e industrial constituiu na Casa de Saúde do Telhal um dos seus meios curativos mais valiosos.

Desta forma se esbateram muitos acessos de agitação psicomotora. É o próprio Dr. Luís Cebola, um dos Directores Clínicos da CST que refere em relação ao trabalho: “Os acessos de fúria quebram, as alucinações visuais se apagam, as vozes alucinatórias se emudecem e as ideias delirantes se extinguem; em muitos se esbatem sintomas importunos e perigosos”.

A hidroterapia foi o processo terapêutico mais utilizado durante os primeiros anos de existência da Casa de Saúde do Telhal. Como terapêutica sedativa normal, a Casa de Saúde do Telhal utilizava, sobretudo, dois tipos de banho:

       – O banho de imersão

       – O duche escocês.

No banho de imersão o doente era deitado e mantido numa banheira com água a 37/38ºC, atado a uma lona fixa à parte superior da banheira, mantendo apenas a cabeça de fora, que era molhada pelo enfermeiro com toalhas de água fria;

No duche escocês o doente, atado a uma estrutura de ferro no extremo de uma sala era atingido por fortes jactos de água quente lançados sobre os trajectos dos seus plexos nervosos. Quando a pele apresentava manchas vermelhas, passava-se um jacto de água fria sobre o doente que era, em seguida, levado para a cama. Este duche era usado em doentes deprimidos.

Além destes, eram ainda utilizados outros tipos de banhos:

  •       Os banhos de chuva;
  •       Duche de pressão ou de esguicho;
  •       Duche circular;
  •       Banho de assento.

 A década de 30 do século XX corresponde a um período de profunda transformação da medicina e correspondeu, no Telhal, a um grande salto qualitativo.

Em 1931 os doentes internados eram agrupados em 4 categorias: os alcoólicos, os esquizofrénicos, os maníacos-depressivos e os paralíticos gerais.

Para os alcoólicos, o tratamento era simples: a abstenção do álcool, apoiada, de quando em vez, por 10 gramas de sulfato de sódio.

Para os esquizofrénicos agitados ou furiosos, usavam-se os meios de contenção em voga na época: a reclusão em celas e a utilização de coletes de forças. Para controlar os seus instintos de violência, os pacientes eram amarrados à cama com correias e lençóis. Aos gatistas era frequentemente dada a alternativa do cadeirão com um buraco ao centro, sobre um bacio, onde eram compulsivamente sentados, nus da cintura para baixo, e onde permaneciam longas horas.

Para os esquizofrénicos agitados ou furiosos, também se usava o leite como sedativo. Eram injectados ao doente cerca de 3 a 5 cc de leite, por via intramuscular, o que ia provocar febre alta, prostração e desidratação, aliviando assim a sua agitação porque este passava a “fixar-se” mais no sofrimento físico provocado pela febre e dor, causadas pela administração do produto e menos no seu sofrimento psicológico.

Por vezes também se utilizava a Terebentina, em injecção sub-cutânea profunda, que provocava no tecido celular sub-cutâneo uma enorme irritação e depois um abcesso. Mais uma vez era desviada a atenção do doente para o sofrimento físico, era a substituição da antiga chicotada. Este abcesso de fixação mantinha-se durante alguns dias e quando já se encontrava em plena maturação, abria-se e drenava-se. Não era raro que logo a seguir se procedesse a idêntica terapêutica na outra coxa.

Para os maníacos-depressivos e os esquizofrénicos calmos, a melhor terapêutica eram os passeios pelos parques, ao ar livre.

Para os paralíticos gerais, forma quaternária da sífilis, a terapêutica mais frequente, era a malarioterapia. Estávamos por volta do ano de 1935. Por essa altura havia muita malária em Portugal e criavam-se mosquitos anofelis em estações construídas para o efeito. Os irmãos de S. João de Deus, requisitavam os mosquitos na estação antipalúdica, nomeadamente em Pegões, que vinham em gaiolas de rede finas. Estas eram atadas com uma ligadura entre as coxas dos doentes. Como a rede era fina os mosquitos não podiam fugir mas podiam picar, infectando assim o doente e transmitindo-lhe a malária. Logo que se dava conta de o mosquito ter produzido efeito num doente, a gaiola era retirada àquele doente e colocada noutro. Quando o doente começava a ficar com temperaturas elevadas, era-lhe feito um gráfico e observada a temperatura regularmente para se poder definir o tipo de febre. O ideal era que o mosquito provocasse um tipo de temperatura que desse acessos febris de 3 em 3 dias (febre terça), pois os acessos febris diários, porque eram demasiado frequentes, provocavam muita desidratação no doente e os de 4 em 4 dias já se tornavam demasiados espaçados. Se a febre era terça, e só essa interessava, uma vez o doente infectado, podia transmitir-se a doença a outros doentes por colheitas de sangue dos doentes infectados. Faziam-se colheitas de sangue (cerca de 20 cc cada) de um doente infectado que era depois injectado noutro doente, produzindo-se assim a contaminação. Nessa altura a CST tinha cerca de 600 doentes, com 30 a 40 a fazerem malarioterapia. Depois de cerca de uma dezena de acessos, procedia-se à cura do paludismo, através do quinino. A CST foi pioneira na introdução desta terapia em Portugal.

Para muitos doentes, estas foram, até à década de 30, as únicas formas de acalmar temporariamente a agitação e a agressividade.

Estes métodos de tratamento eram, contudo, utilizados quando a agitação do doente não conseguia ser acalmada por processos menos dolorosos e invasivos.

Foi também na década de 30, por volta de 1933, que se começou a utilizar agentes convulsivos, no tratamento da esquizofrenia. Como exemplo temos o Cardiozol, extraído da cânfora, que injectado endovenosamente nos esquizofrénicos lhes provocava uma crise convulsiva muito forte e violenta que acabava por se traduzir em resultados muito benéficos para os doentes. Apesar dos benefícios a violência da convulsão fazia com que fossem necessários 4 enfermeiros para segurar no doente, não sendo coisa rara de se observar as luxações e fracturas. Foi muito utilizado durante vários anos na CST.

 Além destes processos terapêuticos, a década de 30 assistiu ao nascimento e implementação de outros mais modernos e mais eficientes. Os principais foram:

       – O choque-insulínico;

       – O electro-choque;

       – A leucotomia.

O CHOQUE-INSULÍNICO ou insulinoterapia:

O choque-insulínico foi muito utilizado na CST no tratamento das psicoses e do delírium tremens, desde a sua introdução em Portugal em 1936.

A insulinoterapia consistia na administração de doses progressivas de insulina ao doente (iniciava-se por 10 u até 60 u) em jejum, até atingir o coma, de que era depois despertado pela administração de um solução açucarada administrada por gavagem ou, quando o coma era já muito profundo ou a administração por gavagem não resultava tão célere como se previa, pela administração de 20 a 40 cc de soro glucosado hipertónico, por via endovenosa. Sempre que possível, a administração por gavagem era preferida à endovenosa por a primeira originar normalmente um acordar mais suave, apresentando também o doente uma melhor disposição ao acordar.

O ELECTRO-CHOQUE:

O electro-choque começou a ser utilizado em Roma em 1938, em doentes esquizofrénicos, no ano seguinte já se tinha tornado uma prática normal no Telhal.

Por vezes a terapêutica com a insulina e pelo electro-choque eram associadas, designando-se por terapêutica dupla: quando o doente entrava em coma insulínico era-lhe por vezes administrado um electro-choque.

A LEUCOTOMIA:

A leucotomia ou lobotomia pré-frontal consistia em seccionar na substância branca do cérebro feixes de associações com centros afectivos diencefálicos. Foi desenvolvida pelo Prof. Egas Moniz e valeu-lhe o Prémio Nobel.

Este deslocava-se frequentemente à CST, começou imediatamente a realizar aí as célebres intervenções. Só em 1936, quando a nova técnica ainda ensaiava os primeiros passos, realizou 9.

De todas estas formas de tratamento hoje pouco mais nos resta que a sua história, mas todas ela contribuíram para realçar e desenvolver o papel do enfermeiro em enfermagem psiquiátrica.

A CST acompanhou e contribuiu de maneira definitiva para a grande revolução psiquiátrica realizada em Portugal a partir de meados do século XX.

A década de 50 foi a grande viragem da psiquiatria, com a implementação maciça da quimioterapia, a que se refere o Dr. Pistacchini Galvão, clínico do Telhal: “ Entrámos na era da psicofarmacologia, dos neurolépticos ( 1952 ), dos antidepressivos ( a Imipramina data de 1957 ), dos ansiolíticos ou tranquilizantes, que vão progressivamente tomando o lugar ”, “ A eficácia, pelo menos sintomática, dos psicofármacos, atenuando rapidamente a sintomatologia psicótica, modifica o comportamento do doente, desalienando-o e permitindo uma relação terapêutica complementar no plano psicológico e sociológico ”.

1952 marca a entrada na CST do Serpasil e do Largatil, derivados da Fenotiazina. Daí para cá, não mais parou a utilização dos psicotrópicos, que permitem uma humanização cada vez maior dos tratamentos hospitalares dos doentes psicóticos.

Segundo o Dr. José Castelão, a CST em muito contribuiu para a investigação científico-farmacológica em Portugal, refere-nos em 1995 que:

“ … desde sempre o corpo clínico desta Casa se preocupou com os trabalhos de investigação, colaborando com os Laboratórios no ensaio de novos medicamentos psicotrópicos. ”

“ No ano de 1985, em colaboração com os colegas Silveira Nunes e Vasconcelos Rodrigues, tivemos oportunidade de ensaiar o Haldol Decanoato, que recentemente havia sido introduzido em Portugal, … ”

“ … em 1987, ensaiei um novo neuroléptico, o Risperidone, que ainda não se encontra comercializado entre nós e que foi o primeiro ensaio realizado em Portugal com esta molécula. ”

Para além desta evolução terapêutica, hoje em dia o doente da CST tem à sua disposição serviços e programas de reabilitação estruturados, para além de meios de distracção, cultura e desporto que lhe permitem atingir a reorganização do seu mundo interior e reencontrar a identidade consigo mesmo, lhe incute a consciência de ser uma pessoa entre as outras pessoas, lhe restitui dignidade e lhe franqueia a porta de regresso à sociedade quando possível e, se possível, ao trabalho que a doença obrigou a interromper.

Assim na CST desde sempre se pretendeu prestar uma assistência marcada pela inovação e vanguarda.

Esta pesquisa que realizei em muito se deve ao Irmão Enfermeiro Cândido Costa e aos seus testemunhos que ainda tive o prazer de ouvir dos seus próprios lábios nos poucos meses que o acompanhei em vida. É justo que enalteça o trabalho e a dedicação que ele sempre teve para com os doentes e para com a Enfermagem, sobretudo na Casa de Saúde do Telhal.

BIBLIOGRAFIA:

BOTELHO, José Rodrigues – História da enfermagem psiquiátrica em Portugal, Lisboa 1996, p. 42-46.
CORDO, Margarida – Casa de Saúde do Telhal, apresentação 1893 – 2003, Lisboa 2003, p. 3-11.
COSTA, Ir. Cândido da – Clínica escolar dos irmãos de S. João de Deus – Hospitalidade, nº 72, 1953, p. 402 – 404.
LAVAJO, Joaquim Chorão – Ordem Hospitaleira de São João de Deus em Portugal 1892 – 2002, Lisboa 2003, p. 185-205.

 

 

 

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