Feb 27, 2014

Lisboa, 2013

A (In)Capacidade dos Idosos para Gerir a Sua Medicação
ADVINHA, Ana Margarida1; LOPES, Manuel José2; OLIVEIRA-MARTINS Sofia1
1,2 Research Institute for Medicines and Pharmaceutical Sciences, Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa; 3 Escola Superior de Enfermagem de S. João de Deus, Universidade de Évora
Fundamento: Aproximadamente 45% dos idosos são incapazes de tomar os seus medicamentos tal como prescritos (1). Gerir o regime terapêutico constitui um comportamento complexo, que envolve tanto a intenção, como a capacidade para tomar medicamentos. Desta forma, importa distinguir a intenção de tomar a medicação e a capacidade para o fazer, a fim de promover a saúde do indivíduo e o seu envelhecimento ativo (2). A toma crónica de medicamentos representa um processo metódico, que conduz ao hábito quotidiano, e que pode ser afetada por diversos tipos de erros sistemáticos, associados não só ao desconhecimento e iliteracia do doente, mas também à progressiva perda de capacidade funcional (física, cognitiva e sensorial) para gerir a sua medicação (3,4). A diminuição das competências cognitivas (ex. aumento da dificuldade em processar novas informações, como a introdução de um novo medicamento no regime), a diminuição da acuidade visual (ex. dificuldade em ler os rótulos e folhetos informativos constantes nas embalagens) ou a diminuição da destreza manual (ex. dificuldade na abertura de embalagens e extração de medicamentos), repercutem-se significativamente em não adesão (não intencional) e/ou em problemas de saúde decorrentes da ausência ou incorreta administração de medicamentos (2,5,6).
Objetivo: Este estudo tem como principal objetivo avaliar a capacidade dos idosos para gerir a sua medicação, através da aplicação de instrumentos específicos, adaptados (linguística e culturalmente) e validados para a população Portuguesa.
Métodos: Revisões descritiva e sistemática da literatura para identificação dos instrumentos disponíveis a nível internacional e aferição dos resultados obtidos por outros autores; adaptação (linguística e cultural) e validação de três instrumentos de avaliação da capacidade funcional dos idosos para gerir a medicação; e futuramente, avaliação da capacidade da população idosa Portuguesa para gerir a sua medicação, com recurso à aplicação dos instrumentos adaptados e validados (método em delineamento).
Resultados Preliminares: De um total de quinze instrumentos específicos identificados na revisão descritiva da literatura, foram selecionados três, de acordo com as características psicométricas e de aplicação. Destes, um avalia com recurso à medicação real, outro com recurso a uma medicação fictícia e o terceiro engloba uma avaliação integrada recorrendo aos dois cenários. O declínio cognitivo e o aumento da idade surgem como fatores determinantes de incapacidade funcional na gestão da medicação, pelo que, diversos estudos revelam a importância da avaliação da capacidade funcional dos idosos para gerir a sua medicação, sobretudo por esta poder representar um indicador precoce da perda de independência e da necessidade de intervenção.
Considerações Finais e Perspetivas Futuras: O processo de gestão da medicação envolve várias fases, e embora as barreiras envolvidas não sejam facilmente modificáveis, existem estratégias facilitadoras, quer através da intervenção de um profissional de saúde, quer da introdução de dispositivos de apoio, que poderão promover a melhoria do desempenho do idoso nesta tarefa.
Atualmente encontra-se em fase de conclusão a adaptação linguística dos instrumentos a utilizar, à qual se seguirá a adaptação cultural e validação. Encontra-se também a ser delineada a fase de aplicação dos instrumentos para avaliação da capacidade funcional para gerir a medicação, a uma amostra de idosos Portugueses.
Referências Bibliográficas:
1. MacLaughlin EJ, Raehl CL, Treadway AK, Sterling TL, Zoller DP, Bond CA. Assessing medication adherence in the elderly – Which tools to use in clinical practice? Drugs Aging. 2005;22(3):231–55.
2. Lakey SL, Gray SL, Borson S. Assessment of Older Adults’ Knowledge of and Preferences for Medication Management Tools and Support Systems. Ann Pharmacother. 2009;43(6):1011–9.
3. Tordoff J, Simonsen K, Thomson WM, Norris PT. “It’s just routine.” A qualitative study of medicine-taking amongst older people in New Zealand. Pharm World Sci. 2010 Apr;32(2):154–61.
4. Hutchison LC, Jones SK, West DS, Wei JY. Assessment of medication management by community-living elderly persons with two standardized assessment tools: a cross-sectional study. Am J Geriatr Pharmacother. 2006/07/25 ed. 2006;4(2):144–53.
5. Beckman A, Bernsten C, Parker MG, Thorslund M, Fastbom J. The difficulty of opening medicine containers in old age: a population-based study. Pharm World Sci. 2005 Oct;27(5):393–8.
6. Windham BG, Griswold ME, Fried LP, Rubin GS, Xue Q-L, Carlson MC. Impaired vision and the ability to take medications. J Am Geriatr Soc. 2005 Jul;53(7):1179–90.

Acidente Vascular Cerebral e Doença Isquémica Cardíaca no contexto do Envelhecimento
Matilde Rosa; Paulo Nogueira; Andreia Costa
Introdução
O envelhecimento da população é já uma tendência de dimensão mundial, embora seja na Europa que se localiza a maior parte das populações mais envelhecidas do mundo. A este respeito, Portugal não é, assim, um país original, embora tenha envelhecido com uma rapidez assinalável. É certo que, pelo menos a médio prazo, a população de Portugal continuará a envelhecer, o que aliás por si, pode ser entendido como uma tendência desejável, pois os factores que estão na origem deste processo estão ligados, no essencial, a progressos significativos nas condições de vida e saúde da população. Contudo, socialmente, o envelhecimento lança também desafios novos. Entre estes está o aumento de patologias de algum modo associadas à idade, como as doenças cardiovasculares, muitas destas também agravadas por hábitos e estilos de vida das sociedades modernas, como o stresse, o tabagismo, sedentarismo ou até a poluição ambiental. As doenças cardiovasculares constituem a causa de morte mais relevante em toda a Europa, incluindo Portugal, e englobam um vasto conjunto de situações clinicas afetando o sistema circulatório. Apesar da elevada mortalidade associada às doenças cardiovasculares, tem-se verificado, nas últimas duas décadas, uma progressiva diminuição das taxas de mortalidade destas doenças. Inúmeros factores podem estar na causa desta diminuição mas podem realçar-se, por exemplo, a progressiva adoção de medidas preventivas, como a Lei de Cessação Tabágica, a Iniciativa legislativa de redução do conteúdo de sal no pão, ou as frequentes campanhas promovidas por sociedades científicas e outras organizações, visando a adoção hábitos de vida saudáveis.
São inúmeros os estudos que vão de encontro à temática envelhecimento e não menos os que referem as doenças cardiovasculares a ele associadas. Entre as doenças cardiovasculares mais preocupantes na temática envelhecimento, há-que destacar o Acidente Vascular Cerebral (AVC) e a Doença Isquémica Cardíaca (DIC).
Material e Métodos
Neste artigo, foram analisados tanto a mortalidade como os padrões de morbilidade associados a certas doenças cardiovasculares, dada a importância do estudo de ambos no contexto do envelhecimento. Relativamente à mortalidade, a informação é proveniente do Instituto Nacional de Estatística (INE). Relativamente à morbilidade, os apuramentos para estas estatísticas são obtidos a partir da base de dados dos Grupos de Diagnóstico Homogéneos (GDH). Esta base de dados é anualmente posta à disposição da Direcção-Geral da Saúde (DGS) pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Os GDH são um sistema de classificação de doentes, onde o conjunto de bens e serviços que cada doente recebe, em função da sua patologia, é registado. Esta base de dados agrupa as patologias de acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS). Assim, a classificação dos diagnósticos é feita tanto com base nos Grande Grupos da Classificação Internacional de Doenças- 9a Revisão- Modificação Clínica (CID 9 MC) como com base nas Grandes Categorias de Diagnóstico (GCD). É importante notar que a base de dados usada é referente apenas a episódios ocorridos nos hospitais do Sistema Nacional de Saúde (SNS) de Portugal Continental, pelo que as conclusões tiradas não devem ser generalizadas a todos os doentes nacionais.
Neste trabalho, analisou-se retrospectivamente a morbilidade de certas doenças cardiovasculares, em Portugal Continental, entre 2007 e 2011. Em particular, foi dado ênfase ao Acidente Vascular Cerebral (AVC) e à Doença Isquémica Cardíaca (DIC), pela sua morbilidade e mortalidade associada, no sector idoso. Os indicadores considerados relevantes para este estudo foram a Taxa de Mortalidade Padronizada, o número de utentes saídos e o número de óbitos, por região e grupo etário, com especial foco no grupo etário dos 65 ou mais anos. As respectivas percentagens, de utentes saídos ou óbitos pertencentes ao grupo etário 65 ou mais anos no total dos grupos etários, também foram calculadas. Os indicadores acima referidos referem-se apenas a diagnósticos principais. Todos os cálculos presentes foram realizados utilizando o software estatístico R e a folha de cálculo do Microsoft Excel. No que diz respeito à codificação utilizada, as causas de morte são codificadas segundo a Classificação Internacional de Doenças CID10MC enquanto a morbilidade hospitalar é codificada com base na CID9MC. Em particular, os códigos utilizados para o AVC foram do I61 ao I64 (CID10MC) e do 430 ao 434 (CID9MC); para a DIC utilizaram-se os códigos do I20 ao I25 (CID10MC) e do 410 ao 414 (CID9MC).

Resultados
Relativamente ao Acidente Vascular Cerebral (AVC), no que diz respeito à sua morbilidade hospitalar, destaca-se um número de utentes saídos com AVC como diagnóstico principal, pertencente ao grupo etário dos 65 ou mais anos, que aumentou ligeiramente entre 2007 e 2011. Relativamente a este grupo etário, verificou-se um aumento de 20067, em 2007, para 20513 utentes saídos, em 2011, o que corresponde a 77,1% e 77,4% do total de utentes saídos por AVC, respectivamente. É interessante observar que, enquanto o número de utentes com AVC entre os 65 e os 79 anos diminuiu no intervalo temporal considerado (de 11544 para 10931 utentes), o número de utentes com 80 ou mais anos aumentou de 8523 para 9582. Os óbitos também acompanham esta evolução: o número de óbitos de utentes com AVC entre os 65 e os 79 anos diminuiu ligeiramente no intervalo temporal considerado (de 1538 para 1375 utentes), enquanto que o número de óbitos de utentes com 80 ou mais anos aumentou ligeiramente de 1836 para 1922. Entre 2007 e 2011, os óbitos de utentes mais idosos (65 ou mais anos) com AVC constituíram aproximadamente 85% do total de óbitos de utentes com AVC. É aqui notório o peso que o envelhecimento tem na morbilidade e mortalidade por AVC, pelo que a análise, relativamente ao grupo etário mais idoso, da sua evolução temporal assim como das suas desigualdades inerentes, não só mas também a nível regional, é de extrema importância. A nível regional, os utentes saídos com AVC com 65 ou mais anos são mais comuns na Região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, seguindo-se a do Norte. No total dos 5 anos considerados neste trabalho, a região de Lisboa e Vale do Tejo apresenta aproximadamente 37% do total do Continente, no que se refere a utentes saídos com AVC com 65 ou mais anos. As correspondentes percentagens são 33% para o Norte, 23% para o Centro, sendo o restante distribuído pelas regiões Alentejo e Algarve.
Relativamente à Doença Isquémica Cardíaca (DIC), a sua Taxa de Mortalidade Padronizada (TMP) por 100 000 habitantes, para o grupo etário dos 65 e mais anos, diminuiu a cada ano tendo o seu valor mais elevado em 2007 (324 por 100 000 habitantes) e o mais baixo em 2011 (247,5 por 100 000 habitantes). Estes números merecem especial atenção sobretudo quando se olha para a Taxa de Mortalidade Padronizada total: entre os 45,0 (2007) e os 34,9 (2011) por 100 000 habitantes. Analisando a morbilidade hospitalar, destaca-se uma evolução com alguns traços idênticos aos manifestados pelo AVC, relativamente a utentes com 65 ou mais anos. Assim, a Doença Isquémica Cardíaca apresenta um número de utentes saídos, pertencente ao grupo etário mais idoso, que diminuiu ligeiramente entre 2007 e 2011. Relativamente a este grupo etário, verificou-se uma diminuição de 19508, em 2007, para 19228 utentes saídos, em 2011, o que corresponde a aproximadamente 60% do total dos utentes saídos cujo diagnóstico principal foi a DIC. É interessante observar, mais uma vez, que enquanto o número de utentes com DIC entre os 65 e os 79 anos diminuiu no intervalo temporal considerado (de 14805 para 13936 utentes), o contrário acontece com os utentes com 80 ou mais anos cujos valores aumentaram de 4703 para 5292. No que diz respeito aos óbitos, os traços evolutivos apresentam-se um tanto diferentes. O número de óbitos de utentes com DIC diminuiu no intervalo temporal considerado, tanto nos utentes entre os 65 e os 79 anos (de 652 para 475 óbitos) como nos utentes com 80 ou mais anos (de 774 para 666 óbitos). Entre 2007 e 2011, em Portugal Continental, os óbitos de utentes mais idosos (65 ou mais anos) com DIC constituíram aproximadamente 88% do total de óbitos de utentes com DIC. É aqui notório o peso que o envelhecimento tem na morbilidade hospitalar de DIC, o que revela um interesse na análise, relativamente ao grupo etário mais idoso, da sua evolução temporal assim como das suas desigualdades inerentes, não só mas também a nível regional. A nível regional, os utentes saídos com DIC com 65 ou mais anos são mais comuns na Região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, seguindo-se a do Norte, tal como acontecera com os doentes cujo diagnóstico principal foi o AVC. No total dos 5 anos considerados neste trabalho, a região de Lisboa e Vale do Tejo apresenta aproximadamente 49% do total do Continente, no que se refere a utentes saídos com DIC com 65 ou mais anos. As correspondentes percentagens são 24% para o Norte, 18% para o Centro, sendo o restante distribuído pelas regiões Alentejo e Algarve.
Conclusões
As doenças cardiovasculares constituem a causa de morte mais relevante em toda a Europa, incluindo Portugal. E, atendendo a que um grande número de doenças cardiovasculares se relaciona com o envelhecimento da população, em particular quando falamos de AVC e DIC, é expectável que o número de pessoas com estas doenças venha a aumentar impondo ao sistema de saúde uma necessidade crescente de cuidados.
Relativamente ao Acidente Vascular Cerebral (AVC), analisando a sua morbilidade hospitalar, destaca-se um número de utentes saídos, pertencente ao grupo etário dos 65 ou mais anos, que aumentou de 20067, em 2007, para 20513, em 2011.Relativamente ao Acidente Vascular Cerebral (AVC), analisando a sua morbilidade hospitalar, destaca-se um número de utentes saídos, pertencente ao grupo etário dos 65 ou mais anos, que aumentou de 20067, em 2007, para 20513, em 2011. É interessante observar que, enquanto o número de utentes com AVC como diagnóstico principa,l entre os 65 e os 79 anos, diminuiu no intervalo temporal considerado, o número correspondente de utentes com 80 ou mais anos aumentou. O número de óbitos de utentes com AVC entre os 65 e os 79 anos diminuiu ligeiramente no intervalo temporal considerado enquanto que o número de óbitos de utentes com 80 ou mais anos aumentou ligeiramente. A nível regional, os utentes saídos com AVC com 65 ou mais anos são mais comuns na Região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, seguindo-se a do Norte. Relativamente à Doença Isquémica Cardíaca (DIC), a sua Taxa de Mortalidade Padronizada (TMP) por 100 000 habitantes, para o grupo etário dos 65 e mais anos, diminuiu a cada ano atingindo o seu valor mais elevado em 2007 e o mais baixo em 2011. Analisando a morbilidade hospitalar, a Doença Isquémica Cardíaca apresenta um número de utentes saídos, pertencente ao grupo etário mais idoso, que diminuiu ligeiramente de 19508, em 2007, para 19228, em 2011. É ainda relevante referir, mais uma vez, que o número de utentes com DIC entre os 65 e os 79 anos diminuiu e o contrário acontece com os utentes com 80 ou mais anos. No que diz respeito aos óbitos, os traços evolutivos apresentam-se um tanto diferentes: o número de óbitos dos utentes mais idosos com DIC diminuiu no intervalo temporal considerado. A nível regional, os utentes saídos com DIC com 65 ou mais anos são mais comuns na Região de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, tal como acontecera com o AVC. É notório o peso que o envelhecimento tem na morbilidade hospitalar das referidas doenças, em particular no AVC e DIC, pelo que é crucial uma análise, relativamente ao grupo etário dos 65 ou mais anos, da sua evolução temporal assim como das suas desigualdades inerentes. Considera-se crucial adaptar-se o presente a fim de se ter um futuro que vai ao encontro da evolução das doenças cardiovasculares e ao crescente envelhecimento. Contudo, é também preciso olhar para o passado, sobretudo o mais recente, uma vez que, apesar da elevada mortalidade associada às doenças cardiovasculares, tem-se verificado, nas últimas duas décadas, uma progressiva diminuição das taxas de mortalidade destas doenças. Vários factores estão na causa desta diminuição destacando-se a progressiva adoção de estratégias organizativas do Sistema de Saúde para promover hábitos de vida mais saudáveis. Um possível desafio na temática das doenças cardiovasculares e do envelhecimento prende-se também com a existência de programas de incentivo à actividade física das pessoas idosas.
Referências
BARROS, Pedro Pita, 2013, Pela Sua Saúde, Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos ROSA, Maria João Valente, 1996, O Envelhecimento da População Portuguesa, Cadernos Público, no3, Lisboa, BPI
ROSA, Maria João Valente, 2012, O Envelhecimento da Sociedade Portuguesa, Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos
Direção-Geral da Saúde, Portugal – Doenças Cérebro-Cardiovasculares em números – 2013

VULNERABILIDADES PSICOSSOCIAIS EM COMBATENTES: CONTRIBUIÇÕES PARA A GERONTOLOGIA E ENVELHECIMENTO ATIVO.

António Correia; José Rodrigues. Email: acorreia.ceamps.lc@gmail.com

Resumo
Ao longo dos últimos anos, vários estudos têm sido efetuados em relação ao impacto das experiências traumáticas em combatentes de guerra. A Guerra do Ultramar Português estendeu-se por um período de 13 anos, entre 1961 e 1974, em Angola, Guiné e Moçambique, na qual combateram mais de 800.000 portugueses, dos quais cerca de 9.000 perderam a vida, 30.000 foram evacuadas por ferimentos e mais de 100.000 ficaram doentes e/ou feridos, (cerca de 14.000 deficientes físicos e um número bastante significativo com perturbações psicológicas em consequência dos acontecimentos traumáticos da guerra).
O presente estudo teve como objetivo avaliar as vulnerabilidades psicossociais, numa amostra de antigos combatentes portugueses dos Açores, Ilha Terceira, constituída por 255 veteranos, com idades compreendidas entre 55 e 73 anos (M=63;Dp=4,18).
Na metodologia foram utilizados os seguintes instrumentos de avaliação: Questionário sociodemográfico; PCL-M (acontecimento traumático); ETC (estratégias de coping); SCL-90-R (desajustamento emocional) e Escala de Avaliação da Situação Sociofamiliar de Gijón.
Os resultados mostram a presença de sintomatologia de PSPT, de nível de gravidade ligeiro (53,5%), moderado (41,2%) e grave (5,5%), com uma tendência para os sintomas ligeiros passarem a moderados com o aumento da idade. Ao nível da relação entre a PSPT e as variáveis psicossociais, verificam-se associações estatisticamente significativas entre todas as dimensões da PCL-M (reexperimentação intrusiva, evitamento e embotamento e excitabilidade aumentada) e as dimensões psicopatológicas da ansiedade, depressão, hostilidade, somatização e obsessão e compulsão e com as estratégias de coping de retraimento, adictividade e mudança. O estudo identificou também uma percentagem significativa de 5,8% (n=15) de pessoas mais vulneráveis e em risco social.
Em conclusão, o presente estudo contribuiu para melhorar o conhecimento e a compreensão das vulnerabilidades psicossociais dos combatentes da Ilha Terceira e, face aos resultados, pretende-se encontrar respostas mais adequadas a este tipo de população e às problemáticas apresentadas, nomeadamente a criação de um centro de apoio médico, psicológico e social com respostas específicas para ajudar os combatentes a terem um envelhecimento ativo e com melhor qualidade de vida.
Palavras-chave: Combatentes da Guerra do Ultramar, Vulnerabilidades Psicossociais, Gerontologia, Envelhecimento Ativo

A AVALIAÇÃO FUNCIONAL MULTIDIMENSIONAL NA POPULAÇÃO IDOSA: A UTILIDADE NA DEFINIÇÃO DE ÁREAS PRIORITÁRIAS DE INTERVENÇÃO.

Silva, Sílvia. Email: silviauccoaz@gmail.com. Otero, Gestal. Email: juan.gestal@usc.es. Rodrigues, Rogério. Email: rogerio@esenfc.pt

Objetivos: Identificar a(s) área(s) prioritária(s) para intervir na população idosa (idade igual ou superior a 65 anos) do concelho de São João da Madeira de modo a rentabilizar e coordenar serviços e respostas. Assim, recorreu-se à avaliação multidimensional (áreas funcionais de recursos sociais, recursos económicos, saúde física, saúde mental e actividades de vida diária (AVD)), da população com inscrita nos ficheiros clínicos do Centro de Saúde e residentes no concelho.

Metodologia: Num procedimento aprovado pela Comissão de Ética da Administração Regional de Saúde do Norte, recorreu-se a uma amostra de 269 idosos (N=3846 e n=7%), aleatória e estratificada por género e grupo etário, aos quais foi aplicado o questionário OARS (Older Americans Resources and Services) no domicílio do idosos por entrevistadores treinados. Os dados foram tratados segundo o modelo OARS.
Resultados: São pontuados com limitação grave ou total:
Área de saúde física – 43,1%; grupo etário pior pontuado: ≥ 85 (61,3%) – 50,0% dos homens e 66,7% das mulheres.
Área de saúde mental – 18,3% dos elementos da amostra; grupo etário pior pontuado: ≥ 85 (32,3%) – 38,1% dos homens e 20,0% das mulheres.
Área das AVD – 12,4% dos elementos da amostra; grupo etário pior pontuado: ≥ 85 (54,8%) – 50,0% dos homens e 57,1% das mulheres.
Área dos recursos sociais – 11,8% dos elementos da amostra; grupo etário pior pontuado: 75-84 anos (17,3%) – 20,9% dos homens e 14,5% das mulheres.
Área dos recursos económicos – 26,8% dos elementos da amostra; grupo etário pior pontuado: 75-84 anos (34,7%) – 32,6% dos homens e 36,4% das mulheres.

Conclusões: As áreas pior classificadas e com necessidade de intervenção prioritária são a saúde física e recursos económicos. Destaca-se o grupo etário como factor de distinção em que à medida que a idade aumenta, aumenta também a percentagem de idosos com maior dependência nestas áreas. Os muito idosos (≥ 85) apresentam pior classificação nas áreas de saúde física, saúde mental e AVD e os idosos de 75-84 anos apresentam pior classificação nas áreas de recursos sociais e económicos. Quanto ao género, são pior classificadas as mulheres nas áreas: saúde física, AVD e recursos económicos; estão piores os homens na área da saúde mental e recursos sociais. Definem-se assim as mulheres e as áreas de saúde física e económica como prioritárias para intervir.

A PREPARAÇÃO DO REGRESSO A CASA DA PESSOA IDOSA SUBMETIDA A GASTRECTOMIA E SUA FAMÍLIA – A PARCERIA COMO INTERVENÇÃO DE ENFERMAGEM

Lúcia Jerónimo. Idalina Gomes. Email: luciajeronimo@campus.esel.pt

Resumo
O regresso a casa do cliente hospitalizado requer um planeamento atempado para evitar complicações e readmissões. No cliente idoso submetido a gastrectomia, considerando a especificidade da sua situação, exige-se um envolvimento do próprio e seu cuidador familiar com as equipas de enfermagem, para uma atuação conjunta que permita identificar e responder às necessidades existentes. Baseado nas nas teorias das transições de Meleis e dos Cuidados em Parceria com a Pessoa Idosa de Gomes (2009), elaborou-se um projeto de intervenção com o objetivo de capacitar o cuidador familiar e o idoso gastrectomizado para a preparação do regresso a casa.
Este Projeto realizou-se num Hospital Central em Lisboa, entre Outubro/2012 e Fevereiro/2013. Envolveu 8 idosos submetidos a gastrectomia, e os seus respetivos cuidadores familiares e 39 enfermeiros da equipa de enfermagem. Desenvolveu-se em quatro fases distintas – Diagnóstico de Situação, Planificação, Execução e Avaliação. Os dados foram colhidos por análise documental, observação de práticas e entrevistas, e foram analisados por estatística descritiva e análise de conteúdo.
Como resultados destaca-se o conhecimento que a pessoa idosa e cuidador familiar adquiriram ao longo do internamento (adequação do plano alimentar, conhecimento do regime medicamentoso, conhecimento de sintomatologia associada, cuidados com a ferida operatória, e conhecimento dos possíveis recursos da comunidade). Salienta-se a introdução de novas práticas na equipa de enfermagem asseguradas a todos os clientes – avaliação nutricional, educação estruturada, inclusão do cuidador familiar nos cuidados, a articulação com a rede de cuidados domiciliares e registos de enfermagem individualizados, tendo favorecido a continuidade de intervenções ao longo deste processo.
Conclui-se que a intervenção em parceria é fundamental para um cuidar centrado no cliente, permitindo o conhecimento do cliente e o seu envolvimento na construção de uma ação conjunta que promove a continuidade de intervenções na preparação individualizada do regresso a casa da pessoa idosa e a capacitação do cuidador familiar, possibilitando a continuação do projeto de vida de cada idoso e cuidador familiar.
Sugere-se o desenvolvimento de intervenções de enfermagem pré e pós-operatórias centradas na pessoa idosa e seu cuidador familiar, bem como, a reavaliação nutricional periódica em articulação com o centro de saúde.
Palavras-chave: pessoa idosa/cuidador familiar; intervenções de enfermagem; parceria; regresso a casa.

A TRAJETÓRIA DOS ESTUDOS DA CIF NA ANCIANIDADE: UM ESTUDO BIBLIOMÉTRICO

Ana Taborda; Rosa Silva. Email: anataborda@portugalmail.com

OBJETIVO: Descrever e quantificar o que se tem estudado tendo como objeto de estudo o idoso e a CIF
METODOLOGIA: Estudo bibliométrico, realizado nas bases de dados eletrónicas MEDLINE, CINAHL Plus, Science Direct e Tripdatabase, com texto integral, em português e inglês. Os descritores utilizados foram: international classification of functioning & elderly.
Tendo por base o modelo conceptual da CIF, categorizamos os estudos de acordo com os seguintes componentes:
• Funcionalidade e Incapacidade
• Estrutura e Função corporal
• Atividades de participação
• Fatores contextuais
• Fatores ambientais
• Fatores pessoais

RESULTADOS/CONCLUSÕES
Da pesquisa realizada obtivemos 92 artigos, e destes, 39 apresentavam texto integral, sendo estes o nosso corpo de análise.
Após uma primeira leitura verificamos que todos os componentes da CIF têm sido explorados, havendo, contudo, um predomínio de estudos relacionados com a estrutura e função corporal, como é o caso das quedas, mobilidade e desempenho físico, por exemplo.

ACESSIBILIDADE AOS CUIDADOS DE SAÚDE PRIMÁRIOS E QUALIDADE DE VIDA DOS IDOSOS

Alexandrina de Jesus Serra Lobo (PhD). Email: damiaolobo@gmail.com

A acessibilidade aos cuidados de saúde é uma área prioritária das atuais politicas, um verdadeiro determinante da saúde e, consequentemente, um potenciador de redução de desigualdades, apresentando-se como um aspeto essencial para a melhoria da QV dos indivíduos (Campos et al., 2008; Campinho, 2005). Segundo Furtado e Pereira (2010), o acesso não pode ser visto apenas no sentido da oferta/disponibilidade de cuidados, devem também ser considerados outros condicionantes, eventuais barreiras que possam limitar o cidadão ao seu potencial de saúde, nomeadamente: geográficos; demográficos; económicos; sociais ou culturais. Importa assim, analisar-se a relação entre o acesso aos cuidados de saúde e a qualidade de vida (QV), tendo em conta que o processo de envelhecimento encerra inúmeras alterações na vida das pessoas, afectando-lhes a funcionalidade e mobilidade (Rodrigues et al., 2007). Objetivos: caracterizar a acessibilidade e a perceção de QV dos idosos do ACES ATB; verificar se existe relação entre a acessibilidade e a QV.
Metodologia: realizou-se um estudo transversal, descritivo-correlacional, numa amostra de intencional de 359 idosos dos cuidados de saúde primários, do ACES Alto Tâmega e Barroso (ACeS ATB). Na recolha de dados aplicou-se um inquérito sob a forma de entrevista, com 3 partes: caracterização sociodemográfica; avaliação do nível de acessibilidade (através de indicadores, tais como o tipo de transporte utilizado, o tempo e as despesas necessários à deslocação, os recursos de estacionamento e transportes públicos) e perceção da QV através do SF-36 (Ferreira, 1999). Para o tratamento de dados recorreu-se ao SPSS.
Resultados: a maioria dos sujeitos em estudo apresenta o 1º ciclo do ensino básico, são casados, têm um rendimento mensal médio de 200 a 450 euros, tendo trabalhado no sector primário, durante a actividade profissional. Recorrem ao centro de saúde entre 3 a 6 vezes por ano, principalmente pelo motivo de doença. Em média, demoram entre 15 a 30 minutos e gastam entre 5 a 10 euros na deslocação ao centro de saúde. As mulheres usam mais os transportes públicos (27,5% versus 24,7%) e os homens o transporte próprio (39,1% versus 20,7%). Pela análise das correlações verifica-se que existe uma correlação negativa e significativa da QV, com o tempo e o dinheiro gasto na deslocação.
Conclusão: os nossos resultados sustentam que a QV relacionada com a saúde não se reduz a uma evidência orgânica, está em grande parte relacionada com a acessibilidade aos cuidados de sáude, para além das características de cada contexto sociocultural, aos significados que cada indivíduo atribui à sua condição e processo de vida.

“ANTES DE MORRER, EU QUERO…”: O ENVELHECIMENTO COMO UM PROCESSO ATIVO, ONDE OS SUJEITOS ESCOLHEM E PARTICIPAM NAS POLÍTICAS QUE AFETAM O SEU BEM ESTAR.

Alexandra Neves.
Email: neves.xana@gmail.com

Resumo: Nas sociedades atuais, a institucionalização dos adultos idosos é a opção mais recorrente, quando os filhos deste grupo etário não têm condições de cuidar a tempo inteiro dos seus pais. Esta institucionalização nem sempre é feita por forma a envolver a vontade e o desejo do idoso, revestindo-se esta mudança de uma perda de identidade e de pertença que lança o idoso num processo doloroso.
O presente estudo propôs identificar, compreender e conhecer os desejos de um grupo de 11 idosos, utilizadores do Centro Social e Paroquial dos Pousos, sobre o que pretendiam realizar antes de morrerem.
Tratou-se de um estudo qualitativo, realizado a partir das narrativas dos idosos entrevistados.
Os resultados (desejos) são muito semelhantes dentro do grupo analisado, refletindo uma homogeneidade cuja explicação pode estar relacionada com o facto de todos partilharem os mesmos contextos e trajetórias de vida. Os desejos mais expressos encontraram-se relacionados com a família e a algumas visitas a determinados locais, apontando estes para atividades de lazer e atividades com a família.
Com este estudo identificou-se e quantificou-se atividades com base nas motivações de cada sujeito, tanto através de um Plano de Atividades como através de um Plano Ocupacional.

OS MUITO IDOSOS: A METODOLOGIA OARS/QAFMI EM INTERVENÇÃO COMUNITÁRIA

Rogério Manuel Clemente Rodrigues. Sílvia Manuela Dias Tavares da Silva. Sandrina Sofia da Silva Crespo. Cristiana Filipa Ribeiro da Silva. Email: rogerio@esenfc.pt

Objectivo:
Avaliar a funcionalidade e a utilização e necessidade sentida de serviços, de saúde e de apoio social, pelos muito idosos do concelho de Coimbra.
Metodologia:
Estudo quantitativo, descritivo-correlacional, com dimensão temporal do tipo transversal.
A população alvo (N≈16474) é constituída pelos indivíduos com idade ≥75 anos, residentes no Concelho de Coimbra (Sub-Região de Saúde de Coimbra).
A amostra, probabilística e estratificada (por idade e género), foi obtida a partir dos dados da população total fornecidos pelos Centros de Saúde/Extensões/Unidades de Saúde Familiar, procurando atingir 7% da população (n=1153).
O instrumento de recolha de dados é o Questionário de Avaliação Funcional Multidimensional para Idosos (QAFMI), versão portuguesa do Older Americans Resources and Services (OARS). É considerado um dos mais adequados instrumentos de avaliação multidimensional disponível para avaliar a capacidade funcional de idosos.
Resultados:
Esta metodologia foi desenvolvida para avaliar a capacidade funcional em cinco áreas centrais da qualidade de vida do idoso: recursos sociais, recursos económicos, saúde mental, saúde física e actividades de vida diária.
Centrando-nos no somatório das piores classificações (recursos fortemente e totalmente insatisfatórios), para o género, grupo etário e total da amostra, verificamos que:
– A pontuação segundo o modelo OARS/QAFMI para a área de recursos sociais revela quanto ao género, uma classificação de 6,4% para os homens e 16,1% para as mulheres. Por grupos etários encontramos 13,6% no grupo de 75-84 anos e 9,9% no grupo ≥85 anos. Para o total da amostra são 12,6%;
– Na área de recursos económicos, as mulheres são pior classificadas (16,6% contra 11,6% nos homens). No grupo ≥85 anos encontramos 22,0% e no de 75-84 anos 11,9%. No total são 14,8%;
– Na área de saúde mental as mulheres são pior classificadas com 19,6% (9,5% nos homens). O grupo ≥85 anos apresenta 23,7% e o de 75-84 anos 12,7%. No total são assim classificados 15,9%;
– A área de saúde física apresenta os valores percentuais mais elevados de incapacidade (40,5% nos homens e 48,4% nas mulheres). O grupo ≥85 anos 57,5% e o de 75-84 anos 40,7%. Globalmente são 45,5%.
– Quanto às atividades de vida diárias (AVD) são pior classificadas as mulheres (27,3% contra 17,1% dos homens). Os de ≥85 anos são pior classificados (46,1% contra 14,3% dos de 75-84 anos). Para o total da amostra encontramos 23,5% com esta classificação.
Conclusão:
Da aplicação desta metodologia emergem resultados que nos mostram a necessidade de intervenção, em todas as áreas, nomeadamente ao nível da saúde mental, saúde física e AVD. Particular atenção deve ser dirigida às mulheres. A informação recolhida e as possibilidades de cruzamento de dados poderão permitir o encontro, e a conjugação de esforços, de profissionais, e serviços, de saúde e sociais.

CICLOS DE RECUPERAÇÃO COMO PROPOSTA DE ATENÇÃO À POPULAÇÃO IDOSA ACOMETIDA POR AFEÇÕES NEUROLÓGICAS E FÍSICAS, NOMEADAMENTE, O AVC E FRATURAS/ARTROPLASTIAS.

Rafaela Almeida. Email: rafaela.almeida@geridade.com

OBJETIVO – Apresentar uma proposta de atendimento, definidos por ciclos de recuperação nas áreas neurológica e ortopédica, em residência especializada e direcionada à população idosa.
METODOLOGIA – A avaliação inicial do idoso é feita em conjunto pela equipa multidisciplinar, que depois de analisar cuidadosamente os dados recolhidos, propõe uma recuperação num horizonte temporal limitado. A alta dos nossos serviços será proposta quando a equipa considerar que se atingiu o limite máximo de recuperação.
A proposta centra-se no internamento durante um período mínimo de 30 dias, que visa, de maneira intensiva, a reabilitação das capacidades físicas e funcionais do idoso, num ambiente adaptado às suas necessidades.
Dispondo de uma equipa multidisciplinar composta por profissionais das áreas da Medicina, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Terapia da Fala, Enfermagem, Psicologia e Animação Sociocultural, pretende-se que cada utente tenha um plano específico e totalmente adaptado às suas necessidades físico-funcionais e ao seu potencial de recuperação.
Procuramos investir na aprendizagem e acreditamos que o esforço da equipa técnica poderá proporcionar um acompanhamento individualizado, com foco nas necessidades e especificidades de cada utente.
RESULTADOS – O ano de 2013 tem sido dedicado à realização de estudos que nos ajudem a comprovar a eficácia do projeto e que orientem as alterações necessárias de modo a irmos ao encontro das necessidades desta faixa etária.
CONCLUSÃO – O envelhecimento demográfico há muito que desperta nos profissionais e nas instituições a busca pelo desenvolvimento e o aprimoramento de iniciativas capazes de colmatar todas as necessidades da população que está a envelhecer. Tais necessidades são de naturezas variadas e exigem cada vez mais profissionais preparados e capazes de prestar serviços de qualidade e que estejam totalmente direcionados às especificidades desta faixa etária. A Casa Azul procura desenvolver de maneira individualizada um acompanhamento especializado à população em causa.
Prevê-se alcançar resultados que se revelem animadores, de modo a consolidarmos a proposta de oferta de um acompanhamento especializado e totalmente adaptado as necessidades e especificidades da população de mais idade.

DESENVOLVER COMPETÊNCIAS NO ÂMBITO GERONTOLÓGICO DIRECCIONADA A AUXILIARES DE ACÇÃO MÉDICA: – UMA EXPERIÊNCIA DA ESCOLA SUPERIOR DE ENFERMAGEM S. FRANCISCO DAS MISERICÓRDIAS (ESESFM) E O LAR DR. VIRGÍLIO LOPES (LVL).
Maria de Jesus Costa. Email: marjecosta2010@gmail.com

Objetivo: Munir as auxiliares de acção médica deste Lar com competências que lhes permitam uma abordagem global na sua prática de cuidados à pessoa idosa.
Metodologia: A elaboração de um programa de formação deve sedimentar-se numa avaliação de diagnóstica prévia, com o objectivo de fazer o levantamento das necessidades, de forma a poder validar a importância da acção formativa para os destinatários. De acordo com as duas Instituições ESESFM e o LVL iniciou-se com um conjunto de reuniões devidamente planeadas que permitiram, ter um maior conhecimento da realidade vivida na instituição de idosos e realizar um diagnóstico da situação relativa à intervenção formativa a concretizar com o grupo profissional em causa, o que permitiu determinar as necessidades formativas das referidas auxiliares.
Deste encontro foi decidido:

• A formação seria realizada numa parceria entre as duas Instituições;
• Existiria uma docente da ESESFM com a responsabilidade da conceptualização e organização da intervenção formativa;
• As acções de formação seriam desenvolvidas por duas docentes da ESESFM e um elemento da direcção da instituição de idosos.

Após a administração dos conteúdos teóricos passamos aos aspetos relativos à avaliação da intervenção implementada.
Resultados: Através de uma grelha de observação ” avaliação de competências” e uma entrevista estruturada, previamente testadas que permitiu identificar se o conhecimento teórico tinha sido integrado e posto em prática, o que nos permitiu constatar uma mudança de comportamentos que se apoiava no conhecimento adquirido assim como a necessidade de colmatar algumas lacunas no que respeita à mobilização dos respectivos conhecimentos.
Conclusão: Enquanto profissionais e formadores na área da Saúde, é nossa preocupação conhecer as necessidades reais do país, no que respeita à formação destes cuidadores que prestam cuidados às pessoas idosas em particular, as que se encontram institucionalizadas e dotarmos este grupo de cuidadores com um corpo de conhecimentos específicos. Nesta sequência não podemos deixar de referir a nossa preocupação relativamente à iliteracia destes profissionais sobre o processo de envelhecimento e as principais dimensões da abordagem à pessoa idosa.
A formação contribui, ainda, para o desenvolvimento pessoal e profissional dos cuidadores, melhorando inevitavelmente o desempenho organizacional, o bem-estar da pessoa idosa que se espelha em qualidade de vida, em cuidados menos complexos e menor dispêndio económico para a instituição e para as próprias famílias.

EFEITOS DE UM PROGRAMA DE EXERCÍCIO MULTICOMPONENTE SOBRE AS FUNÇÕES FÍSICAS E COGNITIVAS DE IDOSOS INSTITUCIONALIZADOS COM DOENÇA DE

ALZHEIMER

Arnaldina Sampaio. Elisa Marques. Joana Carvalho. Jorge Mota. Email: arnaldina@gmail.com

Resumo: À medida que a população mundial envelhece a uma velocidade quase exponencial e a prevalência de demências aumenta consequentemente, torna-se cada vez mais relevante encontrar estratégias e meios para atenuar o declínio das funções cognitivas e físicas dos idosos com Doença de Alzheimer (DA).
O objetivo deste estudo foi investigar o efeito de um programa de intervenção de exercício físico multicomponente na função cognitiva, variáveis antropométricas e de aptidão física, em idosos com DA.
A amostra foi constituída por 32 idosos institucionalizados com diagnóstico clínico de DA, com idades entre 84,34 ± 5,9 anos de idade, com demência leve e moderada, que foram divididos em dois grupos: o grupo experimental (GE, n=16) e o grupo controle (GC, n=16). O GE participou de um programa de exercício multicomponente supervisionado, (incluindo exercícios aeróbios, força e resistência muscular, flexibilidade e exercícios posturais) 1h/dia , duas vezes por semana, durante seis meses. Os participantes do GC mantiveram suas atividades diárias regulares durante o mesmo período. Função cognitiva (MMSE), variáveis antropométricas (IMC e perímetro de cintura) e de aptidão física (Fitness Senior Test), foram avaliadas antes (M1), após 3 meses (M2) e no final (M3) do programa de intervenção.
Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas, nos testes de aptidão física, variáveis antropométricas e na função cognitiva, entre os grupos, na avaliação inicial. A ANOVA de duas entradas (grupo e tempo), com medições repetidas de um fator (tempo), revelou interações significativas entre grupo e tempo nas funções cognitivas, no perímetro de cintura, força dos membros inferiores e membros superiores, agilidade, resistência aeróbia, flexibilidade dos membros inferiores e membros superiores. Assim, a diferença na resposta, entre os grupos, foi evidente ao longo do tempo para estas variáveis. Observou-se ainda, uma diminuição estatisticamente significativa do perímetro de cintura, uma melhoria nos testes de aptidão física entre M1 e M3, e um aumento significativo no MMSE entre M1 e M2 no GE. A função cognitiva e força de membros superiores diminuíram significativamente ao longo do tempo (M1 vs M3) no GC. Não foram observadas alterações do IMC em ambos os grupos. Não ocorreu nenhum efeito adverso devido à aplicação do programa de intervenção.
Estes resultados permitiram verificar que o exercício multicomponente pode ser um elemento importante na promoção e manutenção da saúde, permitindo melhores resultados na aptidão física e cognitiva, por parte do GE em comparação com indivíduos inativos. Este estudo sugere que os programas de exercícios multicomponentes podem ser uma estratégia não-farmacológica importante para atenuar o declínio das funções físicas e cognitivas em pacientes com DA institucionalizados.

ENVELHECIMENTO ACTIVO

Silvia Noruegas; Carla Calça; Susete Manguinhas; Marisa Afonso; Carina de Jesus; Florinda Recto. Email: silcrisnor@gmail.com

Objetivos: Manter/Melhorar a funcionalidade dos idosos; Manter/Melhorar a capacidade cognitiva dos idosos; Prevenir a ocorrência de quedas; Sensibilizar para a aquisição de estilos de vida saudáveis e participação ativa dos idosos nos cuidados de saúde e na sociedade em geral.
Metodologia: O projeto decorreu de Maio a Dezembro de 2012, tendo como grupo alvo neste projeto 60 idosos institucionalizados, auxiliares/técnicos/responsáveis em Lares de Idosos e/ou Centro de Dia de IPSS da cidade de Estremoz ( X; Y e Z).
Os idosos foram avaliados ao inicio e no final do projeto com várias escalas: índice de Katz (avaliar a capacidade física e funcional); Mini Mental State; Time get up; Chair stand test (avaliar a funcionalidade); SF12v2 (avaliar a perceção do seu estado de saúde).
Pretendeu-se realizar várias atividades, nomeadamente:
– Aplicar e avaliar resultado de escalas utilizadas;
– Atividades e estratégias de prevenção de doenças e de fatores comportamentais;
– Atividades que promovam desenvolvimento cognitivo, a relação comunicacional e a promoção da relação interpessoal;
– Atividades e estratégias que promovam a atividade física, a promoção da saúde oral e prevenção de problemas relacionados;
– Atividades de promoção de atividades intergeracionais ;
– Atividades de formação aos auxiliares, que lhes permitam adquirir conhecimentos e competências para promover envelhecimento ativo.
Resultados: Foram alvo deste projeto 60 idosos, sendo para a análise dos dados apenas contabilizados 36.
Cerca de 15 idosos pertenciam ao Lar X, 12 ao Lar Y e 9 ao Lar Z. A grande maioria é do género feminino (27). O maior número de idosos encontra-se na faixa etária dos 80 aos 89 anos (21).
Quanto ao Índice de Katz podemos referir que 14 idosos melhoraram; 12 idosos mantiveram e 10 idosos pioraram. Relacionando os valores do Mini Mental State á entrada e á saída, 16 idosos pioraram, 15 idosos melhoraram e 5 idosos mantiveram os mesmos valores.
Comparativamente aos resultados do Time get up and go, podemos concluir que 86% dos idosos mantiveram ou melhoram a sua funcionalidade.
Comparativamente aos resultados do Chair Stand test , podemos concluir que 89% dos idosos mantiveram ou melhoram a sua funcionalidade.
Relativamente á perceção da qualidade de vida relacionada com a saúde, podemos verificar o valor médio 34,3, tendo estes valores aumentado um pouco sendo o valor o valor médio á saída de 36,2.
Relativamente ao MCS á entrada o valor medio é de 49,2, tendo o valor medio á saída diminuído (48,7).
Relativamente às atividades desenvolvidas, estas incidiram sobre a apresentação do projeto, á aplicação de escalas á entrada e á saída; classe de gerontomobilidade; atividades cognitivas; atividades de promoção do auto estima; saúde oral; prevenção de quedas e alimentação saudável.
Conclusões: Relativamente aos indicadores e metas de execução, todos os indicadores foram atingidos.

ENVELHECIMENTO COGNITIVO USUAL VS PATOLÓGICO – O PAPEL DA RESSONÂNCIA MAGNÉTICA

Joana Barata Tavares, João Serras, Clara Loureiro, Joana Morgado, Carolina Maruta, Jorge Campos, Isabel Pavão Martins. Email: joanactavares@hotmail.com

Introdução: O envelhecimento cognitivo não é idêntico em todos os indivíduos e a distinção entre o envelhecimento considerado usual e aquele que é considerado patológico é bastante difícil de definir.
A neuroimagem é um campo da medicina que permite a avaliação estrutural do cérebro e o seu uso em projectos de investigação neuropsicológica tem assumido nos últimos anos cada vez mais importância.
Objectivo: Correlacionar performance cognitiva com a atrofia cerebral global e segmentar em imagens de ressonância magnética crânio-encefálica numa coorte de indivíduos idosos da comunidade.
Metodologia: Recrutamento prospetivo de 130 sujeitos dos Cuidados de Saúde Primários Portugueses com mais de 50 anos, sem história de patologia cerebral conhecida. A informação clínica foi obtida junto dos respectivos médicos e avaliações neuropsicológicas foram efectuadas.
Os sujeitos realizaram um estudo de ressonância magnética num aparelho 3Tesla, tendo posteriormente sido aplicadas escalas de avaliação neuroimagiológicas: atrofia global cortical (GCA), Koedam e atrofia mesial temporal (MTA).
Resultados: Mais de metade dos sujeitos avaliados (65%) apresentava algum grau de atrofia cerebral (avaliada por GCA), no entanto, esta apenas era severa (“knife-blade”) em 2,5%. Foi observada maior prevalência de atrofia parietal (20%), avaliada pela escala de Koedam, do que de atrofia mesial temporal (4%), avaliada por MTA, sendo maior a correlação da primeira com o resultado da avaliação de Mini Mental State Exam.
Conclusão: Classicamente a atrofia mesial temporal associa-se à doença de Alzheimer mas estudos recentes indicam a presença de atrofia do precuneus (parte do lobo parietal) em fases precoces de doentes de Alzheimer. O que este estudo vem demonstrar é que numa população comunitária, sem patologia cerebral conhecida, existe maior prevalência de atrofia parietal do que temporal e a primeira correlaciona-se mais com declínio cognitivo.
No futuro, a avaliação visual do cérebro, com focalização em áreas de atrofia segmentar, poderá tornar-se mais específica para predizer quais os sujeitos normais que irão evoluir para Alzheimer.

ENVELHECIMENTO, PSICOLOGIA POSITIVA E BOAS PRÁTICAS

Maria A. Veiga d’Araújo. Email: jardimmaria@gmail.com

O envelhecimento humano é um processo contínuo e comum a todo o indivíduo. Tem início na concepção e termina na morte (Vaillant, 2003). É um processo ao longo do qual perdas e ganhos decorrem e concorrem entre si (Baltes & Baltes, 1986). Em determinado momento, as primeiras tendem a superar os segundos. Baltes e Baltes (1986) propõem o Modelo da Selecção, Optimização e Compensação e sugerem que, até certo ponto, é possível compensar as perdas e manter bons níveis de satisfação com a vida. A Psicologia Positiva ajuda os indivíduos a manter o foco na superação das perdas, contribuindo para uma vida mais prazerosa. O contributo desta área do saber verifica-se através do estudo de conceitos como a Esperança, a Gratidão, o Flow, a Escuta Activa Construtiva, a Espiritualidade, as Emoções Positivas, as Relações Positivas, entre outros. Estes e outros modelos descritos nesta investigação apontam, assim, para factores diversos que poderão contribuir para um processo de envelhecimento positivo. Nessa linha, foi criado um programa de intervenção: o Chá das Quartas (CQ). Este programa tem vindo a decorrer nos últimos três anos, no Alentejo, para um grupo de mulheres com idades muito avançadas, em quem se fazia notar a solidão. O presente estudo sobre o CQ tem os seguintes objectivos: a) identificar factores de felicidade percebidos pelas participantes; e b) explicitar as boas práticas que parecem ter mais impacto na promoção do bem-estar das mulheres. Na presente comunicação procura-se partilhar os resultados referentes ao segundo objectivo. Nesta investigação, assente no método de estudo de caso, a recolha de dados foi feita através da aplicação de questionários e de cartas de gratidão redigidas pelas participantes. Para a análise dos dados, recorreu-se à análise de conteúdo e à estatística descritiva – usando, por isso, uma abordagem de métodos mistos. Os dados revelam um impacto positivo do CQ ao nível do bem-estar individual, relacional e colectivo, que se verifica no aumento dos índices de gratidão e felicidade das participantes ao longo do projecto, na valorização dos novos momentos de convívio por parte das idosas, e no maior envolvimento das mulheres na comunidade através da participação em eventos comunitários de relevo, entre outros resultados. Estes resultados foram possíveis de alcançar de forma continuada dadas as características estruturais e processuais deste projecto: as boas práticas que aqui se identificam e partilham.

ESTIMULACIÓN COGNITIVA Y CALIDAD DE VIDA: LOGROS EN EL ÁMBITO GERONTOLÓGICO DEL S.XXI

Sandra Fernández Prado, Mónica Antelo Martelo, Joaquim Parra Marujo, Manuel Gandoy Crego y J. Manuel Mayán Santos. Email: sandrafdezprado@gmail.com

Objetivos
Se pretende extraer resultados de un trabajo de estimulación cognitiva, que se desarrolla con personas mayores del entorno gallego. Además de poder recoger estas aportaciones de las funciones cognitivas, se ha querido observar la influencia en la percepción de la calidad de vida experimentada por los sujetos experimentales de este trabajo.
Metodología
Se ha llevado a cabo el diseño de un Programa de Estimulación Cognitiva, gracias al respaldo de Servicios Sociales del ayuntamiento de Caldas de Reis, en Pontevedra, que ha trabajado conjuntamente con el Programa de Doctorado en Gerontología de la Universidad de Santiago de Compostela.
Se ha procedido al conocimiento mediante administración de pruebas Pre-test de los sujetos experimentales con una batería de pruebas homologadas y estandarizadas (Mini Examen Cognoscitivo de Lobo, Test Conductual de Memoria de Rivermead (RBMT) y Escala CUBRECAVI de calidad de vida). Se ha implantado el citado programa y, a medida que ha evolucionado el mismo, se ha ido evaluando periódicamente a los sujetos. Este conocimiento longitudinal nos ha permitido conocer datos acerca de las aportaciones del trabajo cognitivo en el conjunto de las funcionalidades cognitivas y además, hemos podido conocer, cómo ha influido esta experiencia en la percepción expresada de su calidad de vida.
Resultados
Tras el análisis estadístico, mediante SPSS, hayamos aportaciones significativas de la estimulación cognitiva a las capacidades cognitivas de los sujetos, de la misma forma que la percepción de la calidad de vida se ha visto modificada en muchas de las variables que la componen.
Conclusiones
Los datos recogidos nos hacen pensar y afirmar que los programas de estimulación cognitiva no son solamente útiles herramientas de reforzamiento cognitivo para las personas mayores sino importantes mecanismos de refuerzo a tener en cuenta en la visión global de la calidad de vida en la fase de envejecimiento.
Mediante estas investigaciones esperamos responder a las necesidades de las personas mayores de ahora y del futuro, para conseguir mejoras en su funcionalidad cognitiva y mejorar también su calidad de vida, que es otro importante objetivo de las intervenciones gerontológicas: conseguir cantidad y calidad en el envejecimiento.

GRÃ-PARENTALIDADE E RELAÇÕES INTERGERACIONAIS NO CONTEXTO DAS SOCIEDADES OCIDENTAIS CONTEMPORÂNEAS: REVISÃO DA LITERATURA.

Isabel Margarida Marques Monteiro Dias Mendes. Rogério Manuel Clemente Rodrigues. Zaida de Aguiar Sá Azeredo. Email: isabelmendes@esenfc.pt

Resumo:
Introdução: Na actualidade a esfera familiar evidencia uma pluralidade de configurações, como as famílias de idosos e as famílias com idosos.
Outra característica marcante dessa diversidade é a família longeva, traduzindo-se como um fenómeno novo e apresentando a coexistência de várias gerações.
Face ao número cada vez maior de indivíduos a alcançar idades cada vez mais avançadas, origina-se por um lado, potencialmente, uma maior convivência intergeracional e acentua-se, por outro, a importância cada vez maior da solidariedade entre as gerações.
Nesse contexto, identificamos as relações intergeracionais como algo benéfico, que pode ser estimulado com a perspectiva de um enriquecimento mútuo, através da partilha de conhecimentos e da abertura para o diálogo entre as gerações.
Objectivo: Rever o conceito de grã-parentalidade nas sociedades ocidentais contemporâneas e o seu significado nas relações intergeracionais-
Método: Revisão da literatura com recurso a bases de dados B-On, Academic Google, e Pub-Med. A pesquisa foi limitada a artigos publicados entre 2000-2012 nas línguas Portuguesa, Espanhola, Inglesa e Francesa.
Resultados: 45 estudos foram selecionados a partir de 2710 artigos das bases de dados. Os principais temas comuns encontrados foram: o papel dos avós como um equilíbrio familiar entre gerações, com padrões de interação de proximidade, a proximidade emocional e apoio social; maior influência dos avós maternos no estabelecimento e manutenção dos laços intergeracionais. Por último, os avós trazem o sentido de identidade intergeracional no seio familiar, positivamente relacionada com o bem-estar de todos os membros.
Conclusão: Nas sociedades contemporâneas a grã-parentalidade surge como o elo de ligação sensível entre as diferentes gerações, sendo o relacionamento intergeracional uma oportunidade para a promoção de um envelhecimento saudável e um desenvolvimento saudável dos mais jovens, visando uma sociedade para todas as idades.

HABITAÇÃO PARA IDOSOS EM LISBOA: DE COLECTIVA A ASSISTIDA. O CASO DE ALVALADE

Antonio da Silva F. Carvalho. Email:a.carvalho@zonmail.pt

A população portuguesa (e mundial) está a envelhecer a um ritmo muito acelerado — Lisboa era já em 2001 a capital europeia da UE15 mais envelhecida, realidade que se agravou desde então.Esta tendência demográfica de quase inversão da pirâmide demográfica significa que é urgente encontrar uma solução habitacional para os idosos, que constituem o único grupo etário em crescimento. Significa também que as cidades serão progressivamente habitadas por mais idosos, pelo que o quotidiano urbano (em espaços públicos e privados, livres ou construídos) será cada vez mais condicionado pelas restrições dos mais velhos, em termos de acessibilidades ou outros aspectos funcionais.
Objectivo: Para evitar a panaceia da institucionalização em lares de idosos, é urgente propor um novo paradigma habitacional para as pessoas mais velhas: envelhecer em casa.
Metodologia: Sendo Lisboa maioritariamente constituída por edifícios de apartamentos, estudou-se o funcionamento e características das “residências assistidas” de diferentes iniciativas (privada, estatal, IPSS) e dimensões (grande, média e pequena).
Desse estudo retiraram-se ensinamentos que permitissem a sua aplicação aos edifícios normais de habitação colectiva, transformando-os desse modo em edifícios-residência, onde os moradores possam naturalmente envelhecer, em apartamento adaptados ou adaptáveis às diferentes etapas da vida.
Seguidamente estudaram-se edifícios de apartamentos cujas características permitissem encontrar soluções aplicáveis ou extrapoláveis para outros conjuntos habitacionais.
Para cada um dos edifícios existentes que foram seleccionados desenvolveu-se um projecto de adaptação do edifício e dos apartamentos de modo que, com intervenções e custos mínimos, permitisse a sua conversão em condomínio assistido.
Resultados: O Bairro de Alvalade, pela repetição sistemática dos seus edifícios-tipo, permitiu seleccionar seis casos concretos para aplicação de diferentes soluções, no sentido de que passem a funcionar como condomínios assistidos para os seus moradores envelhecidos, evitando (ou adiando) a sua institucionalização.
As soluções projectadas para estes seis edifícios têm a possibilidade inerente de replicação, podendo ser aplicadas a dezenas de edifícios, centenas de apartamentos e milhares de moradores, apenas no Bairro de Alvalade.
Conclusão: Com os modelos de intervenção propostos caso a caso, verificam-se vantagens habitacionais, humanas e urbanas: ganham-se apartamentos mais flexíveis, adaptáveis às diversas fases da vida; os moradores podem envelhecer em casa e no bairro, na companhia de vizinhos e comerciantes que conhecem e em quem confiam; torna-se mais fácil e cómodo para os familiares manterem as rotinas das visitas à casa de sempre; os espaços exteriores públicos tornam-se mais amigos dos idosos (e como tal amigos de todos), com acessibilidade universal; o convívio intergeracional é promovido, dentro de casa, no edifício e no bairro; a flexibilidade do novo modelo permite a renovação natural das gerações dos seus habitantes e novamente o seu envelhecimento em casa, sem segregação edificativa nem estigmatização social — a cidade envelhece e renova-se continuamente.

IDEAL SÉNIOR

Fernanda Oliveira: Email: fernanda.oliveira@misericordiagolega.pt

O projeto “Residencias Senior- Nossa Senhora das Misericórdias” foi criado tendo por base os objetivos/desenvolvimento da instituição, tanto a nível de infraestruturas como a nível de objetivos de intervenção que o Serviço Social sente a necessidade de intervir. O “Ideal Sénior”, foi projetado a fim de ser uma resposta social personalizada para uma população específica.
Há cerca de 13 anos, altura em que esta resposta foi criada, a realidade social em termos da problemática do envelhecimento ativo, nomeadamente no distrito de Santarém, mostra a necessidade sentida pela população em encontrar respostas de apoio alternativas às valências de internamento tradicionais. E, por isso, são procuradas por pessoas com idades menores (65 anos) com a motivação de querer poder assegurar segurança e conforto para um futuro próximo.
Esta resposta Social nasceu em 1999 designada por SENIOR RESIDENCE, inicialmente construídas apenas quatro moradias. Atualmente este complexo dispõe de 24 residências integradas numa ampla zona ajardinada e de lazer, sendo que as ultimas oito são de construção recente, em finais do ano 2012.
Para pessoas com idade igual ou superior a 65 anos, portadoras de características pessoais, culturais e socioeconómicas é por vezes muito difícil encontrar locais com grande privacidade e estimuladoras de autonomia.
A Misericórdia passou assim a ter esta valência, criou espaços “confortáveis e seguros” para fazer face ás necessidades/expectativas da população/comunidade em que os utentes podem usufruir de “cuidados de um lar” na privacidade de uma residência, em plena Vila da Golegã.
As moradias deste complexo são compostas por um quarto, uma instalação sanitária com apoios técnicos, uma sala e uma cozinha, cada utente tem direito a um lugar no parque de estacionamento. Todas estas residências são decoradas pelo residente (ou seus familiares), para que a pessoa se sinta num espaço “seu”, único e confortável, e que reflita as características da sua própria identidade, hábitos e costumes.
A resposta projetada pretende proporcionar um espaço “ideal” com serviços permanentes e adequados às necessidades das pessoas seniores, contribuir para a estimulação de um processo de envelhecimento ativo com autonomia, assim foram criadas condições que permitam preservar e incentivar a estabilidade do suporte familiar quando existente, bem como potenciar a integração social. Este apoio é sempre prestado em regime de apoio domiciliário, isto é todos os serviços são prestados nas residências, por uma equipa preparada e especializada.
Tem como Princípios subjacentes á intervenção desta resposta social a Qualidade, eficiência, humanização e respeito pela singularidade de cada um, Interdisciplinaridade, Avaliação “holística” integral das necessidades dos residentes, Promoção e Manutenção da funcionalidade e da autonomia, Participação e co-responsabilização do residente ou seu familiar, na elaboração do plano de cuidados.

INTERVENÇÕES DE ENFERMAGEM EM IDOSOS EM RISCO OU VÍTIMAS DE ABUSO E NEGLIGÊNCIA

Flávia Danielli Martins Lima. Email: fdmlima@gmail.com

Objetivo:
Identificar intervenções de enfermagem essenciais na prevenção e detecção do abuso e negligência contra idosos.
Com a finalidade de atingir o objetivo proposto por esta revisão da literatura, formulou-se a seguinte questão de investigação: Em relação aos idosos em risco ou vítimas de abuso e negligência, quais intervenções de enfermagem são essenciais na prevenção e detecção desses maus-tratos?
Metodologia:
Desenvolveu-se de acordo com o método PICO, cuja questão estruturada e adaptada foi: P(population)- Idosos; I(Interventions)- Intervenções de Enfermagem; O (outcomes)- Detecção e prevenção do abuso e negligência.
A pesquisa foi efetuada nas bases de dados MEDLINE e CINAHL através de palavras-chave e sinônimos com base na questão PICO. Os estudos foram selecionados obedecendo critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos.
Os estudos foram selecionados de acordo com os critérios estabelecidos e, após o cruzamento das palavras-chave e obtenção dos registos nas bases de dados e eliminados os duplicados, triaram-se os mesmos por título e abstract, de forma a reduzir o número de artigos potencialmente elegíveis.
Resultados:
Utilizaram-se 8 artigos para análise dos dados. Todos foram realizados em países desenvolvidos e, relativamente aos níveis de evidência dos estudos obteve-se apenas níveis IV e V, impedindo que os resultados analisados e considerados atinjam o nível mais elevado de evidência científica, caracterizado pelos ensaios clínicos aleatorizados- randomized clinical trials (RCT). Os estudos focalizam principalmente na percepção dos enfermeiros relativamente ao abuso contra idosos. As intervenções de enfermagem são citadas como importantes, no entanto são limitadas pela falta de formação destes profissionais, dificultando, assim, a avaliação clínica dos idosos e possíveis intervenções.
Conclusão
As intervenções de enfermagem são citadas como importantes na prevenção e detecção do abuso e negligência dos idosos, no entanto, os estudos mostram que são pouco estruturadas e existe limitação destes profissionais devido à falta de formação na área.

MAIS MOVIMENTO, MAIS SAÚDE: PREVENÇÃO DE COMPORTAMENTOS SEDENTÁRIOS NA POPULAÇÃO IDOSA FRÁGIL – ESTUDO PILOTO

Roxo, S.; Araújo, N.; Nascimento, C. ; Gomes da Silva, M. Email: susanaroxo_570@hotmail.com

Introdução: Os estilos de vida sedentários representam um risco para a população idosa, pelo seu impacto no declínio funcional. Promover a atividade física parece ser uma estratégia efetiva na minimização dos efeitos negativos do sedentarismo, contudo a adesão a programas de exercícios estruturados é reduzida a longo prazo, particularmente neste grupo de pessoas. Objectivo: Prevenir estilos de vida sedentários e aumentar os níveis de atividade física de pessoas idosas frágeis, não institucionalizadas. Métodos: Cinco pessoas com idades compreendidas entre os 70 e os 80 anos participaram neste programa. Foram avaliadas a auto-percepção das barreiras à prática da atividade física, o conhecimento da importância da prática da atividade física, os padrões de atividade física e o conhecimento da família/cuidadores informais sobre a importância da atividade física. O programa teve a duração de 12 semanas e incluiu uma sessão educacional em grupo e outra sessão de acompanhamento individual no domicilio, semanalmente. Resultados: No final do programa, os participantes auto-percepcionavam menos barreiras à prática de atividade física, o seu conhecimento sobre a atividade e seus benefícios aumentou, assim como aumentou a frequência com que praticaram atividade física de intensidade moderada, nas suas rotinas diárias (numa base seminal). Discussão: Os resultados obtidos sugerem que o tempo despendido em atividades sedentárias diminuiu e aumentou o tempo utilizado em atividade física de intensidade moderada. Apesar das 12 semanas terem possibilitado o estabelecimento de uma relação de confiança entre o fisioterapeuta e os participantes, este tempo parece ter sido insuficiente para introduzir mudanças profundas nas rotinas diárias. Este grupo tem uma percepção singular das barreiras ao aumento da intensidade de determinadas atividades nas suas rotinas. Programas futuros devem ter em consideração o impacto sócio-cultural, social, económico assim como as características individuais.
Conclusão: Intervenções para prevenir comportamentos sedentários e promover a atividade física, baseadas nas rotinas das pessoas parecem ser benéficas. Contudo é necessário levar a cabo ouros projetos que permitam uma análise mais aprofundada das implicações e respectivos benefícios de saúde.
Este projeto foi implementado com o apoio do ”Centro Comunitário de São Sebastião – Setúbal.

MONTES ISOLADOS

Autores: Carla Calça. Email: carlamsrc@gmail.com

Objetivos: Caraterização de idosos frágeis e vulneráveis que vivem em montes isolados, no concelho de Estremoz, com dificuldade de acesso aos cuidados de saúde.
Metodologia: A amostra foi constituída por 158 indivíduos com idades superiores ou igual a 65 anos (dos quais 2 têm idades inferiores mas incluídos no estudo por necessidade de cuidados), que residem em lugares isolados no concelho de Estremoz.
A recolha de dados decorreu entre Setembro a Dezembro de 2011, sendo aplicado o Instrumento de Avaliação Integrada (IAI) da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e Documento de Colheita de Dados elaborado pela equipa.
Estabelecidos protocolos entre a UCC Estremoz e diversos parceiros da comunidade, nomeadamente Câmara Municipal de Estremoz, Guarda Nacional Republicana Estremoz, Instituto Segurança Social, IP – Centro Distrital Segurança Social Évora e ONG Médicos do Mundo.
Atividades: Reunião entre os parceiros para definir protocolo e assinar. Recolha dados pessoais, como nome, profissão, documentos identificativos, agregado familiar, existência de cuidador principal, necessidade de cuidados de terceiros, tipo de apoios recebidos, avaliação social, antecedentes pessoais, alergias, medicação atual. Aplicado o Instrumento de Avaliação Integrada. Avaliado sistema tegumentar (pele e mucosas). Verificado estado vacinal através do Boletim de Vacinas. Executados cuidados de enfermagem após diagnóstico das necessidades (promoção e prevenção, encaminhamento, informativos, curativos). Programadas novas visitas domiciliarias quando o idoso é considerado frágil ou vulnerável. Estabelecido o roteiro do UMS semanalmente, de acordo com as zonas geográficas a visitar e com os idosos vulneráveis, programados para nova visita domiciliária. Reunião no final do dia para discutir avaliações e ajustar critérios de continuidade. Apresentado na reunião da Rede Social do Concelho de Estremoz o projeto a todos os parceiros. Divulgado o projeto às restantes Unidades funcionais de Saúde de Estremoz, população e meios comunicação.
Resultados:
Os resultados adquiridos revelam que o grupo etário é representado maioritariamente por indivíduos dos 71 aos 80 anos, 58%.
As queixas de saúde identificadas pela população como sentidas e valorizadas, a principal são a Tensão Arterial Elevada, 33%, seguido do grupo de idosos que referem Sem Problemas de Saúde, 20%, não valoriza qualquer problema de saúde. Quanto ao estado nutricional 76% da população apresenta peso Adequado, relativamente à capacidade física (Autonomia Física) 89% dos indivíduos são totalmente independentes e na escala da funcionalidade (Autonomia Instrumental) 68% mantêm totalmente independentes.
As queixas emocionais (ansiedade, nervoso, triste e deprimido) prevalecem os indivíduos sem queixas, 56% e 53%.
Conclusões:
Podemos concluir que os idosos que vivem em lugares isolados são maioritariamente independentes, continuam com atividade física, não valorizam os problemas de saúde e consideram as alterações que ocorrem como normais do processo de envelhecimento

NÚCLEO DE INTERVENÇÃO AOS IDOSOS E FAMÍLIAS EM RISCO

Patrícia Maria Menezes Pinto. Email: patriciapinto123@hotmail.com

O envelhecimento da população é um proeminente fenómeno mundial. A intensidade do crescimento da população “mais idosa”, considerada de 80 anos e mais, tem-se elevado progressivamente e o aumento da expectativa de vida pode elevar a incidência de enfermidades crónicas não transmissíveis e incapacitantes no idoso, com possíveis alterações na dependência física, cognitiva e emocional, que podem comprometer sua autonomia, o que gera maior demanda de cuidados permanentes por parte do grupo familiar cuidador.
A globalização e industrialização levaram nos paises mais desenvolvidos a transformação da familia tradicional (horizontal) noutros tipos novos de familia (com redução dos seus membros-vertical), o que diminui os cuidados informais e demanda a necessidade de cuidadores informais.
Esta limitação das familias verticais leva a que haja um aumento de pressões no sistema nacional de saúde para aprovisionamento de cuidadores formais de cuidado a longo termo ou suporte suplemantar ou treino para cuidadores informais em famílias verticais (WHO).
No ambiente familiar, a função de cuidador tende a ser assumida por uma única pessoa, denominada “cuidador principal”, que assume a responsabilidade pelo cuidado, sem contar, na maioria das vezes, com a ajuda de outro membro da família ou de profissionais capacitados. O cuidador informal expõe-se a uma série de situações stressantes, como o peso das tarefas e as doenças advindas das exigências do trabalho e das características do idoso. Além disso, faltam-lhe informações, além de apoio físico, psicológico e financeiro para enfrentar o quotidiano do cuidar ( Rodrigues e outros, 2012). No exercício de papéis, a mudança é angustiante, em virtude do envolvimento afetivo entre o idoso e a família, a diminuição do tempo de relacionamento com amigos e com a vizinhança, a solidão, a sobrecarga do processo de cuidar e a frustração por não conseguir colocar em prática seus próprios projetos de vida fazem parte das perturbações que, em determinado momento, podem causar stresse no cuidador. Avaliar e identificar a sobrecarga do cuidador é um aspecto importante para o cuidado com o idoso, porquanto, o excesso de sobrecarga pode comprometer a qualidade do cuidado e interferir nas relações familiares, nomeadamente podendo levar a situações de violência contra o idoso. A violência contra o idoso pode ser classificada em violência física, sexual, psicológica, economica, institucional, abandono/negligência e autonegligência. A violência intrafamiliar é caracterizada pela ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física e psicológica, ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de um integrante do núcleo familiar. Observa-se um aumento do número de idosos que vivenciam o processo de doença crónica e incapacitante, o que os torna mais vulneráveis a situação de maus-tratos.
Entretanto, muitas formas de violência não chegam oficialmente ao conhecimento institucional, o que configura a subnotificação e, consequentemente, prejudica a fidedignidade das informações a respeito dessa realidade. A escassez de informação quanto aos agredidos e agressores é uma situação delicada, principalmente porque os idosos, de modo geral, não denunciam abusos e agressões sofridas, em função do constrangimento e do medo de repressão por parte dos seus cuidadores, que são frequentemente os próprios agressores. Explicitar a violência intrafamiliar contra o idoso dentro ou fora do ambiente domiciliar suscita da atenção básica de saúde uma organização que permita identificar e propor ações que abarquem a resolução dessa problemática.

O IDOSO INSTITUCIONALIZADO NA COMUNIDADE

Zaida Azeredo. Email: zaida.azeredo@gmail.com

Com o envelhecimento da população e a diminuição do número de elementos por agregado, bem como o aumento das doenças cronico-degenerativas , nomeadamente das demências , as instituições na comunidade , como por exemplo lares, tornam-se indispensáveis á prestação de cuidados a idosos e grande idosos.
Reflectir sobre o idoso institucionalizado e oo ambiente social que o rodeia.
Um idoso institucionalizado vê, muitas vezes, o seu mundo restringido aos elementos da instituição, aos outros utentes e à rede social que mantém girando todas as suas emoções neste ambiente.
As autoras fazem uma reflexão sobre esta relação.

O PASSAR DOS ANOS NA PRISÃO: A RECLUSÃO VISTA POR MULHERES IDOSAS

Adriana Silva. Helena Machado. Email: rosa.adriana.dias.silva@gmail.com

Resumo: Portugal atravessa nos tempos de hoje um processo de envelhecimento da população. Os Censos realizados em 2011 vieram evidenciar essa mesma realidade, uma vez que 2 milhões dos portugueses contam com mais de 65 anos, representando já cerca de 19% do total da população. A população prisional não é imune a este fenómeno: nas últimas duas décadas, a literatura internacional no domínio dos estudos prisionais, mas também em áreas como a saúde pública e a administração da justiça, tem vindo a evidenciar questões específicas relacionadas com o progressivo aumento do encarceramento de reclusos mais velhos. Em Portugal, nos últimos tempos, algumas notícias veiculadas na Imprensa têm conferir alguma visibilidade a esta realidade. Contudo, são ainda escassos os estudos científicos sobre esta matéria e inexistentes as políticas institucionais direcionadas para as necessidades e características específicas deste grupo social.
Esta comunicação enquadra-se numa investigação realizada no âmbito do Doutoramento em Sociologia, da Universidade do Minho, que tem como principal finalidade perceber os impactos do envelhecimento durante o cumprimento de penas privativas de liberdade, a partir das narrativas construídas em contexto de entrevista, por mulheres com mais de 50 anos de idade.
Partindo de um conjunto de entrevistas realizadas com mulheres no Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo, nesta comunicação almeja-se compreender de que forma a idade pode condicionar a forma como vivem o tempo de reclusão assim como as suas expectativas futuras de reinserção na sociedade. Os resultados mostram-nos que o cumprimento da pena é encarado como um tempo perdido e irrecuperável. De igual forma, a idade condiciona a maneira como as reclusas veem o seu futuro, sendo este minado pelo medo de morrer na prisão e pelas incertezas projetadas para a vida no exterior.

QUALIDADE DE VIDA APÓS ARTROPLASTIAS EM DOENTE SÉNIOR

Carlos José Martinez Evangelista. Email: ce.cortopedica@gmail.com

Sumário Executivo: A qualidade de vida não deves estar dependente da idade, esta, por si só não deve ser limitante ou impeditiva.

O autor com a realização de artroplastia, anca ou joelho,permitiu a liberdade, independência, e a reintrudução social de pessoas que até aqui estavam condenadas pela sociedade, pelas suas artrose e pela sua limitação funcional.

Hoje são membros efectivos da família,e da sociedade, pela simples razão que alguém se preocupou com o seu bem estar.

QUALIDADE DE VIDA E UTILIZAÇÃO DA INTERNET PELA POPULAÇÃO IDOSA

Mafalda da Silva Oliveira & Jean Martin Rabot. Email: mafaldasilvoliveira@gmail.com

Resumo: O aumento exponencial do envelhecimento demográfico, em Portugal, é bem real. Este facto social tem evidenciado diversas consequências do processo de envelhecimento: desde casos de exclusão social, isolamento social até casos de estados depressivos e consequentemente de qualidade de vida em decréscimo. No entanto, temos assistido a algumas mudanças no estilo de vida dos idosos, bastante voltado para uma vida equilibrada e saudável. Uma aposta para este efeito é o recurso às novas tecnologias, particularmente à Internet, que permite que os idosos mantenham um elevado grau de independência e dignidade, para além de poderem manter contacto com amigos e familiares mais distantes.
Assim sendo, no âmbito do nosso doutoramento em Ciências da Comunicação, encontramo-nos a desenvolver uma investigação que pretende averiguar se a Internet pode ser um meio que beneficie o processo de envelhecimento, ao melhorar a qualidade de vida do idoso durante este mesmo processo.
Para tentar alcançar este mesmo objetivo, teremos duas grandes fases no que concerne à componente empírica: numa primeira fase, será aplicado um inquérito por questionário online, de caracter exploratório e descritivo, em que se tentará identificar características dos seniornautas, através dos seus usos e gratificações, bem como da sua qualidade de vida; e numa segunda fase, para perceber se a qualidade vida é afetada pelo uso da Internet ou não, irão ser inquiridos não utilizadores da Internet sobre a sua qualidade de vida, para assim se obter um estudo de carácter comparativo. Porque o nosso estudo se caracteriza por ser um estudo com uma metodologia mista, quantitativo e qualitativo, irão também ser realizadas entrevistas semi-estruturadas a idosos utilizadores da Internet, de forma a aprofundar algumas questões abordadas no inquérito por questionário.
No final da investigação, e como ainda está numa fase de aplicação dos instrumentos de recolha de dados, não tendo ainda resultados concretos, é expectável vir a mostrar a importância da utilização da Internet na melhoria da qualidade da população idosa, nomeadamente no que diz respeito ao incremento de relações sociais e à consequente diminuição do isolamento social; à luta contra a exclusão social; à adoção de uma vida mais saudável e ativa, com a aquisição e à atualização constante de conhecimentos, evitando uma vida rotineira. Para além destes mesmos resultados, será ainda expectável obter dados que possam levar a assumir que o número de “seniornautas” em Portugal se encontra em plena expansão. Por fim, é nosso intuito que os resultados desta investigação sejam benéficos para a implementação de boas práticas de qualidade de vida para a população idosa, e como tal, optaremos por apresentar, de forma dinâmica, os resultados da mesma em várias situações, tanto em lares de terceira idade, colóquios e workshops relacionados com a temática em estudo, bem como em Universidades de Terceira Idade.

REATIVA: UM PROJETO DE PROMOÇÃO DE UM ENVELHECIMENTO ATIVO

Helena Loureiro. Aida Mendes. Ana Fernandes. Ana Camarneiro. António Fonseca. Manuel Teixeira Veríssimo. Maria Madalena Carvalho. Margarida Silva. Rogério Rodrigues. Ana Pedreiro. Email: hloureiro@esenfc.pt

Introdução
O crescente envelhecimento populacional coloca um dos maiores desafios de sempre às sociedades contemporâneas: proporcionar aos cidadãos a oportunidade de vivência de um envelhecimento ativo (WHO, 2002). Este desafio é influenciado por diversos determinantes, bem como pela vivência de diferentes acontecimentos transicionais que ocorrem na meia-idade. A aposentação constitui um desses acontecimentos que, constituindo-se como um processo contínuo de adaptação à mudança (Fonseca, 2011), expõe os indivíduos e famílias a um particular estado de vulnerabilidade (Loureiro, Fonseca e Veríssimo; 2012). Na inexistência de um programa de intervenção especificamente construído para a minimização deste efeito, urge a sua construção num dos contextos de cuidados de saúde onde a sua implementação poderá ser maximizada: o contexto dos Cuidados de Saúde Primários.
Objetivos
O projeto ‘REATIVA’ tem como objetivo: a construção de um programa de intervenção em saúde, a ser implementado em contexto de cuidados de saúde primários, que vise preservar o mais elevado nível de saúde biopsicossocial em indivíduos e famílias que se encontram numa fase do ciclo vital da meia-idade e que vivenciam um processo de adaptação à reforma, com vista a promover um envelhecimento ativo.
Metodologia
O projeto terá a duração de 2 anos.
O primeiro ano envolverá quatro momentos complementares que visam aceder a um amplo conhecimento do fenómeno em estudo, por forma a construir um protótipo de um programa, promotor de um envelhecimento saudável, a ser aplicado em indivíduos e famílias de meia-idade: 1º) Realização de Focus Group, constituídos por indivíduos reformados há menos de 5 anos; 2º) Realização de Entrevistas semiestruturadas a indivíduos que percecionaram dificuldades na adaptação à reforma e aos seus cônjuges; 3º) Execução de um Painel de Peritos para discussão dos resultados (obtidos nos momentos anteriores); 4º) Elaboração do protótipo do programa.
O segundo ano corresponderá à implementação do programa, efetuada em três momentos: 1º) Ensaio do protótipo, 2º) Aferição da estrutura em grupo teste; 3º) Medição da eficiência do programa (GC1xGC2xGE).
Conclusões
Este projeto destaca-se pelo seu carácter inovador no contexto dos Cuidados de Saúde Primários, não apenas pela multidisciplinariedade da equipa que o integra (e.g. Medicina, Enfermagem, Psicologia, Sociologia) mas também por ter como objetivo central a construção de um programa de intervenção em saúde comunitária, assente numa filosofia de promoção da sistémica familiar, que até ao momento é inexistente. Preconiza-se que este programa venha a ser responsável por um incremento da qualidade de envelhecimento nas comunidades, onde venha a ser implementado.

HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DE VIDA

Paula Cristina C. Marques de Azevedo; Claudia Ribeiro da Cunha. Email: paulacazevedo@gmail.com

Objetivo: Perceber se as abordagens narrativas têm um impacto positivo na qualidade de vida do sénior, nomeadamente no que diz respeito à estimulação cognitiva, autoestima, autoconhecimento, identidade (identidade para si, identidade para os outros), valores próprios e compreensão multifacetada sobre si próprio, bem como da sua relação com os diferentes contextos em que se insere.
Metodologia: Abordagens narrativas (centram a atenção na pessoa, na sua experiência e percurso de vida e, desta forma, esta toma consciência dos seus próprios projetos) com grupo experimental a decorrer na Universidade Sénior Contemporânea do Porto.
Resultados esperados:
– promover uma vida ativa e saudável na idade maior;
– potenciar o aumento da qualidade de vida na idade maior;
– potenciar a transmissão de conhecimentos em diferentes áreas do saber para as gerações mais novas e o aumento do seu sentido de responsabilização (intergeracionalidade);
– valorizar e fortalecer histórias de vida, laços, relações e referências que se vão constituindo como pilares essenciais no âmbito cultural;
– ao recordar a história de vida, o sénior estará a estimular, ativamente, a sua memória e as suas emoções e fica com um trabalho escrito que também pode partilhar e/ou oferecer a familiares e amigos;
Conclusão:
Uma vez que o trabalho no âmbito das histórias de vida ainda está a decorrer, não podemos avançar já com as conclusões.
No entanto, pelo tempo já decorrido, podemos adiantar que tem um impacto significativo na autoestima e autoconhecimento.

A PESSOA IDOSA HOSPITALIZADA: QUAL O CONHECIMENTO E ATITUDES DOS/AS ENFERMEIROS/AS PORTUGUESES?

João Tavares. Email: enf.joaotavares@hotmail.com

Introdução: Em Portugal as últimas décadas têm sido marcadas por um rápido envelhecimento demográfico. Este fenómeno implica uma maior procura de cuidados de saúde para satisfazer as necessidades das pessoas idosas (PI). As projecções demográficas prevêem um aumento significativo de PI que irão necessitar de internamento hospitalar. No entanto, a formação dos/as enfermeiros/as sobre o cuidado geriátrico tem-se mostrado insuficiente. Esta lacuna formativa tem um impacto considerável no conhecimento e atitudes destes profissionais, afetando a qualidade do cuidado às PI hospitalizadas.
Objectivos: Objectivou-se: i) explorar o conhecimento e as atitudes dos/as enfermeiros/as em relação a quatro síndromes geriátricas (úlceras de pressão, incontinência urinária, uso de contenções e distúrbios do sono) em hospitais portugueses, e ii) avaliar a influência das características sócio-demográficas, profissionais e dos hospitais no conhecimento e nas atitudes geriátricas dos/as enfermeiros/as.
Metodologia: Estudo de abordagem quantitativa, do tipo exploratória-descritiva, transversal, prospectivo e correlacional. A amostra foi constituída por 1068 enfermeiros/as de cinco hospitais (da região norte e centro do país). Na análise dos dados utilizou-se a ANOVA unilateral e o teste de Tukey HSD (nas comparações múltiplas). O nível de significância considerado foi de 5%.
Resultados: A média em relação ao conhecimento e às atitudes foi de 0,41 ± 0,15 e 0,40 ± 0,21, respectivamente (variando de 0 a 1). Considerando as síndromes geriáticas em estudo, os/as enfermeiros/as demonstraram conhecimento insuficiente e atitudes negativas em relação ao cuidado às PI hospitalizas. Os/as enfermeiros/as a trabalhar em hospitais universitários demonstraram um nível de conhecimento significativamente superior relativamente aos colegas dos centros hospitalares. Encontraram-se diferenças estatisticamente significativas entre as atitudes dos/as enfermeiros/as e o tipo de hospital e unidade, região do país, suporte formativo dos hospitais, auto-avaliação do conhecimento e percepção da sobrecarga no cuidado às pessoas idosas hospitalizadas. As atitudes mais positivas foram reportadas por enfermeiros/as: dos centros hospitalares, nos serviços de medicina e cirurgia, da região norte do país, em instituições que suportem a sua formação, que auto-avaliam o seu conhecimento como elevado e com menor percepção de sobrecarga no cuidado às PI hospitalizadas.
Conclusão: Os resultados deste estudo reforçam a necessidade de promover, aumentar e melhorar o conhecimento e as atitudes dos/as enfermeiros/as no cuidado às PI hospitalizadas e a implementação de guidelines baseadas nos dados na sua prática profissional.

Sexualidade na Terceira idade: Estudo de caso. O uso do biograma.

Ana Catarina dos Santos Gabadinho. Email: ana.catarinagabadinho@gmail.com

Resumo: Esta comunicação tem como principal objetivo partilhar um conjunto de reflexões sobre o envelhecimento e a temática da sexualidade, atribuindo especial enfoque à Terceira idade e, a partir daí, contribuir para alterar a visão de que a vida sexual ativa é uma prerrogativa dos jovens. Quem se encontra nesta fase da vida, Terceira idade, precisa viver a sua vida e a sua sexualidade livremente e com dignidade. Reconhecendo a necessidade de melhor conhecer e esclarecer as questões da sexualidade na Terceira idade desenvolveu-se o estudo aprofundado de dois casos, a Maria e o Manuel com 71 e 72 anos respetivamente. Neste âmbito tenta-se dar resposta às seguintes questões: (i) Como é que a Maria e o Manuel percecionam a sua sexualidade? (ii) Como a vivenciam? (iii) Quais os fatores que interferem na vivência da sua sexualidade?. Para aceder à informação recorreu-se a diversos instrumentos, tais como: entrevistas exploratórias, conversas informais e diário de campo. Relativamente à apresentação dos resultados e análise dos mesmos procedeu-se a uma análise de conteúdo das entrevistas, tendo em conta as 5 dimensões da sexualidade, biológica, psicológica, sensual, erótica e cultural, à elaboração de quadros cronológicos de eventos e respetivos biogramas, individuais e outro em que se apresentam uma simultaneidade de eventos entre os biogramas dos dois casos, e narrativas biográficas. Particularmente, neste estudo de investigação destacam-se os biogramas (Tinoco & Pinto, 2001; Sá & Almeida, 2004), por constituírem uma representação visual dos diversos eventos ocorridos ao longo da vida da Maria e do Manuel, e por se apresentarem como instrumentos de excelência para mapear as suas trajetórias de vida. Um dos eventos comum a ambos os casos corresponde à intimidade entre ambos. Independentemente dos dois possuírem condicionantes físicos e biológicos, fibromialgia, no caso da Maria, e disfunção erétil, no caso do Manuel, que lhes impedem de usufruírem de uma relação sexual, ambos reconstruiram a sua sexualidade. O facto de recorrem à masturbação mútua como forma de colmatar a ausência de relação coital é um sinal revelador não só de à-vontade um para com o outro, mas também de não quererem comprometer a realização e necessidade fisiológica de cada um. A Maria e o Manuel trazem até nós a visão que é possível repensar e redescobrir a sexualidade na “idade madura”, mesmo quando existem limitações como as decorrentes do aparecimento da fibromialgia e da disfunção erétil.

SOFRIMENTO NA DOENÇA CRÓNICA – REVISÃO DA LITERATURA

Susana Batista; Rosa Martins. Email: supais@hotmail.com

Introdução: De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, estima-se que até ao ano de 2050, o número de idosos irá quadruplicar, tal como a necessidade de prestação de cuidados a longo prazo. Podemos prever assim uma maior afluência de população idosa aos hospitais portugueses portadores de doença crónica, o que nos traz novos desafios. No contexto de doença crónica, parece-nos consensual afirmar que o sofrimento é uma realidade vivida e compete ao enfermeiro facilitar a adaptação do doente e família à nova condição. Que formas de sofrimento são experienciadas pelas pessoas portadoras de patologia crónica?
Objetivo: Conhecer os resultados dos estudos que foram produzidos nos últimos 5 anos sobre a temática do sofrimento e a ajuda prestada pelos Enfermeiros.
Material e métodos: Para a concretização do nosso objetivo efetuámos uma revisão da literatura em bases dados referenciais. Os artigos foram analisados tendo em conta os objetivos, participantes, momentos de recolha de dados, instrumentos utilizados, resultados obtidos considerando as variáveis que possam integrar a vivência do sofrimento na doença crónica.
Resultados: Observou-se no que se reporta ao sofrimento na doença crónica, uma produção limitada, tendo sido analisados 11 artigos de periódicos e dissertações de mestrado em língua portuguesa 5 artigos de periódicos internacionais em língua inglesa. As metodologias utilizadas são do tipo qualitativo e quantitativo.
Conclusão: Os resultados dos estudos incluídos abordam a temática do sofrimento em várias perspetivas: sofrimento físico relacionado com a dimensão biológica da doença; sofrimento psicológico que se confronta com as possibilidades de cura; sofrimento sócio relacional manifestado essencialmente pela ausência de apoio familiar/social, problemas económicos e solidão; sofrimento existencial com a procura de sentido de vida, espiritualidade e prática religiosa; experiências positivas de sofrimento; estratégias de adaptação e expectativas futuras. Mostram ainda que a ajuda dos Enfermeiros é fundamental uma vez que a doença crónica implica mudança de estilo de vida que pode conduzir a uma luta interior silenciosa. É necessário que a intervenção de enfermagem vá ao encontro das necessidades espirituais de modo a facilitar a procura de equilíbrio e significado de experiências de vida, no entanto é identificada falta de investimento nesta área. É também salientada a necessidade de cuidar com compaixão e de integrar os cuidados paliativos no cuidado ao idoso com doença crónica com vista na melhoria da sua qualidade de vida. Em conclusão, torna-se fundamental para a prática de enfermagem a compreensão desta problemática uma vez que pode permitir potenciar ganhos em saúde, garantindo à pessoa com doença crónica um processo de transição saudável.

SOFRIMENTO NA DOENÇA CRÓNICA – REVISÃO DA LITERATURA

Susana Batista; Rosa Martins. Email: supais@hotmail.com

Introdução: De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, estima-se que até ao ano de 2050, o número de idosos irá quadruplicar, tal como a necessidade de prestação de cuidados a longo prazo. Podemos prever assim uma maior afluência de população idosa aos hospitais portugueses portadores de doença crónica, o que nos traz novos desafios. No contexto de doença crónica, parece-nos consensual afirmar que o sofrimento é uma realidade vivida e compete ao enfermeiro facilitar a adaptação do doente e família à nova condição. Que formas de sofrimento são experienciadas pelas pessoas portadoras de patologia crónica?
Objetivo: Conhecer os resultados dos estudos que foram produzidos nos últimos 5 anos sobre a temática do sofrimento e a ajuda prestada pelos Enfermeiros.
Material e métodos: Para a concretização do nosso objetivo efetuámos uma revisão da literatura em bases dados referenciais. Os artigos foram analisados tendo em conta os objetivos, participantes, momentos de recolha de dados, instrumentos utilizados, resultados obtidos considerando as variáveis que possam integrar a vivência do sofrimento na doença crónica.
Resultados: Observou-se no que se reporta ao sofrimento na doença crónica, uma produção limitada, tendo sido analisados 11 artigos de periódicos e dissertações de mestrado em língua portuguesa 5 artigos de periódicos internacionais em língua inglesa. As metodologias utilizadas são do tipo qualitativo e quantitativo.
Conclusão: Os resultados dos estudos incluídos abordam a temática do sofrimento em várias perspetivas: sofrimento físico relacionado com a dimensão biológica da doença; sofrimento psicológico que se confronta com as possibilidades de cura; sofrimento sócio relacional manifestado essencialmente pela ausência de apoio familiar/social, problemas económicos e solidão; sofrimento existencial com a procura de sentido de vida, espiritualidade e prática religiosa; experiências positivas de sofrimento; estratégias de adaptação e expectativas futuras. Mostram ainda que a ajuda dos Enfermeiros é fundamental uma vez que a doença crónica implica mudança de estilo de vida que pode conduzir a uma luta interior silenciosa. É necessário que a intervenção de enfermagem vá ao encontro das necessidades espirituais de modo a facilitar a procura de equilíbrio e significado de experiências de vida, no entanto é identificada falta de investimento nesta área. É também salientada a necessidade de cuidar com compaixão e de integrar os cuidados paliativos no cuidado ao idoso com doença crónica com vista na melhoria da sua qualidade de vida. Em conclusão, torna-se fundamental para a prática de enfermagem a compreensão desta problemática uma vez que pode permitir potenciar ganhos em saúde, garantindo à pessoa com doença crónica um processo de transição saudável.

UMA VIDA, MUITAS VOLTAS, MUITAS HISTÓRIAS: OS SABERES DA PESSOA IDOSA NA PROMOÇÃO DO SEU BEM ESTAR E DA LITERACIA CIENTÍFICA DAS CRIANÇAS

Dolores Estrela Alveirinho, Helena Margarida Tomás, Margarida Afonso, Paula Esteves e Raquel Correia. Email: helenatomas@ipcb.pt

OBJETIVO: Defendendo-se a ideia de que “Nunca é tarde para aprender, nunca é tarde para ensinar” pretende-se com esta comunicação dar a conhecer e analisar o impacto de uma prática educativa desenvolvida a partir dos saberes de pessoas idosas no âmbito das atividades do Ciência, Tradição e Cultura – Centro de Recursos de Ideias e Materiais da Escola Superior de Educação de Castelo Branco (CT&C do IPCB/ESE).
METODOLOGIA: Predominantemente qualitativa, decorreu em duas fases: 1ª) Recolha de histórias de vida de pessoas idosas, por um estudante do curso de Serviço Social; 2ª) Planificação de ateliês com base na informação recolhida sobre tradições e sua implementação com crianças, por estudantes do curso de Educação Básica, para exploração científica dessas tradições.
Foram selecionadas 6 pessoas idosas do género feminino, institucionalizadas e provenientes do meio rural, cujas histórias de vida, recolhidas ao longo de 3 entrevistas, revelaram aspetos profissionais ligados a tradições que foram objeto de análise de conteúdo. A avaliação dos ateliês implementados foi realizada através de dados recolhidos da análise de conteúdo de desenhos e de grelhas de observação das crianças e das reflexões dos estudantes.
Participaram cerca de 120 crianças do pré-escolar e do 1º CEB, 1 futuro assistente social e 12 futuros educadores de infância/professores.
RESULTADOS: O trabalho de reminiscência permitiu às pessoas idosas reativar episódios do passado pessoal, relembrando conhecimentos e vivências ligados às tradições, e contribuiu para as ajudar a manter a sua própria identidade e aumentar a sua autoestima. Quanto às crianças, à futura assistente social e aos futuros educadores de infância/professores o ganho foi também muito positivo. Ficaram a conhecer mais e melhor sobre saberes ancestrais, os quais contribuem de forma muito determinante para a preservação e valorização da sua identidade cultural. Ao CT&C coube o papel de “movimentar a engrenagem” entre os saberes dos seniores, as práticas dos estudantes e o fazer ciência com crianças.
CONCLUSÃO: A prática, desenvolvida a partir do reconhecimento do importante papel educativo que as narrativas de pessoas idosas têm, permitiu a aproximação de gerações e o estabelecimento de um diálogo entre os saberes das pessoas idosas e os da escola, contribuindo para promover o bem-estar das pessoas idosas, a literacia científica das crianças e o desenvolvimento de boas práticas dos futuros profissionais, numa lógica de efetiva complementaridade.

UNIDADE ORTOPEDIA GERIÁTRICA

Carlos José Martinez evangelista. Email: ce.cortopedica@gmail.com

Sumário Executivo: O autor apresenta o seu trabalho nos últimos 4 anos relativo à 1 unidade de ortopedia geriatrica em Portugal no Hospital de Santana, onde se privilegia a qualidade de bem servir quem de nós precisa, falamos dos doentes de grande idade, seniores, que com um projecto multidisciplinar, lhes permite reintegrar a sociedade depois de um acidente , queda , do qual resultou uma fractura , e que a decisão terapêutica foi e é fundamental para a sua reinserção social. Plena de valores , plena de funcionalidade e de apoio ao grupo familiar. Assim uma fractura do colo fémur não implica , degradação, letargia,internamento num lar. Uma fractura pode ser o continuar de vida com mais querer, com mais bem estar. Tudo depende da decisão e da equipa ,que vocacionada para o efeito, presta cuidados muitidisciplinares e de primeira linha.
O projecto sendo inédito, merecia divulgação e alargamento a todas as unidades hospitalares.

O TOQUE

Maria Aucineia Ferreira. Email: mariaaucineia@gmail.com

Quero em primeiro lugar agradecer esta oportunidade para transmitir as minhas ideias e experiências de vida com os mais idosos.
Iniciei minha carreira profissional através da licenciatura em Educação Física e, posteriormente, a especialização em Gerontologia-Clínica, Saúde Mental, Aperfeiçoamento em Atividade Física para Pessoas Especiais e atualmente Cuidados Paliativos.
Ao longo deste percurso, a partir do meu trabalho de voluntariado e estágio com pessoas na faixa etária acima dos 75 anos, aprimorei meus conhecimentos e enriqueci minha condição humana, pois aprendi muito com os idosos.
Percebi nessas pessoas – que na sua maioria vivem sozinhas – que carregam consigo uma vida cheia de histórias, cheia de silêncio, onde o passado não é notado e a sua imagem é ignorada… Acabam por se tornar frios por querer ser ouvidos e não ter com quem falar…
Existe na sociedade um sentimento de incapacidade de resposta e simplesmente um não saber “estar” com eles, fazer-se presente por alguns instantes, por alguns momentos preciosos.
A minha resposta a este dilema é simples: AMAR! Simplesmente amar…
Ao longo dos anos estudei o Envelhecimento desde o nascer até o processo da Retrogénese, mas na maioria das vezes esta intervenção destinava-se a população da 3ª idade, esquecendo-se dos mais necessitados, aqueles que valentemente passaram dos 75, 80 anos.
A partir daí passei a dedicar o meu trabalho e coração a estas pessoas e espero poder passar um bom exemplo para que os mais jovens e adultos, nas suas diferentes áreas profissionais ou de interesse possam também contribuir com o que sabem, porque para fazer um idoso feliz, não é preciso palavras; basta um pequeno “TOQUE” que o fará sentir o calor do seu amor através da sua pele.
Certa vez, numa instituição na região de Oeiras, havia um idoso cadeirante que já não falava e não tinha mais vontade de viver. Estava constantemente de cabeça inclinada a pensar… em “nada”? Fui ao encontro dele e toquei o seu rosto com o dorso das minhas mãos. Ele levantou a cabeça muito lentamente, olhou para mim e sorriu com os olhos cheios de lágrimas…
O que importa é a nossa persistência em buscar dia melhor para aquele que esta distante. Aprendendo com a dor e com as lágrimas, aprendemos a felicidade, pois são elas que fortalecem nosso espírito e nos mostram o quanto sorrir e viver em paz é importante.
No fundo, toda a sociedade pode ajudar mais os idosos, com um simples “TOQUE”, é capaz de transmitir carinho, dedicação e amor pelo outro.

ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL E DOENÇA ISQUÉMICA CARDÍACA NO CONTEXTO DO ENVELHECIMENTO
Matilde Rosa; Paulo Nogueira; Andreia Costa matilderosa@dgs.pt; paulo.nogueira@dgs.pt; andreiasilva@dgs.pt

DOENÇAS RESPIRATÓRIAS NO CONTEXTO DO ENVELHECIMENTO
Matilde Rosa; Andreia Costa; Cristina Bárbara; Elisabete Gomes; Paulo Nogueira. matilderosa@dgs.pt; paulo.nogueira@dgs.pt; andreiasilva@dgs.pt

TERAPIA VIRTUAL PARA TRATAMENTO DE NOMEAÇÃO DE PALAVRAS
Alberto Abad; AnnaPompili; Pedro Fialho; Isabel Trancoso. alberto.abad@l2f.inesc-id.pt

QUALIDADE DE VIDA E (IN)CAPACIDADE FUNCIONAL DE ADULTOS IDOSOS PORTUGUESES
Catarina Isabel Mendes Portela cimportela@gmail.com

ESTADO NUTRICIONAL E AVALIAÇÃO GERIÁTRICA GLOBAL INTEGRADA

Marisa Cebola; Amália Botelho marisa.cebola@estesl.ipl.pt

A (IN)CAPACIDADE DOS IDOSOS PARA GERIR A SUA MEDICAÇÃO
Ana Margarida Advinha; Manuel José Lopes; Sofia de Oliveira Martins ana.advinha@gmail.com

Terapia Virtual para Tratamento de Nomeação de Palavras

Alberto Abad, Anna Pompili, Pedro Fialho e Isabel Trancoso L2F – Laboratório de sistemas de Língua Falada, INESC-ID Lisboa Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa
José Fonseca, Gabriela Leal, Luisa Farrajota e Isabel Pavão Martins Laboratório de Estudos de Linguagem, Fac. de Medicina da Univ. Lisboa

A afasia é uma perturbação de linguagem resultante de uma lesão cerebral que compromete vários aspectos da comunicação, nomeadamente a expressão oral, a compreensão de linguagem, a leitura e a escrita. Uma das causas mais frequentes são os Acidentes Vasculares Cerebrais que atingem predominantemente idosos com mais de 65 anos, sendo que apenas um terço dos episódios ocorre antes dos 55 anos. De facto, o número de pessoas que sofrem acidentes vasculares cerebrais aumentou nas últimas décadas, estimando que em cada ano existam na EU 500.000 novos casos e 100.000 recorrências, das quais um terço apresentam alterações de linguagem. Um sintoma comum aos vários tipos de afasia é a dificuldade dos pacientes em se recordarem do nome dos objectos ou acções, apesar de saberem o que são e para que servem. Normalmente, a recuperação pode ser feita através de terapia da fala, fazendo exercícios de nomeação. No entanto, a frequência e a intensidade da terapia são factores chave na recuperação das funcionalidades de comunicação. O desenvolvimento de métodos automáticos de terapia surge assim como resposta a este problema, no qual as tecnologias da língua podem desempenhar um papel fundamental.
A VITHEA é uma plataforma on-line projectada para agir como um “terapeuta virtual” para o tratamento de pacientes afásicos. Concretamente, o sistema integra a tecnologia de reconhecimento automático de fala para proporcionar exercícios de nomeação para pacientes cuja capacidade de nomeação se perdeu ou ficou bastante reduzida. A solução adoptada é baseada numa abordagem que detecta a palavra-chave, de modo a validar a correcção do que foi dito pelo paciente. O programa fornece um feedback tanto escrito como oral, através de mensagens de voz produzidas por um agente animado usando um sintetizador de fala. A aplicação permite a fácil adição de novos exercícios de terapia, e fornece ferramentas para os terapeutas monitorizarem remotamente a recuperação dos pacientes. Esta flexibilidade permite a adaptação dos exercícios a vários perfis de pacientes, de forma a aumentar a sua motivação.
A plataforma VITHEA é o resultado do esforço conjunto do Laboratório de sistemas de Língua Falada do INESC-ID (L2F) e do Laboratório de Estudos de Linguagem da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (LEL), no contexto das actividades de um projecto financiado pela FCT, concluído no início de 2013. A expansão para plataformas móveis (Android) e para adaptar a outras doenças que afectam os idosos é um dos objectivos desta equipa multidisciplinar em futuros projectos. Mais informações estão disponíveis em http://www.vithea.org.

Qualidade de Vida e (In)Capacidade Funcional de Adultos Idosos Portugueses

Catarina Isabel Mendes Portela
Resumo: O presente estudo teve como principal objectivo a determinação das relações existentes entre a qualidade de vida (QdV) e a (in)capacidade funcional, numa amostra de adultos idosos portugueses (N = 51). Adicionalmente, pretendeu-se analisar o impacto de outras variáveis na QdV e na funcionalidade dos sujeitos idosos, tais como a situação de vida, o funcionamento cognitivo, a sintomatologia depressiva, a percepção subjectiva de saúde e a idade. Os resultados desta investigação confirmaram a relação entre QdV e funcionalidade, sendo estatisticamente significativa a relação entre a faceta Participação Social do WHOQOL-OLD e o resultado global do IAFAI; assim como na faceta Autonomia, a qual manifestou alguma relação com a capacidade funcional, apesar de não ser significativa. Deste modo, concluímos que uma capacidade funcional comprometida manifesta-se negativamente na QdV, através do impacto na capacidade dos sujeitos para participarem em actividades de vida diária (AVD), especialmente na comunidade (Participação Social) e, também, de viverem de forma autónoma e tomarem decisões (Autonomia). Ainda, o presente estudo permitiu constatar que: a situação de vida permite diferenciar os sujeitos, em termos de QdV e de capacidade funcional (com os sujeitos institucionalizados a apresentar menor qualidade de vida e maior comprometimento da funcionalidade, comparativamente aos da comunidade); a presença de sintomatologia depressiva, um funcionamento cognitivo empobrecido e a percepção subjectiva de saúde (dimensão Doente), estão associados a uma capacidade funcional comprometida; por fim, não se observou um maior comprometimento funcional significativo associado ao avançar da idade, ao contrário do que é observado na literatura.
Palavras – chave: Qualidade de vida, adultos idosos, (in)capacidade funcional.

Abstract: The main aim of this study was to determine the relation between quality of life (QoL) and functional (in)capacity in a sample of old adults (N = 51). Additionally, it was intended to define the impact of other variables in QoL and functionality of old adults, such as situation of life, cognitive functioning, depressive symptomatology, subjective perception of health and age. The results of this investigation confirm the relation between QoL and functionality, namely, with a statistically significative correlation between the WHOQOL-OLD’s Social Participation facet and the global result in IAFAI, with a statistically significant correlation; as well as on the facet Autonomy, which manifested some relation with functional capacity, even though it was not significant. Thus, we deduce that an impaired functional capacity manifests in a negative way in QoL, through the impact on the subjects’ capacity to participate in activities of daily living (ADL), especially in community (Social Participation) as well as through their capacity to live in a autonomous way and taking decisions (Autonomy). Further, this study enabled to explore that: the situation of life variable differentiated subjects in terms of QoL and functional capacity (with institutionalizated ones presenting lower QoL and lower functional capacity); depressive symptomatology, poor cognitive functioning and subjective perception of health (dimension Ill) are associated with disability; lastly, we perceived that functionality does not decrease significantly with aging, contrary to what is reported in the literature.
Key Words: Quality of life, elderly, functional (in)capacity.

Estado Nutricional e Avaliação Geriátrica Global Integrada – uma abordagem de deteção de vulnerabilidade na pessoa idosa

Marisa Baeta Cebola1, Amália Botelho2
1
2
– Faculdade de Ciências Médicas – Área de Ensino e Investigação de Medicina Clínica – Universidade Nova de Lisboa
Correspondência: Marisa Cebola –– Av. D. João II Lote 4.69.01, 1990-096 Lisboa –
marisa.cebola@estesl.ipl.pt
O processo de senescência, origina alterações a nível dos sistemas e órgãos, nomeadamente, sistema visual, sensorial,1 gastrointestinal2 e musculo esquelético que condicionam não só a selecção e preparação dos alimentos, bem como paladar, digestão e absorção, e aquisição dos alimentos, contribuindo para a prática de um padrão alimentar monótono e aporte desequilibrado de nutrientes fundamentais ao organismo.
O processo de senescência deve ser encarado como uma síndrome geriátrico, em que há diminuição da massa isenta de gordura – sarcopénia3 e aumento da massa gorda – sarcobesidade,4 nas quais o papel da dietética e nutrição é fundamental. A perda progressiva da massa magra corporal, da função muscular5 e redução da densidade óssea,6,7 é responsável, entre outras, pelo aumento de quedas8 enquanto que o aumento e redistribuição de massa gorda, predispõe para o aumento do risco de desenvolvimento ou agravamento de doenças crónicas, nomeadamente hipertensão arterial doença cardio e cerebrovascular, diabetes mellitus e hiperlipidémias.9
Os profissionais de saúde não estão ainda devidamente alertados para a deteção atempada de situações de risco nutricional/desnutrição na pessoa idosa e para o síndrome geriátrico, sendo imprescindível criar estratégias para a diminuição da prevalência da desnutrição a nível das instituições e promoção da avaliação geriátrica global integrada.
Desde 2005 que a European Nutrition for Health Alliance (ENHA)10 adverte que a desnutrição na pessoa idosa é considerada um problema de saúde pública, que permanece em grande parte por diagnosticar e por tratar. Está descrito que a sua
– Área Científica de Dietética – Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa

prevalência ronda os 40% a nível de instituições hospitalares, 40% em unidades residenciais e cerca de 5 a 10% na pessoa idosa que reside no próprio domicílio ou com os familiares.11,12 A desnutrição, quando associada a situações de doença é frequentemente responsabilizada pelo aumento da morbilidade, aumento dos gastos em saúde, diminuição da qualidade de vida e aumento da mortalidade na população em geral e com maior relevância na população idosa.13 As situações de desnutrição na pessoa idosa, podem ser responsáveis por alterações a nível da composição corporal e da função, nomeadamente: 1) perda ponderal; 2) diminuição da massa magra com consequente deterioração da função respiratória e aumento do risco de desenvolvimento de infeções respiratórias, aumento de quedas; 3) alteração da função cardíaca; 4) diminuição da resposta imunitária, com aumento da prevalência de infeção; 5) diminuição do poder de cicatrização, com consequente aumento do risco de desenvolvimento de úlceras de pressão; 6) sensação de cansaço generalizado, com diminuição do apetite; alterações psicossociais, que podem conduzir a estados de depressão e de isolamento social.14-19 Podem também estar na origem do aumento da necessidade de cuidados de saúde e sociais, e pela diminuição dos resultados clínicos espetáveis, com consequente aumento do tempo de internamento e da mortalidade.20,21 Mundialmente, têm sido propostas guidelines para a identificação do risco/ avaliação nutricional, bem como medidas para a sua prevenção e tratamento. A nível europeu a ENHA, está a unir esforços para que sejam implementadas políticas a nível europeu em relação à desnutrição.22 Estas entidades acreditam que uma intervenção nutricional adequada e devidamente planeada deve ser parte integrante das políticas de saúde e da prestação de cuidados de saúde.23
Avaliação Geriátrica Global Integrada, surge como uma forma de responder à necessidade de definição de estratégias com foco na deteção de situações de doença aguda/ crónica mais prevalentes, e deve integrar um conjunto diverso de valências profissionais, com o objetivo de promover a saúde, autonomia, independência e qualidade de vida.24 Constitui desejavelmente uma prática multidimensional, sistemática, de caracterização do estado clínico, nutricional, funcional, qualidade de vida e aspetos sociais, na pessoa idosa.25
A nível internacional, Avaliação Geriátrica Global Integrada não é uma temática nova, ela já foi relatada por vários autores em diversos estudos científicos, reveladores da sua consistência como abordagem estruturada e aplicada, das quais ilustramos alguns dos que são marcantes.
Entre os pioneiros destaca-se Rubenstein e colaboradores, 26 1979, ao publicaram um estudo em que relataram a realidade de uma unidade de avaliação geriátrica de ambulatório, no Sepulveda VA Medical Center em Los Angeles USA. Ao utilizarem
uma abordagem multidisciplinar verificaram que conseguiam detetar atempadamente complicações da doença, administravam menos fármacos, e melhoravam a independência, diminuindo a exigência dos cuidados de saúde. Os autores concluíram sobre a importância da avaliação geriátrica global e apontaram a necessidade da elaboração de mais estudos desta natureza.26
Epstein e colaboradores,27 1987 os resultados de um estudo também pioneiro, efetuado em 104 unidades geriátricas, numa amostra de 542 doentes. Os autores consideraram a abordagem multiprofissional teve um benéfico para os doentes, no entanto, consideraram ser necessário a realização de mais estudos, em que fosse que avaliado o binómio custo-eficácia.28
Stuck e colaboradores,29 1993, publicaram uma meta-análise de 28 estudos com uma amostra total de 4.959 indivíduos. Os autores concluíram que a Avaliação Geriátrica Global Integrada teve um efeito positivo significativo na mortalidade, na autonomia e nas funções física e cognitiva dos indivíduos, realçando-se a sua importância e aplicabilidade.29
Ellis e colaboradores,30 2011 publicaram uma meta-análise de 20 estudos controlados randomizados com um n total de 10.427 idosos hospitalizados, em que ficou demonstrada a vantagem da sua utilização na prática clínica ou em outras unidades próprias para a pessoa idosa. Ficou também patente a noção do benefício em relação à mortalidade a curto prazo e à função física e cognitiva, e evidenciada a sobrevida de média duração e com residência no domicílio. Os autores concluem que, perante a evidência da utilidade destas equipas, o desafio para o futuro será a sua implementação e a publicação de mais estudos sobre a sua eficiência.30
Em Portugal, nas estruturas da Rede Nacional de Cuidados Continuados, é aplicado um instrumento padronizado de avaliação que contempla a Avaliação Geriátrica Global Integrada. A sua utilização na caracterização dos indivíduos em trabalhos de tese de mestrado e doutoramento é uma realidade.31-33 Aguardamos que esta sua aplicação sistemática a nível assistencial, seja alvo de uma análise de natureza investigacional.34 O Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, desenvolveu um documento em que frisa a importância da Avaliação Geriátrica Global, qual a população alvo e quais os instrumentos a serem utilizados para a avaliação das dimensões em que as pessoas idosas tendem a ser deficitárias, nomeadamente a nível físico, mental, funcional e social.35 São eles: Estado Funcional: Actividades Básicas de Vida Diária36 (Escala de Katz) e Atividades Instrumentais de Vida Diária37 (Escala de Lawton & Brody); Marcha: Classificação Funcional da Marcha de Holden;38 Estado Afectivo: Escala de Depressão Geriátrica de Yesavage – versão 15 itens39;
Estado Cognitivo: Mini-Mental State Examination (MMSE) de Folstein;40 Estado Nutricinonal: Mini-Nutritional Assessment.41,42 A primeira Consulta de Geriatria portuguesa a utilizar a avaliação geriátrica global foi da responsabilidade do Professor Doutor Gorjão Clara, em que a sua equipa era constituída por um médico, enfermeiro, psicólogo, dietista/nutricionista, fisioterapeuta, farmacêutico e assistente social, na perspetiva de responder às necessidades dos utentes da área de influência do Centro Hospitalar Lisboa Norte, incluindo a eventualidade de apoio domiciliário.
Em 2013, a Professora Doutora Amália Botelho, introduziu uma unidade curricular opcional na licenciatura em medicina da Faculdade de Ciências Médicas de Universidade Nova de Lisboa, em que delineou o ensino e aprendizagem da Avaliação Geriátrica Global Integrada em pessoas idosas institucionalizadas em unidades hospitalares, cuidados continuados, e lares, bem como a sua aplicabilidade em centros de saúde.
A realidade relatada por todos os profissionais de saúde envolvidos na Avaliação Geriátrica Global Integrada traduz que a sua prática constitui um método eficaz na redução da morbilidade e mortalidade da pessoa idosa. A sua prática é formalmente recomendável, devendo ser aplicada por equipas multiprofissionais, de acordo com a diversidade de competências necessárias e disponíveis.
A nível das unidades hospitalares, cuidados continuados, lares e centros de saúde, recomenda-se que a Avaliação Geriátrica Global Integrada seja protocolada como rotina para a prática assistencial, sob registo único. Esta avaliação deveria ser realizada idealmente na admissão, ou o mais precoce possível (24 horas, 48 horas ou até às 72 horas) uma vez que a precocidade da avaliação e intervenção potencia os resultados favoráveis.10

Referências Bibliográficas
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4Chung JY, Kang HT, Lee DC, Lee HR, Lee YJ. Body composition and its association with cardiometabolic risk factors in the elderly: A focus on sarcopenic obesity Archives of Gerontology and Geriatrics 56 (2013) 270–278.)
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9Hughes VA. Malnutrition and ageing. Postgrad Med J 2006;82:2–8.
10http://www.european-nutrition.org/index.php/malnutrition – acedido a 10 de outubro de 2013.
11Visvanathan R. Under-Nutrition in Older People: A Serious and Growing Global Problem. J Postgrad Med 2003; 49: 352-60.

12Compan B, di Castri A, Plaze JM, Arnaud-Battandier F. Epidemiological study of malnutrition in elderly patients in acute, sub-acute and long-term care using the MNA. J Nutr Health Aging 1999;3:146-51.
13Beck AM, Balkna SUN, Fuerst P, Hasunen K, Jones L, Keller U, Melchior J-C, Mikkelsen BE, Schauder P, Sivonen L, Zinck O, ÒIEN H, Ovesen L. Food and nutritional care in hospitals: how to prevent undernutrition report and guidelines from the Council of Europe. Clinical Nutrition (2001) 20(5): 455±460.
14Kelly IE, Tessier S, Cahill A, Morris SE, Crumley A, MacLaughlin D, Mckee RF, Lean MEJ. Stil Hungry in hospital: Identifying malnutrition in acute hospital admissions. Q J Med 2000; 93:93-98.
15Hrnciarikova D, Juraskova B, Zadak Z, Hronek M. Present State of Evaluating Malnutrition in the Elderly – Analysing Indicators. Biomed Pap Med Fac Univ Palacky Olomouc Czech Repub. 2006, 150(2):217–221.
16Villareal DT, Apovian CM, Kushner RF, Klein S. Obesity in older adults: technical review and position statement of the American Society of Nutrition and NAASO, The Obesity Society. Am J Clin Nutr 2005 Nov; 82:923-34.
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18Elia M. Obesity in the elderly. Obes Res 2001 Nov; 9 Suppl 4: 244S-8S.
19Hughes VA, Frontera WR, Roubeoff R, Evans WJ, Singh MAF. Longitudinal changes in body composition in older men and women: role of body weight change and physical activity. Am J Clin Nutr 2002 Aug; 76:473-81.
20Elia M. Guidelines for detection and manegement of Malnutrition. Malnutrition Advisory Group (MAG), Standing Committee of BAPEN, Maidenhead. 2000.
21Meijers MMJ, Hlfens JGR, Wilson L, Schols MGAJ. Estimating the costs associated with malnutrition in Dutch nursing homes. Am J Clin Nutr. 2012;31:65-68.
22http://www.european-nutrition.org/index.php/about – 24 de novembro de 2013.

23 http://www.european- nutrition.org/images/uploads/Nutrition_is_a_basic_need_flyer.pdf – acedido a 24 novembro de 2012.
24Stuck AE, Siu AL, Wieland GD, Adams J, Rubenstein LZ. Comprehensive geriatric assessment: a meta-analysis of controlled trials. Lancet 1993;342:1032-6.
25Stuck AE, Siu AL, Wieland GD, Adams J, Rubenstein LZ. Comprehensive geriatric assessment: a meta-analysis of controlled trials. Lancet 1993;342:1032-6.
26Rubenstein LZ, Abrass IB, Kane RL. Improved care for patients on a new geriatric evaluation unit. J Am Geriatric Soc 1981. 29(11):531-6.
27Epstein AM, Hall JA, Besdine R, et al. The emergence of geriatric assessment units. The “new technology of geriatrics”. Ann Intern Med 1987, 106:299-303.
28Epstein AM, Hall JA, Besdine R, et al. The emergence of geriatric assessment units. The “new technology of geriatrics”. Ann Intern Med 1987, 106:299-303.
29Stuck AE, Siu AL, Wieland GD, Adams J, Rubenstein LZ. Comprehensive geriatric assessment: a meta-analysis of controlled trials. Lancet 1993;342:1032-6.
30Ellis G, Whitehead MA, Robinson D, O’Neill D, Langhorne P. Comprehensive geriatric assessment for older adults admitted to hospital: meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ 2011;343:d6553.
31Henriques A. Adesão ao regime medicamentoso em idosos na comunidade. Eficácia das intervenções de enfermagem. Curso doutoral de Enfermagem, Universidade de Lisboa, Julho 2011.
32Costa, A. A família cuidadora perante a dependência do seu familiar idoso. Mestrado em Saúde e Envelhecimento, Setembro de 2012.
33Fontes AP. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, um Modelo Multidimensional e Multideterminado da Funcionalidade em Idosos Assistidos na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados. Tese de doutoramento, no 3o ano de trabalhos, Faculdade de Ciências Médicas.
34Botelho A. (2011) Fernandes L, Pereira MG, Pinto LC, Firmino H, Leuschner A. (Eds.) Jornadas de Gerontopsiquiatria. “Método de Avaliação Biopsicossocial – um instrumento de deteção em saúde”. 1aEdição. Pp. 87-89. Águeda. Editora Associação de Psico Geriatria.
35 http://www.spmi.pt/docs_nucleos/GERMI_36.pdf – acedido 24 de novembro de 2013.
36Katz S, Ford AB, Moskowitz RW, et al. Studies of illness in the aged. The index of ADL A standardized measure of biological and psychosocial function. JAMA 1963, 185:914-9.
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39Yesavage JA, Sheikh JI. Geriatric Depression Scale (GDS): Recent evidence and development of a shorter version. Clinical Gerontologist 1986, 5:165-73.
40Folstein MF, Folstein SE, McHugh PR. Mini-mental state. A practical method for grading the cognitive state of patients for the clinician. Journal of psychiatric research. 1975, 12:189–98.
41Rubenstein LZ, Harker JO, Salva A, et al. Screening for Undernutrition in Geriatric Practice: Developing the Short-Form Mini Nutritional Assessment (MNA®-SF). J. Geront 2001, 56:M366-72.
42Kaiser MJ, Bauer JM, Ramsch C, et al. Validation of the Mini Nutritional Assessment Short-Form (MNA®-SF): A practical tool for identification of nutritional status. J Nutr Health Aging 2009, 13:782-8.

Doenças Respiratórias no contexto do Envelhecimento

Matilde Rosa; Andreia Costa; Cristina Bárbara; Elisabete Gomes; Paulo Nogueira

Introdução
Vivemos actualmente, em média, mais tempo que os nossos avós, mas também há cada vez menos nascimentos. Daqui resulta o envelhecimento da população. O envelhecimento da população é já uma tendência de dimensão mundial, embora seja na Europa que se localiza a maior parte das populações mais envelhecidas do mundo. A este respeito, Portugal não é, assim, um país original, embora tenha envelhecido com uma rapidez assinalável. É certo que, pelo menos a médio prazo, a população de Portugal continuará a envelhecer, o que aliás por si, pode ser entendido como uma tendência desejável, pois os factores que estão na origem deste processo estão ligados, no essencial, a progressos significativos nas condições de vida e saúde da população. Contudo, socialmente, o envelhecimento lança também desafios novos. Entre estes está o aumento de patologias de algum modo associadas à idade, como as doenças respiratórias, muitas destas também agravadas por hábitos e estilos de vida das sociedades modernas, como o stresse, o tabagismo, sedentarismo ou até a poluição ambiental.
São inúmeros os estudos que vão de encontro à temática envelhecimento. Mas são menos aqueles que focam o sector idoso na área das doenças respiratórias. O estudo das doenças respiratórias é essencial uma vez que Portugal está a confrontar-se, nos últimos anos, com um aumento do número destas doenças, situação que impõe uma necessidade crescente de cuidados. Não só o seu crescente número é preocupante como a respectiva mortalidade também o é, pois estas doenças constituem a terceira principal causa de morte em Portugal. No que diz respeito à mortalidade hospitalar, estas doenças ocupam o primeiro lugar.
Atendendo a que um grande número de doenças respiratórias se relaciona com o envelhecimento da população é expectável que o número de pessoas com doença respiratória venha a aumentar impondo ao sistema de saúde uma necessidade crescente de cuidados respiratórios. Uma análise geral da morbilidade hospitalar revela que as doenças Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC), pneumonias bacterianas e fibrose pulmonar merecem especial destaque para análise, sobretudo a nível do grupo etário idoso, devido ao seu número elevado de casos.

Material e Métodos

Neste artigo, foram analisados tanto a mortalidade como os padrões de morbilidade associados a certas doenças respiratórias, dada a importância do estudo de ambos no contexto do envelhecimento. Relativamente à mortalidade, a informação é proveniente do Instituto Nacional de Estatística (INE). Relativamente à morbilidade, os apuramentos para estas estatísticas são obtidos a partir da base de dados dos Grupos de Diagnóstico Homogéneos (GDH). Esta base de dados é anualmente posta à disposição da Direcção-Geral da Saúde (DGS) pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Os GDH são um sistema de classificação de doentes, onde o conjunto de bens e serviços que cada doente recebe, em função da sua patologia, é registado. Esta base de dados agrupa as patologias de acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS). Assim, a classificação dos diagnósticos é feita tanto com base nos Grande Grupos da Classificação Internacional de Doenças- 9a Revisão-Modificação Clínica (CID 9 MC) como com base nas Grandes Categorias de Diagnóstico (GCD). É importante notar que a base de dados usada é referente apenas a episódios ocorridos nos hospitais do Sistema Nacional de Saúde (SNS) de Portugal Continental, pelo que as conclusões tiradas não devem ser generalizadas a todos os doentes nacionais. Refere-se, para este trabalho, a publicação da DGS “Portugal – Doenças Respiratórias em números – 2013”, de onde foram extraídos os dados e algumas reflexões. Neste trabalho, analisou-se retrospectivamente a morbilidade de certas doenças respiratórias, em Portugal Continental, entre 2007 e 2011. Em particular, foi dado ênfase às doenças DPOC, pneumonias bacterianas e fibrose pulmonar, devido ao seu número elevado de casos, sobretudo a nível do grupo etário idoso.
Os indicadores considerados relevantes para este estudo foram a Taxa de Mortalidade Padronizada, o número de utentes saídos e o número de óbitos, por região e grupo etário, com especial foco no grupo etário dos 65 ou mais anos. As respectivas percentagens, de utentes saídos ou óbitos pertencentes ao grupo etário 65 ou mais anos no total dos grupos etários, também foram calculadas. Os indicadores acima referidos referem-se apenas a diagnósticos principais.
Todos os cálculos presentes foram realizados utilizando o software estatístico R e a folha de cálculo do Microsoft Excel. No que diz respeito à codificação utilizada, as causas de morte são codificadas segundo a Classificação Internacional de Doenças CID10MC enquanto a morbilidade hospitalar é codificada com base na CID9MC. Em particular, os códigos utilizados para a DPOC foram 491.2 a 492.8 e 496 (CID9MC); para a fibrose pulmonar foram J60-J70; J84.1; J84.8; J84.9 (CID10MC) e 495, 500 a 508 e 515 a 516 (CID9MC); para a pneumonia foram J12-J18 (CID10MC); para as pneumonias bacterianas foram 481 a 486 e 513.0 (CID9MC).
Resultados
Relativamente à fibrose pulmonar, a sua Taxa de Mortalidade Padronizada (TMP) por 100 000 habitantes, para o grupo etário dos 65 e mais anos, aumentou consideravelmente de 25,9, em 2007, para 30,2, em 2010. Estes números merecem especial atenção sobretudo quando se olha para a Taxa de Mortalidade Padronizada total: que se situa nos 4 por 100 000 habitantes. Analisando a morbilidade hospitalar, destaca-se um número de utentes saídos por fibrose pulmonar, pertencente ao grupo etário dos 65 ou mais anos, a aumentar de 2007 para 2011. Relativamente a este grupo etário, verificou-se um aumento de 1492, em 2007, para 2465 utentes saídos, em 2011, o que corresponde a 72% e 77% do total de utentes saídos por fibrose pulmonar, respectivamente. O número de óbitos de utentes com 65 ou mais anos também aumentou consideravelmente neste intervalo temporal, de 499, em 2007, para 869, em 2011, correspondendo a 88% e 90% do total de óbitos por fibrose pulmonar. Estes valores, tanto relativamente aos utentes saídos como aos respectivos óbitos, são mais elevados no grupo etário dos 80 ou mais anos do que no dos 65 aos 79 anos. É aqui notório o peso que o envelhecimento tem na morbilidade hospitalar da fibrose pulmonar, pelo que a análise, relativamente ao grupo etário mais idoso, da sua evolução temporal assim como das suas desigualdades inerentes, não só mas também a nível regional, é de extrema importância. A nível regional, os utentes saídos por fibrose pulmonar com 65 ou mais anos são mais comuns na Região de Saúde do Norte, seguindo-se Lisboa e Vale do Tejo. No total dos 5 anos considerados neste trabalho, a região do Norte apresenta aproximadamente 35% do total do Continente, no que se refere a utentes saídos por fibrose pulmonar com 65 ou mais anos. As correspondentes percentagens são 34% para Lisboa e Vale do Tejo, 24% para o Centro, sendo o restante distribuído pelas regiões Alentejo e Algarve.
No que diz respeito à DPOC, observa-se um número de utentes saídos, pertencente ao grupo etário dos 65 ou mais anos, que diminuiu de 2007 para 2011. Relativamente a este grupo etário, verificou-se uma diminuição de 7112, em 2007, para 6687 utentes saídos, em 2011, o que corresponde a 80% e 78% do total de utentes saídos por DPOC, respectivamente. O número de óbitos dos utentes mais idosos aumentou de 2007 a 2009 (de 578 para 643, respectivamente) sendo que começou a diminuir a partir deste ano, atingindo os 549 óbitos em 2011. Comparando-se os sub-grupos etários dentro do grupo dos 65 ou mais anos, pode ver-se que o grupo dos 65 aos 79 anos apresenta mais utentes saídos por DPOC que o dos 80 ou mais anos. Este facto inverte-se quando se fala do indicador óbitos. A nível regional, tanto os utentes saídos por DPOC com 65 ou mais anos como os correspondentes óbitos são mais comuns na Região de Saúde Norte, seguindo-se Lisboa e Vale do Tejo. Entre 2007 e 2011, a região do Norte apresenta aproximadamente 38% do total do Continente, no que se refere a utentes saídos por DPOC com 65 ou mais anos. As correspondentes percentagens são 30% para Lisboa e Vale do Tejo, 26% para o Centro, sendo o restante distribuído pelas regiões Alentejo e Algarve. Relativamente à pneumonia, a sua Taxa de Mortalidade Padronizada (TMP) por 100 000 habitantes, para o grupo etário dos 65 e mais anos, é extremamente elevada apesar de ter diminuído entre 2009 e 2010 (de 202,4 para 192,9, respectivamente). Estes números revelam- se preocupantes sobretudo quando se olha para a Taxa de Mortalidade Padronizada total: entre os 23,5 e os 25,5 por 100 000 habitantes.
. Analisando a morbilidade hospitalar, verifica- se que as pneumonias bacterianas são mais comuns do que as virais no que diz respeito ao grupo etário mais idoso. Assim, só este tipo de pneumonias é merecedor de destaque no contexto da análise da morbilidade hospitalar, em particular no contexto do envelhecimento. Esta doença apresenta valores consideravelmente mais elevados que as outras consideradas neste trabalho. E, preocupantemente, estes valores, relativos a utentes com 65 ou mais anos, aumentaram consideravelmente de 2007 a 2011: passando 25140 utentes para 31935. Estes valores correspondem a aproximadamente 69% e 74% do total de utentes saídos por pneumonias bacterianas, respectivamente. Paralelamente, o número de óbitos relativos a utentes com 65 ou mais anos também aumentou neste intervalo temporal, de 6192, em 2007, para 7833, em 2011. Estes valores, tanto relativamente aos utentes saídos como aos respectivos óbitos, são mais elevados no grupo etário dos 80 ou mais anos do que no dos 65 aos 79 anos. Mais uma vez se nota o peso que o envelhecimento tem na morbilidade hospitalar das doenças respiratórias, em particular na de pneumonias bacterianas. A nível regional, ao contrário do verificado para as doenças anteriormente descritas, tanto os utentes saídos com 65 ou mais anos como os correspondentes óbitos são mais comuns na Região de Saúde Lisboa e Vale do Tejo, seguindo-se a Região de Saúde do Norte. Entre 2007 e 2011, a região Lisboa e Vale do Tejo apresenta uma percentagem de utentes saídos (com 65 ou mais anos por pneumonias bacterianas) em relação ao total do continente de 34%. As correspondentes percentagens são 30% para o Norte, 29% para o Centro, sendo o restante distribuído pelas regiões Alentejo e Algarve.

Conclusões
O trabalho apresentado permite caracterizar a patologia respiratória a par com o aumento do número de pessoas com 65 ou mais anos, em particular de 80 ou mais anos, que se tem verificado em Portugal. Paralelamente, no nosso país, a mortalidade por doenças respiratórias constitui a terceira principal causa de morte, não evidenciando uma tendência decrescente nos últimos anos. Atendendo a que um grande número de doenças respiratórias se relaciona com o envelhecimento da população é expectável que o número de pessoas com doença respiratória venha a aumentar impondo ao sistema de saúde uma necessidade crescente de cuidados respiratórios. Algumas doenças respiratórias merecem especial reflexão, sobretudo na área do envelhecimento, dado os seus elevados valores. Entre elas está a fibrose pulmonar, cuja Taxa de Mortalidade Padronizada (TMP) por 100 000 habitantes, para o grupo etário dos 65 e mais anos, aumentou consideravelmente de 25,9, em 2007, para 30,2, em 2010. Estes números merecem especial atenção sobretudo quando se olha para a Taxa de Mortalidade Padronizada total. No contexto da morbilidade hospitalar, deparamo-nos com um número de utentes saídos por fibrose pulmonar, pertencente ao grupo etário dos 65 ou mais anos, que aumentou de 2007 para 2011. Paralelamente, o número de óbitos também aumentou consideravelmente neste intervalo temporal.. A nível regional, os utentes saídos por fibrose pulmonar com 65 ou mais anos são mais comuns na Região de Saúde Norte, seguindo-se Lisboa e Vale do Tejo. O mesmo facto se verifica quando se analisa a distribuição geográfica dos casos de DPOC. Quando se analisa esta última doença, depara-se com um número de utentes saídos, pertencente ao grupo etário dos 65 ou mais anos, que diminuiu de 2007 para 2011. Por último, a pneumonia apresenta uma Taxa de Mortalidade Padronizada (TMP) por 100 000 habitantes, para o grupo etário dos 65 e mais anos, extremamente elevada apesar de ter diminuído entre 2009 e 2010. Estes números revelam-se preocupantes sobretudo quando se olha para a Taxa de Mortalidade Padronizada total. A nível da morbilidade hospitalar, verifica-se que as pneumonias bacterianas são mais comuns do que as virais no que diz respeito ao grupo etário mais idoso. Assim, só este tipo de pneumonias irá ser destacado no contexto da análise da morbilidade hospitalar, reforçado na temática envelhecimento. Esta doença apresenta valores consideravelmente mais elevados que as outras consideradas neste trabalho. E, preocupantemente, estes valores, relativos a utentes com 65 ou mais anos, aumentaram consideravelmente de 2007 a 2011. Paralelamente, o número de óbitos de utentes com 65 ou mais anos também aumentou notavelmente neste intervalo temporal. A
nível regional, ao contrário do verificado para as doenças anteriormente descritas, tanto os utentes saídos com 65 ou mais anos como os correspondentes óbitos são mais comuns na Região de Saúde Lisboa e Vale do Tejo, seguindo-se a Região de Saúde do Norte. É notório o peso que o envelhecimento tem na morbilidade hospitalar das referidas doenças, em particular nas pneumonias bacterianas, pelo que a análise, relativamente ao grupo etário dos 65 ou mais anos, da sua evolução temporal assim como das suas desigualdades inerentes, não só mas também a nível regional, é de extrema importância.
Em suma, é sabido que as pessoas vivem mais tempo, mas é importante que o façam com qualidade. Sabemos hoje muito mais que no passado em relação a comportamentos de risco, pelo que o nosso quotidiano deve passar por adoptar estilos de vida saudáveis. Mas seria importante irmos um pouco mais longe no nosso raciocínio crítico, nomeadamente poderá equacionar-se, perante novos desafios como o aumento de patologias respiratórias, outras respostas de organização menos centralizadas de oferta de cuidados orientadas para problemas de saúde que afectam de modo cada vez mais expressivo o quotidiano da vida de cada um.
Referências
BARROS, Pedro Pita, 2013, Pela Sua Saúde, Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos
ROSA, Maria João Valente, 1996, O Envelhecimento da População Portuguesa, Cadernos Público, no3, Lisboa, BPI
ROSA, Maria João Valente, 2012, O Envelhecimento da Sociedade Portuguesa, Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos
Direção-Geral da Saúde, Portugal – Doenças Respiratórias em números – 2013

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Feb 26, 2014

Autores
Carlos Monteiro1, M.ª do Céu Monteiro2, Maria de Jesus Terras3
1,2,3 Enfermeiros

Desde os primórdios da história que o Homem ambiciona viver o mais possível e luta para adiar a hora de morrer. Nós, profissionais de Saúde, temos consciência que contribuímos para o aumento da esperança de vida. “A população idosa mais que duplicou nos últimos quarenta anos (INE,1999:8). Contudo, a longevidade de vida coloca-nos perante uma questão fulcral e urgente: contribuímos para dar anos à vida, mas será que damos vida aos anos?
A população portuguesa na chamada “terceira idade” é cada vez mais expressiva no conjunto do tecido social, um fenómeno motivado essencialmente pelo duplo envelhecimento, expressão utilizada por alguns autores como NAZARETH(1988); FERNANDES (1997) e COSTA(1999). Ao longo do tempo, o aumento do número de idosos tornou mais relevante o peso destes na sociedade. “A velhice representa a fase da vida em que as capacidades e resistências físicas vão gradualmente diminuindo” FERNANDES (1997:1), reduzindo-se assim a capacidade produtiva do idoso.
A esta fase estão associadas representações negativas como a pobreza, a doença, a solidão e a morte que, conjugadas com a pensionalização da velhice e com uma alteração da estrutura das relações familiares nas sociedades ocidentais, contribui para que a idade avançada seja encarada como um problema social e familiar. Como refere GIDDENS (2000:171) “Numa sociedade que valoriza a juventude, a vitalidade e a aparência física, os idosos tendem a tornar-se invisíveis”. Que lugar ocupam os idosos na família? Será que a família estará preparada para acolher a senescência (4 ª idade)? A institucionalização será o último recurso das famílias? “À medida que aumenta a idade, a proporção de idosos a viver (…) [em instituições] cresce significativamente” (INE,1999:20). Será que este facto se deve ao esgotamento familiar e à falta de ajuda por parte dos técnicos de saúde? Como poderá ser feito o apoio aos familiares, dada a escassez de recursos externos? Esse apoio é considerado crucial para cuidar do idoso com este tipo de patologia, como alerta BRITO(2001:19): “Cuidemos dos cuidadores, pois, com generosidade e competência, e todos teremos a ganhar com isso”. Cuidar de familiares idosos doentes é algo árduo e exigente, desgastante em termos físicos e emocionais, pelas múltiplas alterações que provoca na vida das famílias. A saúde destes familiares, por mais vontade que tenham em cuidar dos seus idosos, acaba por se ressentir, sendo frequentes situações de depressão e ansiedade aumentada.
A família, na maioria dos casos sem preparação, vivencia situações de sobrecarga, geradoras de angustia e culpa (LIBERMAN e LIBERMAN, 2003). Cuidar de familiares idosos doentes é algo árduo e exigente, desgastante em termos físicos e emocionais, pelas múltiplas alterações que provoca na vida das famílias. A saúde destes familiares, por mais vontade que tenham em cuidar dos seus familiares idosos, acaba por se ressentir, sendo frequentes (cerca de 50%) situações de depressão e ansiedade aumentada, estando sujeitas por um lado a uma sobrecarga objectiva (impacto das modificações e limitações impostas pela doença de um indivíduo nos seus familiares (Ex: disrupção doméstica, restrição das actividades sociais, dificuldades laborais e financeiras) e por outro a uma sobrecarga subjectiva ( conjunto de sentimentos decorrente da vivência destas limitações (perda, culpabilidade, tensão relacional intra-familiar, preocupação com o futuro, medo da violência, entre outros) (SEQUEIRA, 2007; SERRA,2002; BRITO,2001).
Há uma crescente atenção a esta problemática em vários países ocidentais, nomeadamente por parte dos profissionais de saúde. O sucesso da família no apoio ao doente psicogeriátrico depende de suportes adequados na comunidade, e da capacidade, por parte dos profissionais, de perceberem a experiência da família do ponto de vista desta, e de serem capazes de irem ao encontro das necessidades por ela identificadas. Entre técnicos e família é crucial a solidez de uma aliança que se move para um objectivo comum: promover a autonomia e minimizar a dependência do idoso com problemas psicogeriátricos.
Com a reformulação das politicas de saúde mental, há um aumento do número de doentes com perturbações mentais a viver com a família, que passa a estar assim potencialmente sujeitos a uma sobrecarga psicológica significativa. (CNRSSM, 2007).
O envelhecimento é um processo complexo em que intervêm factores biológicos, socio-económicos e culturais, num sistema de relações constituído pelo indivíduo, a sociedade e o meio ambiente. Esta fase da vida sempre constituiu uma preocupação da humanidade, mas o crescente número de idosos na sociedade actual despertou maior interesse para o assunto. É um processo contínuo e irreversível, mas nem sempre a longevidade significa qualidade de vida, pois, em muitos casos, os idosos perdem a sua autonomia, tornando-se assim dependentes da ajuda de terceiros. Paralelamente ao aumento do número global de idosos há outro fenómeno que deve ser considerado: a existência em número cada vez maior de pessoas muito idosas.
A orientação política actual consagra a família como instituição privilegiada para a integração social dos idosos. A este respeito SERRA(2002:535) alerta-nos para alguns factos: “Devido à evolução sociocultural, às formas de emprego, ao crescimento da urbanização e da industrialização, à necessidade de gerir o tempo de maneira diferente, certas funções, tradicionalmente cumpridas pela família, foram transferidas para agências exteriores (…) Contudo embora a família tenha sido expoliada de algumas obrigações antigas, mantém ainda cinco funções importantes: económica, educacional, reprodutiva, sexual e afectiva”.
A velhice é um fenómeno normal, mas leva a um aumento da fragilidade e da vulnerabilidade. Qualquer agressão, ainda que mínima à sua integridade, representa o risco de provocar um desequilíbrio global e irreparável. Como refere CORDEIRO (1999:55), “cada situação é única. O limite entre a normalidade e a patologia, ou entre um comportamento aceitável e inaceitável, nunca é preciso. Acresce que as doenças crónicas, sendo as mais frequentes no idoso, têm diferentes repercussões, em diferentes pessoas e em diferentes idades”. Com a idade, aumenta a probabilidade de desenvolverem, em simultâneo, várias patologias degenerativas e de evolução prolongada, que se potenciam entre si, originando a instalação, com o decorrer do tempo, de alguma dependência de carácter físico, mental ou social.
A demência constitui uma clara fonte de stress para o indivíduo mas também para a sua família. As perturbações originam sequelas mais ou menos prolongadas e implicam importantes mudanças, que geram ansiedade, necessidade de adaptação e resistência. Quando alguém é afectado, as repercussões para toda a família são grandes. O impacto faz-se sentir pois todos os membros da família podem ter que assumir novas responsabilidades e alterar o estilo de vida, tornando-se extremamente difícil (física e emocionalmente) dependendo do grau de envolvimento e do nível da incapacidade do doente.
PAÚL(1997:137) desperta-nos para o seguinte facto “Ao contrário do que se passa com o cuidar das crianças, [no cuidar de um idoso], a dependência é crescente” Contudo, “a família constitui um núcleo com um equilíbrio próprio, por vezes difícil de manter, e que se poderá tornar instável quando confrontado com novas exigências” PIMENTEL(2001:37). Quanto a este propósito PINTO(1999:23) refere que “em consequência do stress permanente, a que os cuidadores estão sujeitos, verifica-se nestes, em cerca de 50% dos casos, descompensações psiquiátricas importantes”. Para HARTFORD(1982), citado por SHANDS e ZAHLIS(1995:126), “as necessidades de dependência do doente, muitas vezes, não deixam ao prestador de cuidados tempo para si próprio”.
Quando um dos membros da família se confronta com problemas psicogeriátricos, é uma situação nova que contribui para descontrolar a dinâmica familiar. Como refere MARQUES(1991:105), “o confronto com uma doença grave constitui para o doente, assim como para a família e amigos, um acontecimento de vida indutor de elevados níveis de stress. (…) susceptíveis de provocar um forte impacto emocional, alterações comportamentais, podendo mesmo surgir quadros psiquiátricos”. Também para MORVAL(1986), citado por SERRA (2002:531) “uma família é um grupo de indivíduos em interacção.O que acontece a um dos membros (seja uma doença grave, a aposentação, ou o simples recomeço do ano escolar) repercute-se nos restantes”.
Acresce ainda que nas modernas sociedades ocidentais o estatuto social do idoso é muitas vezes desvalorizado. Devemos, portanto, interrogarmo-nos: será que a família está preparada para acolher o envelhecimento normal de um dos seus membros? Se neste caso a resposta já tenderá a ser negativa, naturalmente que a situação se agrava quando nos colocamos perante episódios de envelhecimento patológico, envolvendo, por exemplo, quadros de demência.
A escolha pela institucionalização ou não nem sempre é uma decisão fácil de tomar por parte de quem é cuidado (“idoso”) assim como de quem cuida (“família”). A preocupação de não recorrer à institucionalização é uma constante, como refere HESPANHA(1993) citado por PIMENTEL(2001:33): “a família, mesmo nas piores condições, organiza-se para assumir o que considera a sua obrigação: retribuir o sacrifício dos pais.”
Para KAHANA (1989), citado por PAÚL (1997:29), a “institucionalização ocorre geralmente na sequência da incapacidade funcional, combinada com a ausência ou insuficiência de apoios sociais”. Quando surge um diagnóstico de demência na família, a garantia de determinados cuidados pode ser tornar-se factor gerador de um esforço elevado e uma sobrecarga acrescida que a família não estava preparada para acolher.
Quando a família está perante o envelhecimento patológico de um dos seus membros, o acompanhamento e a prestação de cuidados podem ser problemáticos e nem sempre a manutenção do idoso em casa é a melhor solução. Sobre este assunto, PIMENTEL (2001:74), alerta-nos que “ é necessário ponderar vários factores, como o grau de dependência do mesmo, o tipo de cuidados de que necessita e as possibilidades da família em termos de recursos materiais e de tempo. Embora, por vezes, os filhos estejam dispostos a fazer todos os possíveis para apoiar os seus pais idosos, isso pode não ser, de facto, realista e praticável; por vezes, o internamento em instituições especializadas responde de forma mais adequada às suas necessidades”.
Na opinião de VIEIRA (1995:22), há imensas razões que justificam a necessidade de criar serviços psiquiátricos para os idosos, como “problemas de diagnóstico (…); o problema das patologias múltiplas de que em regra sofrem os velhos (…)” [e a] ausência de condições físicas adequadas na maioria dos Serviços de Psiquiatria”. O autor defende a criação de Unidades Gerontopsiquiátricas, tendo em consideração a experiência internacional, e a importância de haver uma colaboração institucional com todos os serviços de apoio comunitário e social, sendo fundamental uma boa articulação com os Centros de Saúde da zona. VIEIRA(1995:22) alerta-nos ainda que “a assistência Gerontopsiquiátrica em Portugal, efectuada de forma organizada, tem vindo a processar-se através da criação de Consultas de Gerontopsiquiatria nos Hospitais Escolares, por iniciativa de psiquiatras interessados nesta área”. O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa têm já uma unidade de psicogeriatria respectivamente que, à luz de outras, assenta num trabalho desenvolvido por uma equipa multidisciplinar, para dar resposta às necessidades dos idosos e cuidadores, prevenindo a deterioração física, psíquica e social do idoso, visando a autonomia e satisfação do idoso e família. Este tipo de serviço pretende por um lado, diminuir a ansiedade e o stresse dos cuidadores, por outro lado, que cuidadores adquiram competências para lidar com o doente idoso.
Em suma, defendemos que o envelhecimento deve ser encarado como algo natural, como mais uma etapa da nossa vida. Porém, não deve ser esquecido que esta fase implica um declínio das nossas potencialidades e condição física. A família e a própria sociedade desempenham um papel essencial no suavizar dos aspectos nefastos dessa decadência. Por outro lado, os profissionais de saúde devem estar despertos para as dificuldades dos cuidadores informais, de modo a ajudá-los a promover e garantir o apoio aos idosos.Dessa colaboração, dessa ajuda depende em muito a capacidade de os idosos poderem viver um envelhecimento digno, em qualidade (mesmo que do foro patológico) beneficiando do insubstituível aconchego familiar. Paralelamente, ao sentirem-se apoiadas, as famílias adoptarão uma outra atitude quando confrontadas com esta circunstância, deixando de temer e dramatizar o envelhecimento dos seus elementos mais chegados e para que possam afirmar que: “não tenho medo de ter um familiar a envelhecer ! ”

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRITO, L. A saúde mental dos prestadores de cuidados a familiares idosos, Coimbra, Quarteto Editora, 2002.
COMISSÃO Nacional para a Reestruturação dos Serviços de Saúde Mental – Relatório Proposta de Plano de Acção para a Reestruturação e Desenvolvimento dos Serviços de Saúde Mental em Portugal 2007/2016. Ministério da Saúde, 2007.

CORDEIRO, M.P.- Avaliação da saúde em gerontologia. In Manual Sinais Vitais- O idoso problemas e realidades.1ª ed, Coimbra, Formasau, 1999, pp.53-61.
COSTA, M. A., O idoso – Problemas e Realidades, Coimbra, Formasau, 1999.
FERNANDES, A. A., Velhice e Sociedade: Demografia, família e políticas sociais em Portugal, Oeiras, Celta, 1997.
FERNANDES, A. A., Quando a vida é mais longa…os impactos sociais do aumento da longevidade, in O Sentido das idades da vida, col. Gerontologia social, Editora CESDET, 2004.
GIDDENS, A ., Sociologia, Lisboa, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.
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LIBERMAN, D.B e LIBERMAN, R. P. – Involving families in rehabilitation though behavioural family management. Psychiatric Services,2003, 54.
MARQUES, A.; SANTOS, G.; Reacções à doença grave: como lidar, Coimbra, Clínica Psiquiátrica HUC, 1991.
NAZARETH, J.M. – Unidade e diversidade da demografia portuguesa no final do século XX, Col.Portugal, Os próximos 20 Anos, III volume, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian,1988.
PAÚL, M. C., Lá para o fim da vida, Coimbra, Livraria Almedina, 1997.
PIMENTEL, L. , O lugar do idoso na família: Contextos e trajectórias, Coimbra, Quarteto Editora, 2001.
PINTO, L. C., Doença de Alzheimer, diagnóstico diferencial e sua importância na prática clínica, Revista de Psiquiatria do Hospital Júlio de Matos,1999, Lisboa, n.º1, pp.17-25.
SHANDS, M. E; ZAHLIS, E. H. – A família e a doença. In Phipps, et al – Enfermagem medico – cirúrgica – conceitos e prática clínica. I volume, 2ª ed., Lisboa: Lusodidacta, 1995, pp. 121-145.
SEQUEIRA, C. (2007) – Introdução à prática clínica. do diagnóstico à intervenção em enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica. Coimbra: editora quarteto. ISBN 989-558-083-5.
SERRA, A. V. – O stress na vida de todos os dias. Coimbra: Ed. Autor, 2 ª edição, 2002.
VIEIRA, C.R. A unidade de gerontopsiquiatria, Geriatria, Lisboa, Dezembro de 1995, nº80, pp. 22-27.
Monteiro, M. C. ; TERRAS, J., O Impacto dos problemas psicogeriátricos na família, as percepções da sobrecarga sentida pelos cuidadores informais, Lisboa, E.S.EM.F.R. , 2003.

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Feb 26, 2014

THE ELDERLY IN A HOSPITAL EMERGENCY SERVICE
LOS ANCIANOS EN URGENCIAS DEL HOSPITAL

Autora
Zaida Azeredo 1
1 Médica, Especialista em Clinica Geral/ Saúde Familiar, Mestre em Gerontologia Social Aplicada, Doutorada em Saúde Comunitária, Membro da UNIFAI
Corresponding Author:zaida.azeredo@gmail.com

Introdução

O envelhecimento demográfico é uma realidade nas sociedades actuais, única na história da humanidade.
Com o aumento progressivo do número e proporção de idosos, tem havido um aumento na prevalência das doenças crónico-degenerativas e de suas complicações, bem como um aumento de incapacidades que levam a uma maior afluência de idosos ao serviço de urgência.

Objetivo: Refletir sobre a procura do serviço de urgência pelos idosos e sobre a sua permanência no mesmo.

Desenvolvimento A Autora faz uma reflexão sobre alguns dos motivos que levam o idoso a recorrer ao serviço de urgência (ainda que por vezes não haja uma aparente razão biológica para tal), bem como sobre o ambiente nesse serviço e a razão porque o Idoso parece aí permanecer por períodos mais longos.

Conclui que os motivos são multifatoriais contribuindo para tal, não só a sua fragilidade (sobretudo no caso de grandes idosos), a sua co-morbilidade e multimorbilidade, mas também fatores sócio-ambientais e a noção de finitude próxima.
Estes são também fatores que devem estar subjacentes à tomada de decisão clínica, no serviço de urgência.
O facto de, os idosos (sobretudo os grandes idosos) necessitarem de uma avaliação global multifacetada, o que a torna morosa e com características especiais, bem como a agressividade que para a sua homeostasia representa o ambiente hospitalar, leva à necessidade premente de repensar este tipo de serviço para uma população geriátrica, que representa uma grande fatia dos utentes.

Palavras Chave: Envelhecimento, família, Idosos, Serviço de Urgência

Abstract

Introduction: The growth of older population in the world is an impair reality in the Humanity story.
As people live longer, the chances of developing chronic diseases and its complications is higher. Handicap people and dependences are also increasing.

Aims: To reflect about the elderly’s emergency services demands, and its function.

Development: The Author analyze why the elderly use the emergency services (even if it is not classified as an emergency situation). Also reflect about the emergency services environment, how they are adapted to the elderly and why this group stays longer

Conclusion: There are multi-factorial reasons which involve frailty, co-morbidity and multi-morbidity, social environment and the proximity of death, among others.
The health professionals must pay attention to these multi-factorial reasons when they take clinical decisions-
Also the emergency service’s environment must be adequate to this kind of users, taking into account their specificity.

Key words: Aging, Family; Elderly; Emergency Services

Introdução

O envelhecimento demográfico constitui uma das características das sociedades actuais na qual se inclui Portugal. O aumento, a nível mundial da proporção de idosos que se verificou no final do século XX e que se vai acentuar no século XXI é algo inédito na história da humanidade. (1)
Em Portugal, entre 1960 e 2000, houve um franco estreitamento na base da pirâmide e um alargamento e alongamento do topo da mesma, que nos próximos anos se vai acentuar (1).
Neste País, entre 1960 e 1991 houve uma diminuição de jovens (de 40% entre os 0-4 anos de idade e de 16% entre os 5-14 anos) enquanto os grupos etários mais velhos aumentavam quer em número quer em proporção (aumento de 35% no grupo etário entre 50-64 anos, de 73% no grupo de idades entre 65-74 anos e de 112% nas pessoas com 75 ou mais ano). (Eurostat 2010) (1) (2). Vemos, assim, que são os grupos mais velhos que mais aumentaram, levantando questões sócio-sanitárias importantes, pois, para além da morbilidade ser maior nestes grupos etários há um aumento da prevalência das doenças crónico-degenerativas, com consequente aumento de incapacidades. Este aumento de incapacidades e de morbilidade, tem subjacente um envelhecimento patológico e fisiológico, e, cumulativamente, um envelhecimento demográfico que, em conjunto com outros fatores socio-sanitários induzem uma afluência significativa de idosos aos serviços de urgência.
O presente artigo tem, assim, como objetivo fazer uma reflexão sobre os idosos no serviço de urgência e fatores socio-sanitários que lhe estão subjacentes.
Os idosos são, o grupo etário que, numa comunidade, apresenta mais incapacidades e maior fragilidade, exigindo a sua situação clínica maior atenção e preocupação que a maioria das pessoas dos outros grupos etários (1)(2)(3)
O aumento de pessoas idosas e de reformados (com as respectivas implicações socio-económicas), bem como o aumento de pessoas a viver só, vai, repercutir-se na saúde de uma população e na utilização dos serviços de saúde, nomeadamente no consumo de consultas e no aumento da duração dos internamentos hospitalares (4) (5) (6). Também, pelo mesmo motivo e de acordo com diversos autores há um aumento da frequência de idosos nos serviços de urgência quer de CSP quer hospitalares, e, nas consultas do Médico de Família, bem como um aumento na necessidade de cuidados domiciliários (área da saúde e sociais). (7) (8)(9)(10) (11)(12). Com efeito, actualmente, os cuidados domiciliários realizados pelo Médico de Família são sobretudo dirigidos a idosos e grande idosos e a pessoas com grau de dependência elevado, sofrendo de patologias (frequentemente de polipatologias ) sobretudo de foro crónico-degenerativo.
Apesar de no final do século XX e início do século XXI se verificar uma contractilidade da morbilidade, isto é, um adiamento da prevalência de patologias incapacitantes (e/ou de suas consequências), para idades mais avançadas, há também, uma maior necessidade de utilização dos serviços de saúde, não só para prevenção de doenças e promoção da saúde, mas também para tratamento de doenças crónico-degenerativas ou para cuidados paliativos e terminais. (13)

Mas, enquanto a necessidade de cuidados aumenta, verifica-se uma diminuição do número de elementos por agregado familiar e portanto de potenciais cuidadores informais, dificultando a responsabilidade da família no cuidar dos seus idosos. (14)
A alteração estrutural não só em número de elementos por agregado, mas também no tipo de família, associada à urbanização dos espaços rurais (que frequentemente determina o afastamento espacial de gerações) bem como o aumento da longevidade são factores importantes que contribuem para que o idoso se veja só, numa emergência/urgência médica. (1) (14) (15). Com efeito há muito idoso (sobretudo os chamados de grandes idosos) que já não têm família. Este factor e a consciência de que a finitude se aproxima, leva o idoso ou a sua família (quando esta existe) a interpretar como muito urgentes sintomas/ sinais que são considerados pelos clínicos como não urgentes.
O isolamento a que estes idosos muitas vezes estão votados e a falência de um apoio social eficaz e eficiente são também factores que influenciam a procura dos serviços de saúde, pois geram medos que criam ansiedade e ajudam a uma somatização.
Segundo Azeredo (2008; 2011) as famílias monoparentais, as famílias reconstruídas e as famílias unitárias têm vindo a aumentar substancialmente em Portugal (1) (14). O lugar do idoso neste novo tipo de famílias é muito complexo, pois é esperado por parte dos elementos que as constituem uma cooperação/ajuda quer económica, quer no cuidar dos descendentes, nem sempre possível, o que preocupa o idoso em relação ao seu futuro.
Tradicionalmente não havia ascendentes que necessitassem de cuidados prolongados, pois as pessoas morriam muito cedo, ainda mesmo antes da reforma. Mas actualmente, cuidar de um idoso a necessitar de ajuda (que se pode prolongar no tempo e progressivamente exigir mais e mais disponibilidade) complica o funcionamento e equilíbrio (muitas vezes instável) destas famílias, ainda agravado pelo trabalho fora de casa dos elementos femininos, tradicionalmente considerados como os cuidadores informais
Quando a família é apenas constituída por duas pessoas e, a que necessita de cuidados é idosa, o outro elemento frequentemente também o é e também tem problemas de saúde. Nestes casos o recurso à visitação domiciliária e ao serviço de urgência torna-se muito mais frequente, sendo muitas vezes o(a) doente transportado(a) de ambulância para este último serviço, não só porque não tem transporte próprio, mas também por desta forma haver maior celeridade no atendimento.
Com a urbanização dos espaços rurais, os habitantes mais jovens das cidades, tendem a migrar para a periferia (para zonas suburbanas) onde têm mais facilidade de encontrar casas mais económicas mais modernas e melhores. (1)
Assim o centro da cidade vai-se esvaziando de jovens, restando naquele, idosos a viver em casas muitas vezes degradadas, sem elevadores, o que dificulta a sua mobilidade e a acessibilidade aos serviços de saúde a não ser em situações por eles consideradas urgentes ou, quando solicitam a deslocação ao domicílio dos profissionais de saúde
É frequente, os idosos referirem que vivem nestas habitações há mais de 40-50 anos tendo elas sofrido poucas obras / remodelações.

As barreiras arquitectónicas frequentemente existentes nos edifícios mais antigos, são também um dos motivos porque é tão frequente a utilização de ambulância na deslocação de idosos para o serviço de urgência.
Nestes centros urbanos, quando existe família (à semelhança do que agora também se passa nas zonas rurais), esta geralmente não cohabita com o idoso a não ser quando se trata do conjugue que também é idoso e por vezes portador de alguma incapacidade.
Embora resida no mesmo centro urbano, a família frequentemente, não está fisicamente próxima. Qualquer condição clínica que saia dos padrões de sinais/ sintomas habitualmente manifestados pelo idoso são motivo de alarme. Estes factos associados à proximidade da sua finitude podem produzir uma reacção de pânico (ainda que não expresso) que leva o idoso a tomar a decisão de recorrer a serviços que de uma forma mais ou menos rápida podem dar resposta à situação clínica agora apresentada.
Com a triagem de Manchester o recurso à ambulância pode, também ser para o idoso, uma forma de mais rapidamente ser atendido, sem ter de permanecer por longo tempo na sala de espera.
No entanto, a triagem que agora é feita nos serviços de urgência parece não estar dimensionada para o risco em que incorrem as pessoas idosas fragilizadas que apresentam situações clínicas de grande complexidade e com manifestações clínicas muitas vezes atípicas

O idoso e o serviço de urgência

Num estudo feito no ano de 2003 no Serviço de Urgência do Hospital S. Francisco Xavier, o grupo etário entre os 25-64 anos representava cerca de 53% do total de episódios e as pessoas com mais de 65 anos representavam cerca de ¼ de toda a afluência. Neste estudo os principais motivos de recurso ao serviço de urgência foram : causas médicas (76,7%) seguidas de causas traumáticas (cerca de 19%)
Smith (2001) citado por Oliveira (2008) defende que os serviços agudos devem ser pensados como um sistema simples; a urgência ocorre na rua ou em casa do doente, e só depois é que este se dirige ao hospital para ser avaliado e/ou tratado. Finda esta observação e/ou tratamento o doente tem alta (regressando ao seu domicílio, a casa de familiares ou a uma instituição); pode, ainda,ser internado ou ser verificado o seu óbito. (9) (10)
O facto de os idosos frequentemente sofrerem de polipatologias e/ou de suas complicações, e de estarem polimedicados (podendo mesmo estar subjacente ao seu recurso ao serviço de urgência uma situação iatrogénica) leva os clínicos a serem mais cautelosos quando do estabelecimento de um diagnóstico da situação clínica bem como nas tomadas de decisão. O recurso a exames complementares de diagnóstico (por vezes aparentemente desnecessários) e a um maior tempo de permanência em observação são algumas das estratégias usadas pelos clínicos.
Segundo Oliveira (2008) o preditor mais importante para a procura pelo idoso, dos serviços de saúde é a percepção do seu estado de saúde (que pode diferir da que o profissional de saúde tem) e quão urgente é percepcionada a situação. (9)
Esta percepção, associada ao contexto emocional e ambiente social em que a situação ocorre, bem como à acessibilidade aos serviços de saúde e ao conhecimento
prévio da doença ou situação que causa o episódio agudo, são determinantes na tomada de decisão de se dirigirem a um serviço de urgência ou ao centro de saúde, ou, ainda, de chamarem um clínico ao domicílio. Apraz acrescentar ponderações económicas e facilidades familiares. (10)
Azeredo (2003) afirma que na ausência de uma organização social eficaz e/ou exaustão de um cuidador o recurso aos Profissionais de Saúde aumenta, hiperdimensionando-se necessidades latentes (7)
Como anteriormente já se afirmou, o idoso cada vez mais é uma pessoa solitária e, á medida que a idade avança, mais fragilizada, recorrendo por estas razões mais ao serviço de urgência.
Segundo Remoaldo (1993) o recurso ao serviço de urgência pode também representar uma chamada inconsciente de atenção sobre si, da família e da sua rede social. (11)
Geller, Janson et al. (1999) num estudo que efectuaram em 164 pessoas encontraram uma correlação entre solidão e recurso aos serviços hospitalares (16)
Há pois necessidade de os profissionais de saúde estarem atentos à complexa teia que envolve o idoso que recorre ao serviço de urgência pois a permanência neste serviço, ainda que por umas horas, pode desencadear uma panóplia de emoções que o idoso tem dificuldade em verbalizar e que podem causar confusão que muitas vezes perdura durante semanas ou mesmo meses.
O serviço de urgência representa para o idoso não só a gravidade da situação/ doença, mas também um mundo inóspito e desconhecido que precisa de ser minimizado com uma boa relação entre a equipe de saúde e o doente, ou a presença de um familiar que tal como na criança lhe dê a confiança necessária.
A utilização de técnicas muitas vezes cruentas, sem prévia explicação, representa uma ameaça/ agressividade ao seu normal quotidiano e á sua rotina responsável pela manutenção da sua homeostasia.
A perda de objectos de referência devida ao cumprimento de normas de serviço, é outra agressividade que no adulto jovem assume uma importância minor mas que no caso do idoso pode desempenhar um papel de relevo, sobretudo quando este idoso está fragilizado.
Como Castro, Catita, Cordeiro & Vaz (2002) afirmam só se cuida verdadeiramente quando se reconhece no utente, por um lado, a fragilidade da qual emerge a necessidade do cuidado e por outro, a capacidade que este tem para participar nesse mesmo cuidado (17)
O serviço de urgência pelas suas características intrínsecas, a intensidade e frequência de emoções vivenciadas (em que há um contacto permanente com situações emergentes e a morte), bem como a mobilidade de profissionais, doentes e familiares é por si só indutor de despersonalização e de desumanização dos cuidados prestados, podendo gerar no idoso desconforto, insegurança e confusão, com consequente agravamento do seu estado físico e mental, já de si fragilizado pela situação clínica. (18)
Continuando a aumentar a proporção de idosos na população em geral, vai haver necessidade de, há semelhança do que foi feito em outros países, repensar o serviço de urgência hospitalar, não só no que diz respeito ao espaço, mas também no que concerne aos recursos humanos, para se fazer face à afluência de idosos a este serviço e neles minimizar os danos causados pela sua permanência no mesmo.
A Lei 33/2009 de 14 de Julho, permitindo que todo o cidadão admitido no serviço de urgência possa estar acompanhado por uma pessoa, já ajuda um pouco a situação do idoso neste serviço, pois é através deste elemento que se faz o seu contacto com o exterior, porém é importante ter a certeza de que o elemento presente é aquele que representa a pessoa significativa para o idoso.

Síntese final

O Serviço de Urgência é um serviço para abordagem de situações urgentes e emergentes, porém o que é urgente para um utente e/ou seus familiares pode não o ser para o profissional. A ida e/ou permanência no serviço de urgência de um idoso representa sempre uma ameaça á sua homeostasia, já de si fragilizada, não só pela incerteza da evolução da sua situação clínica, mas também por ser um ambiente desconhecido e muito stressante e agressivo.
Com o aumento da proporção de idosos e grandes idosos na população em geral, vai haver um franco predomínio destes com polipatologias e polimedicados a recorrer ao serviço de urgência, havendo por isso necessidade de repensar este serviço, de forma a torná-lo mais acolhedor, e a minimizar os seus efeitos que poderão agravar a situação clínica já presente.
Como Tavares (2012) afirma as pessoas idosas que recorrem ao serviço de urgência têm uma apresentação clínica complexa e, muitas vezes manifestam resultados adversos após a vinda ao serviço de urgência (19)
Este fenómeno associado ao aumento percentual de pessoas idosas e pessoas fragilizadas que recorrem ao serviço de urgência exige da parte dos profissionais de saúde uma maior vigilância e maior número de tarefas, com consequente aumento no dispêndio de tempo por pessoa atendida, bem como consequentemente, maior necessidade de recursos. Parece, assim, haver necessidade de os idosos permanecerem mais tempo no serviço de urgência, apresentando problemas sócio-sanitários de grande complexidade o que exige por parte dos profissionais maior disponibilidade e especificidades nas suas competências.
O modelo tradicional do serviço de urgência focado na triagem tratamento e encaminhamento rápido não permite conhecer de forma abrangente e integrada as necessidades clínicas dos idosos que aí recorrem, de forma a fazer-se uma abordagem compreensiva e uma referenciação adequada, evitando situações iatrogénicas complicadas e/ou novo recurso extemporâneo ao serviço de urgência ou a visitação domiciliária. (19)
Segundo Tavares (2012) há necessidade de os profissionais acrescentarem às suas habilidades e competências clínicas que já possuem para atender situações urgentes e emergentes, outras de foro geronto-geriátrico.( 19)
A população vai continuar a envelhecer e com ela as situações urgentes e emergentes vão sendo cada vez mais complexas de difícil resolução, devendo os profissionais ter formação adequada para observar e pensar no idoso doente como um todo, portador de co-morbilidades e multi-morbilidades que obrigam a uma polimedicação (que pode interferir na terapêutica a instituir no serviço de urgência). Muitas vezes, possui, ainda, uma fragilidade sócio-sanitária que pode influenciar o prognóstico ou ser a base de manifestações atípicas quando está no serviço de urgência, cujo ambiente, por si só já lhe é inóspito.
Há também necessidade de adaptar o ambiente físico de um serviço de urgência a este tipo de utentes que vão sendo cada vez mais em maior número, de forma a evitar efeitos secundários provocados pelo mesmo (desorientação espaço-temporal, infecções nosocomiais, etc).

Referências Bibliográficas
1 – Azeredo Z. O Idoso como um todo…. Viseu: Psicosoma; 2011
2 – European Union. Europe in Figures: Eurostat yearbook 2010 Belgium: European Commission; 2010
3 – Azeredo Z. O Idoso fragilizado e a prevenção da fragilidade Revista Ibero- Americana de Gerontologia 2013; 2: 70-78
4 – Rosa MJV. O desafio social do envelhecimento demográfico Análise Social 1993;1223 (3): 679-689
5 – Rosa MJV. O envelhecimento demográfico: proposta de reflexão sobre o curso dos factos Análise Social 1996;31:1183-1198
6 – Rosa MJV. O envelhecimento da Sociedade Portuguesa Lisboa Fundação Francisco Manuel dos Santos Relógio d’Água Editores; 2012
7 – Azeredo Z. O doente com AVC e o prestador de cuidados Geriatria 2003; XV,154:27-30
8 – Yim V W T, Graham CA. A comparison of emergency department utilization by elderly and younger adult patients presenting to three hospitals in Hong Kong Int J. Emerg Med;2009;2:19-24
9 – Oliveira A. Hiperutilizadores e urgência Act Med Port;2008; 21(6):553- 558
10 – Oliveira A. Requalificação da rede da urgência/emergência: mudança certa ou errada Medicina Interna 2008;15,4:237-244
11 – Remoaldo PC. Aspectos sócio-demográficos e nosológicos da população do serviço de urgência do Hospital Distrital de Guimarães Rev Faculdade de Letras- Geografia 1993;I,IX: 45-99
12 – Beland F, Lemay A, Philibert L, Maheux B, Grovel G. Elderly Patient’s use of hospital – based emergency service Medical Care 1991; 29:408-418
13 – Laporte ASJ. La valoriacion de la multimorbilidad en personas de edad avanzada – una área importante de la valoriacion geriátrica integral Rev Esp Geriatria y Gerontol 2012;47(2): 47-48
14 – Azeredo Z. A família como núcleo de mudança cultural in Jorge VO, Macedo JMC. Crenças religiões e poderes: dos indivíduos às sociabilidades Sta Mª da Feira Ed Afrontamento 2008.pp 113-120
15 – Alarcão M. ( Des)Equilíbrios familiares Coimbra Ed Quarteto 2000
16 – Geller J, Janson P, McGavem E, Valdini,A. Loneliness as a predictor of hospital emergency department use The Journal of Family Practice 1999,48(10):801-804
17 – Castro C, Catita P, Cordeiro T, Vaz C. Saber escutar para saber cuidar Nursing 2003,162
18- Lima MLC, Souza ER, Acioli RML, Bezerra ED. Análise dos serviços hospitalares clínicos aos idosos vitimas de acidentes e violências Ciências & Saúde Colectiva 2010,15(6):2677-2686
19 – Tavares, JPA. Identificação das pessoas idosas de risco no serviço de urgência: que realidade? Journal of Aging and Inovation 2012,1(4):14-25

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Feb 26, 2014

CASE STUDY: PERSON WITH ALZHEIMER’S DISEASE
ESTUDIO DE CASO: PERSONA CON LA ENFERMEDAD DE ALZHEIMER

Autora
Simone Saraiva 1
1 Enfermeira, Lar Monterey – Lisboa
Corresponding Author: simone_raquel@hotmail.com

Resumo
Demência é a definição usada para descrever um conjunto de sintomas (perda de memória, inteligência, racionalidade, competências sociais e funcionamento físico) de um grande grupo de doenças que causam um declínio progressivo do funcionamento de uma pessoa. A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência, representando entre 50 – 70% dos casos de demência. Objetivo: Com a elaboração deste trabalho é pretendido a aquisição de conhecimentos científicos baseados na evidência para conhecer melhor esta doença e tudo o que nela está implícito. Este conhecimento vai levar também a criar intervenções de enfermagem mais apropriadas a este tipo de doentes, baseadas nos problemas encontrados neste estudo de caso.
Metodologia: Para a elaboração deste trabalho os recursos utilizados foram a consulta bibliográfica relacionada com o tema em estudo e à consulta webliográfica recorrendo à pesquisa eletrónica no motor de busca Google.
Conclusão: Com a informação recolhida sobre a Doença de Alzheimer, foram elaboradas intervenções de enfermagem ao individuo que apresenta esta doença, tendo por base a mais recente evidência científica.

PALAVRAS-CHAVE: Doença de Alzheimer, Diagnóstico, Tratamento, Intervenções de Enfermagem

Abstract

Dementia is the definition used to describe a set of symptoms (loss of memory, intelligence, rationality, social skills and physical functioning) of a large group of diseases that cause a progressive decline in the functioning of a person. Alzheimer’s disease is the most common form of dementia, accounting for between 50 – 70% of cases of dementia.
Objective: With the preparation of this work is intended to acquire scientific knowledge based on evidence to better understand this disease and all that therein is implicit. This knowledge will also lead to create nursing interventions most appropriate to this type of patients, based on the problems encountered in this case study.
Methodology: For the elaboration of this work the resources used were the bibliographic consultation related to the topic under study and consultation webliografica using electronic searches in the search engine Google.
Conclusion: With the information gathered on the Alzheimer’s Disease, were drawn up nursing interventions to individual who presents this disease, based on the most recent scientific evidence.

KEYWORDS: Alzheimer’s Disease, Diagnosis, Treatment, Nursing Interventions

Introdução

O estudo de caso trata-se de uma abordagem metodológica de investigação especialmente adequada quando procuramos compreender, explorar ou descrever acontecimentos e contextos complexos, nos quais estão simultaneamente envolvidos diversos factores. Yin (1994) afirma que esta abordagem se adapta à investigação em educação, quando o investigador é confrontado com situações complexas, de tal forma que dificulta a identificação das variáveis consideradas importantes, quando o investigador procura respostas para o “como?” e o “porquê?”, quando o investigador procura encontrar interacções entre factores relevantes próprios dessa entidade, quando o objectivo é descrever ou analisar o fenómeno, a que se acede directamente, de uma forma profunda e global, e quando o investigador pretende apreender a dinâmica do fenómeno, do programa ou do processo.6
Assim, Yin (1994, p.13) define “estudo de caso” com base nas características do fenómeno em estudo e com base num conjunto de características associadas ao processo de recolha de dados e às estratégias de análise dos mesmos.6
A elaboração deste estudo de caso tem como objetivo principal a elaboração de um quadro de intervenções de enfermagem à pessoa com doença de Alzheimer, tendo em conta os diagnósticos mais frequentes que vão sendo apresentados neste tipo de doentes.
Estou ciente da importância da realização deste estudo na minha formação profissional e pessoal, pois compreendo a dimensão que a prática baseada na evidência constitui o garantir de cuidados de enfermagem. Cuidados que devem ser fundamentados em evidência científica válida, relevante, e resultante de pesquisa e avaliação credível, tendo em vista a qualidade dos cuidados prestados.

Estudo de Caso

No estudo de caso ir-se-á expor a Doença de Alzheimer e tudo o que nela está englobado (o que é, diagnóstico, impacto social e tratamento) e o caso clínico em estudo neste trabalho.

Doença de Alzheimer (DA)

A doença de Alzheimer é uma doença na qual as células do sistema nervoso central sofrem um processo de morte mais acelerado que o que existe normalmente, provocando uma perda de função relacionada com os locais onde essa perda é maior. Na grande maioria dos casos esta perda de células atinge, nas fases mais iniciais da doença, locais essenciais a um certo tipo de memória, aquela que nos permite recordar acontecimentos recentes e aprender novas informações. Estas áreas usam a acetilcolina como mediador, ou seja, os neurónios dessas áreas libertam esse composto para activar os neurónios com os quais fazem contacto. A perda deste mediador faz com que esses neurónios não sejam activados e não cumpram a sua função, dando origem a sintomas, neste caso, perda de memória.
É na sua grande maioria uma doença não-hereditária, ou seja, esporádica, relacionada com o envelhecimento. Embora possa manifestar-se em idades mais precoces, a sua prevalência aumenta de uma forma exponencial a partir dos 65 anos de idade, duplicando a cada 5 anos.5

Apesar dos distúrbios de memória serem os sintomas comuns apresentados, os problemas de memória raramente existem isoladamente; a maioria dos pacientes está debilitada em duas ou mais áreas cognitivas:
1) Memória: Os erros mais comuns de memória ocorrem nos testes de memória recente (secundária).
2) Linguagem: As circunlocações, paráfases semânticas e o uso de palavras “vazias” são evidentes. A diminuição da fluência verbal é também evidente e pode ser prontamente detectada em tarefas que exigem do paciente nomear membros de uma categoria durante um minuto.
3) Função visuoespacial: Desorientação geográfica, inicialmente em ambientes novos, mas também nos arredores familiares conforme a doença progride.
Muitos pacientes demonstram uma exacerbação das características de sua personalidade, outros podem experimentar uma inversão na personalidade. Em alguns casos há desinteresse, apatia, despego e inibição. Desconfiança e paranóia também podem ocorrer.

Esta doença é dividida em quatro fases: inicial, intermediária, final e terminal. A fase inicial é caracterizada por alterações na afetividade e déficit de memória recente. Na fase intermediária, os déficits cognitivos (orientação, linguagem, memória, raciocínio e julgamento) estão altamente prejudicados, afetando as atividades instrumentais e operativas.
Além disso, outra característica que marca a fase intermediária é o início das dificuldades motoras. A marcha pode estar prejudicada, com lentidão global dos movimentos, aumento do tônus muscular e, muitas vezes, apraxias (incapacidade de executar os movimentos apropriados para determinados fins). Na fase final, a capacidade intelectual e a iniciativa estão deterioradas. Os estados de apatia e prostração serão responsáveis pelo confinamento ao leito ou à poltrona, as alterações neurológicas se agravam: a rigidez aumenta consideravelmente e os movimentos estarão lentificados e por vezes estereotipados.
A fase terminal é caracterizada por restrição ao leito, praticamente durante o tempo todo, acabando por adotar a posição fetal. As contraturas dos membros inferiores tornam-se inextensíveis e irrecuperáveis. Os membros superiores adotam posição fletida junto ao tórax e a cabeça pende em direção ao peito; podem surgir lesões nas palmas das mãos, por compressão destas pelos dedos flexionados, e grandes úlceras de pressão, incontinência urinária e fecal, problemas pulmonares, total indiferença ao meio externo, mutismo e estado vegetativo.1

Etiologia
As alterações descritas por Alois Alzheimer no cérebro de doentes têm sido a base da investigação da causa na doença de Alzheimer. Os estudos, bioquímicos e estruturais, das placas neuríticas e das tranças neurofibrilares realizados até à data sugerem que um dos principais factores da morte dos neurónios tem a ver com o processamento de uma proteína chamada Proténa Percursora de Amilóide, a APP. Apesar de os casos hereditários de doença de Alzheimer serem os mais raros, a identificação dos genes que provocam doença de Alzheimer foi muito importante, já que todos têm a ver com esta proteína. As alterações do gene da APP ou das presenelinas 1 e 2 provocam um desvio do processamento da APP no sentido da formação dos oligómeros insolúveis e tóxicos e provocam doença de Alzheimer.
Em relação à proteína tau, o facto de ser única alteração em algumas doenças neurológicas faz com que o seu papel na morte dos neurónios seja indiscutível. Mas o que provoca esta alteração não é tão bem compreendido, assim como a sua relação com a patologia β-amilóide.
Seja qual for o factor desencadeante da doença, vários factores acontecem no cérebro dos doentes com doença de Alzheimer que são passíveis de participar na morte dos neurónios. A inflamação, o aumento de radicais livres, etc.
Sendo assim, a doença de Alzheimer continua a ser uma doença sem causa conhecida, mas tudo parece indicar que vários factores, tanto genéticos como provenientes do ambiente, possam, no seu conjunto, ser os responsáveis pela doença.5
Os fatores de risco nesta doença são a idade, a baixa escolaridade, o estilo de vida sedentário, algumas situações patológicas (traumatismo craniano, diabetes mellitus e a depressão) e, do ponto de vista genético, serem portadores de três genes identificados como responsáveis por esta doença (o gene da APP, da presenilina 1 e da presenilina 2), influenciados pelo alelo ε4. Estes genes são autossómicos dominantes contudo, nem todos os portadores destes três genes irão ter a manifestação da doença.

Diagnóstico
O diagnóstico clínico da DA se baseia na observação de quadro clínico compatível e na exclusão de outras causas de demência por meio de exames laboratoriais e de neuroimagem estrutural. A tomografia computadorizada e, particularmente, a ressonância magnética revelam atrofia da formação hipocampal e do córtex cerebral, de distribuição difusa ou de predomínio em regiões posteriores. Esses pacientes preenchem os critérios diagnósticos da denominada DA provável. Outra possibilidade é o diagnóstico de DA possível, em que os pacientes apresentam variações na forma de apresentação ou evolução clínica e também nos casos em que outras condições passíveis de produzir demência estejam presentes, porém sem serem consideradas, com base em juízo e experiência clínica, responsáveis pelo quadro demencial. O diagnóstico definitivo só é possível por exame anatomopatológico.
A acurácia diagnóstica quando da presença de perfil clínico característico e de exames complementares normais ou inespecíficos (quadro compatível com DA provável), segundo os estudos com confirmação anatomopatológica, é de, em média, 81%, taxa que se eleva com o seguimento dos pacientes.2
Contudo, importa referir que ainda são muito utilizados os critérios do diagnóstico clássico da doença e que este requer dois passos.
O primeiro passo é determinar se o doente tem uma demência, ou seja, determinar se o doente tem uma alteração de memória para factos recentes e pelo menos alteração de um outro domínio cognitivo que sejam suficientes para interferir na capacidade de o doente realizar as suas tarefas da vida diária e para manter a sua relação social com os outros com a com a qualidade que era habitual para essa pessoa.
O segundo passo tem por função determinar se a causa da demência é uma doença de Alzheimer, o que exige que se afastem outras hipóteses que possam justificar a perda apresentada pelo doente.5
O diagnóstico passa então por se verificar a existência de uma demência e exclusão de outras causas o que permite que em 90% dos casos o diagnóstico seja feito corretamente embora haja casos de pessoas com doença de Alzheimer não detetados por estas ainda não cumprirem os critérios para terem uma demência. Vários autores discordam desta visão e têm elaborado os seus conceitos baseando-se num diagnóstico mais precoce contudo, o diagnóstico da doença de Alzheimer mantém-se um diagnóstico que se baseia nas características dos sintomas que o doente apresenta e na exclusão de outras doenças.5

Tratamento
O tratamento da doença de Alzheimer deve ser encarado em diversas frentes (figura 1).5 Uma forma de prevenção da doença de Alzheimer passa por medidas que previnem o enfarte do miocárdio e cerebral, tais como o tratamento precoce da hipertensão arterial, do aumento do colesterol e dos triglicerídeos e da obesidade, entre outras.5
O tratamento farmacológico da DA pode ser definido em quatro níveis: (1) terapêutica específica, que tem como objetivo reverter processos patofisiológicos que conduzem à morte neuronal e à demência; (2) abordagem profilática, que visa a retardar o início da demência ou prevenir declínio cognitivo adicional, uma vez deflagrado processo; (3) tratamento sintomático, que visa restaurar, ainda que parcial ou provisoriamente, as capacidades cognitivas, as habilidades funcionais e o comportamento dos pacientes portadores de demência; e (4) terapêutica complementar, que busca o tratamento das manifestações não-cognitivas da demência, tais como depressão, psicose, agitação psicomotora, agressividade e distúrbio do sono.
O tratamento da DA envolve estratégias farmacológicas e intervenções psicossociais para o paciente e seus familiares… No campo do tratamento farmacológico, inúmeras substâncias psicoativas têm sido propostas para preservar ou restabelecer a cognição, o comportamento e as habilidades funcionais do paciente com demência. Contudo, os efeitos das drogas hoje aprovadas para o tratamento da DA limitam-se ao retardo na evolução natural da doença, permitindo apenas uma melhora temporária do estado funcional do paciente.
Os inibidores das colinesterases (I-ChE) são as principais drogas hoje licenciadas para o tratamento específico da DA. Estes são a Tacrina, o Donepezilo, a Rivastigmina e a Galantamina.
Devido à Tacrina necessitar de 4 tomas diárias e ao seu elevado risco de hepatotoxicidade, fez com que este fármaco caísse em desuso.
Mais recentemente, embora tenha surgido nos anos 90, passou a ser usada a memantina que atua na neurotransmissão glutamatérgica que, assim como a colinérgica, encontra-se alterada nessa doença.4

Para além destes fármacos, específicos no tratamento da doença de Alzheimer, outros são necessários para tratamento de sintomas que vão surgindo, como a insónia, a agitação, a agressividade.
O tratamento destes aspectos deverá ser cauteloso, já que os fármacos disponíveis têm outros efeitos que podem prejudicar a saúde do doente e agravar a sua perda de capacidade intelectual. O papel do cuidador é aqui muito importante, pois pode, para além de estimular o doente, fazendo uma reabilitação cognitiva caseira, evitar estes sintomas.5

Caso Clínico
Neste capítulo irá ser descrito o caso clínico em estudo expondo os dois episódios de internamento, da doente em causa, que se sucederam no mês de Fevereiro e Março de 2013. A doente de acordo com a escala Fast proposta por Reisberg encontra-se no nível 6d pois, para além de ser dependente total nas atividades de vida diária, já apresenta incontinência urinária.

Primeiro Internamento
AP, doente do sexo feminino, de 82 anos, com doença de Alzheimer, deu entrada no hospital, no dia 17 de Fevereiro de 2013, por diminuição do volume de urina e a filha refere ainda maior prostração que a habitual e hipotermia. Nega tosse ou expetoração ou queixas gastrointestinais (Segundo Informação Colhida (SIC)). Doente acamada há cerca de um ano e só faz levante para o cadeirão com ajuda total. É mãe de sete filhos vivos pois, teve um filho do sexo masculino que morreu com 11 meses de idade (ver Anexo 1). A doente, segundo a filha, é comunicativa, pouco colaborante e dependente total para todas as atividades de vida diárias. Quando chegou ao hospital vinha consciente, prostrada e não reativa a estímulos dolorosos.

1. MOTIVO DE ADMISSÃO
Houve vários motivos para a admissão desta doente no Serviço de Urgência cujos diagnósticos foram:
– Diagnóstico de admissão: Rabdomiolise;
– Diagnóstico principal: Pneumonia;
– Diagnóstico secundário: Insuficiência Renal Crónica;
– Diagnóstico secundário: Infecção do trato urinário;
– Diagnóstico secundário: Hipotermia;
– Diagnóstico secundário: Fibrilhação Auricular com resposta ventricular lenta.

2. HISTÓRIA CLÍNICA
Antecedentes:
– Acamada há cerca de 1ano, alterna cama/cadeirão;
– Demência de Alzheimer;
– Insuficiência Cardíaca Congestiva;
– Fibrilhação Auricular crónica não hipocoagulada.

EVOLUÇÃO DURANTE O INTERNAMENTO E ESTADO CLÍNICO DO DOENTE NA ALTA
Doente com evolução favorável.

TERAPÊUTICA PROPOSTA
– Triflusal Generis 1cp de 12/12h;
– Lisinopril GP 20mg ½ cp às 9h;
– Donepezilo Alter 5mg 1cp/dia

INSTRUÇÕES DE FOLLOW UP
Alta para o domicílio, no dia 28 de Fevereiro de 2013.
– Foi suspensa lanoxin MD por bradicardia. No dia de alta FC: 64pm.
– Foi suspenso lasix por desidratação.
– A medicação neuropsiquiátrica (bromazepam, trazodone, lamotrigina) foi suspensa pela prostração apresentada. Deve ser reintroduzida gradualmente e segundo a necessidade da doente, a reavaliar pelo médico de família e neurologista/psiquiatra.

Segundo Internamento

AP, doente do sexo feminino, de 82 anos, com doença de Alzheimer, deu entrada no hospital, no dia 14 de Março de 2013, por Sépsis com ponto de partida provável urinário com disfunção multiorgânica. Quando chegou ao hospital vinha em estado comatoso, com hipotermia de 30ºC, não reactiva a estímulos dolorosos nem verbais. Durante o internamento, subida da troponina, sem alterações electrocardiográficas até valores de 0,592, com posterior normalização e foi identificada uma falência multiorgânica (cardiovascular, renal, neurológica).
MOTIVO DE ADMISSÃO
O motivo para a admissão desta doente no Serviço de Urgência foi Sépsis e cujos diagnósticos identificados foram:
– Diagnóstico principal: Coque Séptico, com ponto de partida urinário;
– Diagnóstico secundário: Insuficiência Renal Aguda;
– Diagnóstico secundário: Insuficiência Cardíaca Congestiva;
– Diagnóstico secundário: Doença de Alzheimer;
– Diagnóstico secundário: Cistite Aguda;
– Diagnóstico secundário: Fibrilhação Auricular.

HISTÓRIA CLÍNICA

Antecedentes:
– Doença de Alzheimer, acamada há mais de 1ano, totalmente dependente nas AVDs;
– Insuficiência Cardíaca;
– Fibrilhação Auricular permanente;
– Internamentos anteriores:
» Outubro de 2011: Infecção do trato urinário por Escherichia coli multissensível e desidratação;
» Fevereiro de 2013: Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC) direita (ceftriaxone + azitromicina); terá suspenso digoxina por bradicardia.

INTERVENÇÕES TERAPÊUTICAS
– Promovido o aquecimento corporal;
– Iniciada antibioterapia empírica com piperacilina/tazobactam;
– Colocada de sonda vesical;
– Diurese mantida ao longo de todo o internamento;
– Proposta aos familiares de institucionalização da doente num lar com condições para doentes com doença de Alzheimer;
– Ajuda total em todas as AVDs.

TERAPÊUTICA PROPOSTA
– Ácido acetilsalicílico 100mg 1cp após almoço;
– Trifusal Mylan 300mg 1cp/dia;
– Carvedilol Sandoz 6,25mg ½ cp de 12/12h;
– Nitroglicerina (Nitradisc) 5mg 1 das 8h às 22h;
– Risperidona Cinfa 1mg 1cp ao deitar;
– Ramipril + Hidroclorotiazida Mylan 2,5mg + 12,5mg 1cp/dia;
– Donepezilo Labesfal 5mg 1cp/dia.

INSTRUÇÕES DE FOLLOW UP
Alta para o domicílio, no dia 27 de Março de 2013.
– Dieta meio sal.
Na descrição do caso clínico a informação aqui exposta foi feita através da informação obtida nas notas de alta e através de questões colocadas a uma das irmãs da doente, por esta ser a pessoa que mais acompanhou a doente durante os internamentos e, consequentemente, ser a pessoa da família que tem mais informação sobre os internamentos que possa facultar para a realização deste trabalho.

Conclusão
Com o desenrolar deste trabalho de Estudo de Caso, foram identificados vários aspetos a ter em conta na intervenção do enfermeiro, no que respeita às necessidades da pessoa com demência, neste caso particular com doença de Alzheimer, de modo a maximizar a qualidade de vida, conforto, dignidade e autonomia, conforme a fase da doença em que o doente se encontra. As intervenções identificadas incluem o uso de antibioterapia, bem como outros aspetos relevantes, apesar de a doente já estar numa das fases mais avançadas da doença, sendo já uma doente para cuidados paliativos. Assim, torna-se pertinente a elaboração de um plano com as intervenções de enfermagem segundo as necessidades que a doente apresentou, fazendo também referência às intervenções que lhe foram prestadas.
Parti da evidência científica existente e atual da informação que recolhi durante as pesquisas que efetuei para a elaboração do quadro de intervenções no âmbito de enfermagem para doente com doença de Alzheimer. O objetivo principal deste estudo de caso era a criação do quadro de intervenções de enfermagem à pessoa com doença de Alzheimer, para que a prática de cuidados de enfermagem e, consequentemente, de saúde seja cada vez mais baseada na evidência científica. Este trabalho de prática baseada na evidência, e muitos outros que têm vindo a ser feitos, vêm contribuir para este aspeto importante de procurar basear as nossas intervenções em evidência comprovada cientificamente, caminhando progressivamente para uma prática com mais qualidade.
Assim concluí que se trata de informação importante para o contexto de trabalho, na medida em que contactamos frequentemente com este tipo de situações clínicas. Tal permite uma abordagem mais segura e eficaz deste desafio com melhores cuidados ao utente e de forma a maximizar a qualidade de vida, o conforto e a promoção da dignidade do doente.

Referências Bibliográficas

1. Caldeira, Ana Paula S. & Ribeiro, Rita de Cássia H.M. (2004). O enfrentamento do cuidador do idoso com Alzheimer. Arq Ciênc Saúde, p. 3.
2. Caramelli, Paulo & Barbosa, Maira Tonidandel (2002). Como diagnosticar as quatro causas mais frequentes de demência?. Rev Bras Psiquiatr, p. 8.
3. Engelhardt, Eliasz, et al. (2005). TRATAMENTO DA DOENÇA DE ALZHEIMER. Recomendações e sugestões do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia. Arq Neuropsiquiatr, p. 1106.
4. Forlenza, Orestes V. (2005). Tratamento farmacológico da doença de Alzheimer. Rev. Psiq. Clín. 32 (3), p. 139, 140.
5. Garrett, Carolina (2007). ALZHEIMER. Lisboa: Quidnovi, p. 33, 34, 36, 37, 40, 45, 48, 77, 78, 85, 86, 91, 92.
6. http://grupo4te.com.sapo.pt/mie2.html, consultado a 15/05/13.

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Feb 25, 2014

APPROACH OF THE GOUT WOUND
ENFOQUE EN LA HERIDA GOTOSA

Autores
José Marques1, Magda Narciso 2
1 Enfermeiro, Serviço de Urgência, CHO – Caldas da Rainha, 2 Enfermeira, Serviço de Ginecologia / Obstetricia, CHO – Caldas da Rainha
Corresponding Author: zecostamarques@hotmail.com

RESUMO
A gota é um tipo de artropatia inflamatória caracterizada pela acumulação de ácido úrico nas articulações. É uma patologia comum, ocorrendo em mais de 1% da população mundial. A sua incidência ocorre no sexo masculino, sendo que os estilos de vida pouco saudáveis, a diabetes, a hipertensão arterial, e a hiperlipidemia são os principais responsáveis pelo aparecimento da doença.
A gota pode-se desenvolver em vários estadios. Na fase mais grave em que a gota se torna crónica, há acumulação de ácido úrico no tecido subcutâneo, formando os tofos gotosos que podem ulcerar.
No tratamento da ferida gotosa o enfermeiro tem um papel fulcral, uma vez que é essencial que conduza o cliente a mudar o estilo de vida e que conheça o material de penso adequado à cicatrização da úlcera tendo por base a ferramenta TIME.
PALAVRAS-CHAVE: Ferida, Gota, Diagnóstico, Tratamento
Abstract
Gout is an inflammatory arthritis caused by elevated levels of uric acid in the blood. The uric acid crystallizes and it’s accumulated in the joints. This disease affects 1% of the population worldwide and it affects mostly the male gender and people with unhealthy lifestyles however diseases such as diabetes, hypertension and hyperlipidemia can also be responsible for the appearance of gout.

Gout can develop in several stages, in the more severe cases gout becomes chronic and progressive and it can also accumulate uric acid in the subcutaneous tissues forming gouty tophi that can ulcerate.

In relation to the treatment nurses play a fundamental role in appealing to the patient to change the lifestyle as well as becoming aware of the right dressing materials for the healing of the ulcer, based on the TIME tool.

KEYWORDS: Wound, Gout, Diagnosis, Treatment

Introdução

A gota é muitas vezes considerada uma “doença dos reis”, por estar relacionada com o estilo de vida excessivo. Hoje, mais de 1% da população europeia e dos EUA apresentam gota, no entanto a ulceração de tofos gotosos ainda permanece incomum1.

O artigo tem como principais objetivos, dar a conhecer a ferida de etiologia gotosa e possíveis materiais de penso disponíveis no mercado a aplicar nas diversas etapas da cicatrização.

Este artigo está estruturado numa parte teórica em que será abordado a definição, complicações e tratamento da gota. Posteriormente será apresentado um estudo de caso onde se irá descrever os vários tratamentos implementados segundo a ferramenta TIME, como estratégia de gestão destas feridas gotosas.

As doenças reumatológicas são o grupo de doenças mais prevalentes, afetando quase 40% dos portugueses. Constituem a primeira causa de consulta médica nos cuidados de saúde primários e o principal motivo de invalidez, estando na maioria das reformas antecipadas por doença, sendo ainda as maiores responsáveis pelo absentismo ao trabalho, e situam-se num lugar cimeiro no que respeita a custos saúde quer diretos quer indiretos2.

Estas doenças podem ser agudas, ou crónicas, atingem indivíduos de todas as idades, são causa frequente de incapacidade por afetarem o sistema músculo-esquelético e manifestarem sintomas como: a dor, tumefação e rigidez articular, limitação da mobilidade, e fadiga. Quando não são diagnosticadas e tratadas corretamente podem provocar graves repercussões físicas, psicológicas, familiares sociais e económicas2.

Existem seis tipos de artropatias inflamatórias, contudo apenas irá ser abordada a artropatia microscristalina – a gota2.

As artropatias microcristalinas caracterizam-se pelo depósito de microcristais nos tecidos, evoluem com episódios periódicos de crises inflamatórias articulares ou periarticulares agudas, sendo as mais frequentes a gota úrica e a doença por cristais de hidroxiapatite2.

A gota é definida como um tipo de artrite que resulta da acumulação de ácido úrico nas articulações. O ácido úrico está entre as substâncias naturalmente produzidas pelo organismo. Surge como resultado da decomposição das moléculas de purina (proteína contida em muitos alimentos: carnes vermelhas e de caça, enchidosmariscos, feijão, grão, ervilhas). Normalmente, o ácido úrico, permanece no sangue e o restante é eliminado pelos rins. Quando o organismo aumenta a sua produção ou diminui a sua excreção, surgem níveis elevados de ácido úrico no sangue – a hiperuricemia. A gota resulta, assim, da reação inflamatória dos cristais de ácido úrico nos estados de hiperuricemia2.
É uma patologia mais frequente nos homens (surgindo após os 40 anos no homem, e com um valor de ácido úrico> 7mg/dl) do que nas mulheres (surgindo após os 60 anos e com um valor de ácido úrico> 6mg/dl), e afeta indivíduos que apresentam: estilos de vida pouco saudáveis (consumidores assíduos de alimentos ricos em purinas e bebidas alcoólicas), excesso de peso, hipertensão arterial, diabetes mellitus, hiperlipidémia, doença cardiovascular, renal e tiroideia, e síndrome metabólico (caraterizado por hipertensão arterial, níveis elevados de insulina, gordura abdominal). O uso de alguns diuréticos (furosemida e hidroclorotiazida) que aumentam os níveis de ácido úrico e alguns fatores genéticos (como doenças hereditárias metabólicas) são também fatores de risco para o aparecimento da doença3,4.
A gota pode manifestar-se em quatro fases: fase 1 – hiperuricemia, é assintomática,ocorre devido ao excesso de produção de ácido úrico; fase 2 – gota articular aguda, surge devido à acumulação de ácido úrico nas articulações, provoca dor súbita, intensa, lancinante e de carácter pulsátil, inflamação e rigidez da articulação afetada; os sinais e sintomas surgem geralmente durante a noite e por vezes acompanham-se de alterações do estado geral e febre, podem persistir até 21 dias. As articulações mais atingidas são: as primeiras metafalanges, tarso, tibiotársica e joelho. Fase 3 – gota antecrítica, período durante o qual, o individuo afetado é assintomático; e fase 4 – gota crónica, desenvolve-se após vários anos (10 anos) de gota articular aguda recorrente e não tratada, é o estadio mais grave da doença, uma vez que há acumulação de ácido úrico no tecido subcutâneo (tofos), nas articulações (artropatia gotosa) e nos rins. O envolvimento renal (litíase renal e insuficiência renal) pode tornar-se grave e condicionar o prognóstico vital dos doentes pelo risco de insuficiência renal crónica irreversível. Nesta fase as articulações mais afetadas são os pavilhões auriculares, cotovelos, pés (hallux, dorso do pé e calcanhar) e mãos (interfalângicas distais), que ocasionalmente podem ulcerar5.
Os sintomas de uma articulação gotosa (Fig.1) incluem: dor severa, sensibilidade extrema, inchaço, rubor, calor, febre, calafrios e sensação de mal-estar4.
O tratamento deve incluir, medicamentos que proporcionem alívio sintomático da dor e inchaço (mas não diminuem o nível de ácido úrico) como os AINE’s (anti-inflamatórios não esteróides – por exemplo ibobrufeno e o naproxeno) que são de atuação rápida e são considerados tratamento de primeira linha. A colchicina é uma alternativa eficaz aos AINE’s e mais benéfica quando administrada nas 24 horas após uma crise aguda, tem como principais inconvenientes a diarreia e a necessidade de adaptação posológica na insuficiência renal. Os corticosteroides sistémicos ou intra-articulares podem ser utilizados quando os AINE’s e a colchicina são ineficazes ou contraindicados, e estão indicados apenas para tratamentos locais. O tratamento deve também incluir a utilização de agentes que reduzam os níveis séricos de ácido úrico e previnam a formação deste como o alopurinol. Este fármaco nunca deve ser iniciado antes de decorridas três semanas após a crise aguda, e deve ser instituído para toda a vida. O alopurinol é bem tolerado, mas podem surgir efeitos adversos graves: intolerância e hipersensibilidade, hepatopatia e complicações neurológicas e hematológicas2,3.

Além do tratamento farmacológico é necessário que o utente adquira um estilo de vida saudável que lhe permita reduzir as complicações da gota. Deve reduzir ou eliminar o uso de diuréticos de ansa, se possível; otimizar o peso através de uma dieta saudável restrita em alimentos ricos em purinas e bebidas alcoólicas, evitar a desidratação ingerindo 2L de água diários; aumentar a ingestão de produtos lácteos com baixo teor de gordura5. O individuo deve ser ensinado a elevar e imobilizar correctamente a articulação,a realizar alguns períodos de repouso diário, a usar roupas macias e hidratar a pele com creme hidratante6.
A cicatrização de uma ulceração gotosa representa um grande desafio para os enfermeiros que executam o tratamento de feridas, uma vez que os indivíduos que apresentam esta patologia trazem associados à doença inúmeras co-morbilidades (já mencionadas anteriormente) que vão dificultar o tratamento da ferida.

Os tofos gotosos podem também apresentar uma conduta para a infeção microbiana do espaço articular subjacente e os envolvidos, com risco de osteomielite1.

Deste modo, todos os doentes com ulcerações gotosas requerem uma adequada anamnese e uma avaliação cuidadosa da circulação periférica, e de um índice de pressão tornozelo-braço1.

ESTUDO CASO

Utente do sexo masculino de 42 anos, independente nas atividades de vida diária, com cerca de 80 kg, com antecedentes pessoais de gota e medicado com terapêutica antigotosa, que não cumpria. Refere maus hábitos alimentares sendo consumidor assíduo de bebidas alcoólicas, principalmente cerveja, carnes de caça, de porco, e borrego.

Foi internado no Hospital Distrital de Santarém a 3 de Maio de 2013, após ter desenvolvido uma ferida gotosa na região retro maleolar externa do pé esquerdo.

Teve alta clinica a 17 de Maio de 2013, com consulta marcada para observação da ferida pelo médico responsável e terapêutica: omeprazol 20 mg (1cp. jantar), vitaminex (1cp. almoço) alopurinol 300 mg (1cp. jantar) e furosemida (1cp. pequeno almoço e 1cp. ao jantar).
Para uma correta abordagem da ferida foi utilizada a ferramenta TIME que recentemente foi proposta ser substituída pela sigla DIME por alguns grupos, para enfatizar o benefício do desbridamento frequente da ferida (combate de bioflimes)7. Como forma de medição da ferida recorreu-se à fotografia digital associada ao comprimento x altura com recurso à régua. Assim, o tratamento foi iniciado 21/05/2013 com poliacrilato com solução de Ringer com execução de penso diário durante 4 dias associado a limpeza da ferida com solução de polihexanida com betaína e protecção da pele perilesional com película polimérica.
A ferida apresentava tecido inviável (fibrina com coágulos de sangue e tecido de hipergranulação), exsudado sero hemático em pequena quantidade, bordos cianosados e uma área ≈ 16,77cm2. Realizado desbridamento mecânico aos tofos gotosos da ferida, com saída visível de cristais de ácido úrico. Esta técnica segundo o utente foi dolorosa, referindo ter uma dor nível 7 (na escala numérica de avaliação da dor), por isso, fez analgesia 30 minutos antes da execução do penso. Ao final dos 4 dias a área da ferida passou para ≈ 13,32cm2, acompanhada de tecido de granulação e epitelização viável com exsudado seroso em pequena quantidade, e com diminuição significativa da quantidade de tofos gotosos.Como penso secundário utilizámos desde o início até ao final uma espuma de poliuretano para um adequado controle do exsudado (M).
Após a abordagem do desbridamento (D) prosseguimos o tratamento com combate de possível biofilme (I) com matriz de alginato de prata iónica em pasta durante 15 dias associado com solução polihexanida com betaína (utilizada durante 20 dias). No final deste período a ferida apresentava uma área de ≈ 7,48cm2.
Em seguida, para efetuar uma adequada estimulação da epitelização (I) foi iniciado tratamento ácido hialurónico com iodo em gel, tendo a ferida epitelizado totalmente ao final de 15 dias de tratamento.

Atualmente o utente mantém terapêutica com alopurinol 300 (1cp. jantar), furosemida (1cp. jejum) anti-inflamatório não esteroide (1cp. almoço, 1cp. jantar), devido há permanência do edema no pé. Foram realizados ensinos sobre estilo de vida saudável como: alimentação saudável, diminuição do consumo de bebidas alcoólicas e manutenção de um peso adequado à estatura.

CONCLUSÕES

Constatámos que poliacrilato com solução de Ringer é um excelente hidratante para a libertação dos tofos gotosos. O que vai ao encontro de outros estudos em que foram utilizados hidrogéis associado ao desbridamento como forma de hidratação e remoção dos tofos gotosos1. Foi evidente que os tofos gotosos dificultavam a formação de tecido de granulação.
Utilizámos pela primeira vez o alginato com prata em pasta e verificámos elevada eficácia da prata nesta apresentação, redução muito rápida dos sinais de infeção e necessidade de menores aplicações. Este produto interrompe o funcionamento de enzimas e proteínas importantes para o desenvolvimento bacteriano, danifica diretamente a estrutura da parede celular das bactérias e interfere com o seu ADN e ARN, interrompendo assim a produção de proteínas e a divisão celular8. Este efeito foi potenciado com utilização em simultâneo da solução polihexanida com betaína para remoção de eventual biofilme no leito da ferida e limpeza dos detritos da ferida.
Por fim, a utilização do ácido hialurónico com iodo, o mais recente produto de estimulação da epitelização, permitiu reproduzir o ambiente natural de cicatrização, promovendo uma rápida e total epitelização da ferida gotosa.

De salientar, que embora recomendando a utilização da avaliação do índice tornozelo-braço este não foi efetuado pela inexistência deste equipamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1) PATEL, GK ET AL (2010) – Ulcerated tophaceous gout. Internacional Wound. Vol. 7.
2) CARDOSO, A. ET AL (2005) – Regras de Ouro em Reumatologia. Direcção-Geral da Saúde. ISBN 972-675-122-5;
2) SCHUB, T.; BOLING, B. (2013) – Gout (quick lesson). Nursing Reference Center by EBSCO. Acedido a 26 de Junho 2013. Disponível em:http://search.ebscohost.com/login.aspx?direct=true&db=rzh&AN=5000000184&site=ehost-live;
3) ALAN, R.; RANDALL, B. (2013) – Conditions in Depth: Gout. Health Library. Acedido em 26 de Junho. Disponível em http://web.ebscohost.com/nrc/detail?sid=0771f989-7bf8-43ea-9b7d-da0d577f4703%40sessionmgr113&vid=8&bk=1&hid=26&bdata=JnNpdGU9bnJjLWxpdmU%3d#db=nrc&AN=2009577502
4) CAPLE, C. (2012) – Gout: Preventing a Recurrent Attack. Nursing Reference Center by EBSCO. Acedido a 26 de Junho 2013. Disponível em: http://web.ebscohost.com/nrc/pdf?vid=4&sid=3db29922-7d06-46a2-a7d7-43e443ad56bf%40sessionmgr110&hid=126;
6) MARCEL, Cherie (2013) – Gout: Diet Therapy. Acedido em 26 de Junho. Disponível em http://web.ebscohost.com/nrc/detail?vid=4&sid=0771f989-7bf8-43ea-9b7d0d577f4703%40sessionmgr113&hid=124&bdata=JnNpdGU9bnJjLWxpdmU%3d#db=nrc&AN=T901399;
5) SCHULTZ, G.; DOWSETT, C. (2012) – Technology update: Wound bed preparation revisited. Wounds International. Vol. 3;
6) OPASANON S, ET AL (2012) – Askina® Calgitrol® Made Easy. Wounds International Vol. 3. Disponível em http://www.woundsinternational.com.

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Feb 24, 2014

A revista “Journal of aging and Innovation” tem ultrapassado todas as expectativas, como aliás, tem sido frequente com as várias iniciativas da Associação Amigos da Grande Idade.

Tendo aparecido numa área extraordinariamente exigente, como é a área da investigação e do conhecimento científico, tem vindo a impor-se, de uma forma sustentada, como uma publicação de interesse geral para todos os profissionais, preocupados com as questões sociais e de saúde da sociedade. Granjeou já um interesse muito diversificado e isso é significativamente demonstrado pelos acessos que temos como indicadores de consulta.

A sua curta vida e o interesse que despertou não deixa de nos demonstrar mais uma vez o vazio que existe na área do envelhecimento no que respeita á produção de conhecimento e de evidência, especialmente de uma forma inovadora que se deseja e mesmo Sem Título.png os preconceitos que persistem e teimam em impedir o desenvolvimento de muitas ideias e projectos.

Temos vindo a percorrer o caminho da construção de uma publicação que, temos a certeza, será uma referência nacional e internacional. É já referenciada em algumas bases de dados e infelizmente não o é em algumas dado o corporativismo que as mesmas gostam de manter, de olhos fechados e de costas voltadas a uma realidade que está em movimento e que fará com que os menos capazes fiquem para trás. O envelhecimento da sociedade e os fenómenos que o mesmo encerra deixarão pelo caminho muitos dos estruturadores de opinião feita, arrogante e pouco interessante do ponto de vista prático que nada contribui para uma sociedade melhor.

Esta publicação traz também hoje a divulgação das comunicações livres do Congresso Nacional da Grande Idade, um grande evento realizado pela Associação Amigos da Grande Idade e que marcou o ano de 2013, tal a relevância do acontecimento.

As comunicações livres destacaram-se pela enorme qualidade das mesmas e durante 3 dias foram apresentadas interruptamente por um conjunto de técnicos das mais variadas áreas académicas e profissionais, que tiveram oportunidade de apresentar os seus trabalhos. Estes trabalhos podem ser consultados nesta edição da revista e serão decerto instrumentos de muita importância para todos os que trabalham no envelhecimento e que dedicam o seu tempo a tornar esta fase da vida de todas as pessoas, mais feliz e mais conseguida.

A Associação tem conseguido manter um ritmo de trabalho que muito surpreende, mas que ao mesmo tempo se torna motivador para todos os que seguem esse trabalho e por todos os que sonham que podem influenciar mudanças na nossa sociedade.

A atividade formativa da associação representa cada vez mais uma referência nacional na gestão dos equipamentos destinados a pessoas idosas e a influência que começamos a pressentir necessita apenas de mais pessoas a acreditarem que envelhecer em Portugal não é obrigatoriamente um drama próprio das pessoas mais carenciadas e dependentes.

Anuncia-se para este ano novas dinâmicas da associação, cujo pilar central irá ser a doença crónica, o envelhecimento e a sustentabilidade. A Associação é ambiciosa e pretende demonstrar que, através do estudo profundo de algumas situações, pode influenciar a introdução de novas políticas e novos modelos de intervenção.

Terminado 2013 e fechado todo o processo que  colocou de pé o grande Congresso Nacional, vamos agora passar ao trabalho de campo, aprofundar conhecimento, propor inovação.

Rui Manuel dos Santos Fontes – Presidente da Direção da Associação Amigos da Grande Idade – Inovação e Desenvolvimento.

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