Mar 11, 2013

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NURSING OUTCOME IN THE PERSON WITH NONINVASIVE VENTILATION AT HOME

RESULTADOS SENSIBLES EN LA ATENCIÓN DE ENFERMERÍA EN LA PERSONA SOMETIDA A VENTILACIÓN NO INVASIVA EN CASA

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AUTORES: Ana Correia, Clara Freitas, Cláudia Pereira, Fátima Ferreira

RESUMO

Objetivo: Demonstrar os resultados sensíveis aos cuidados de enfermagem à pessoa com VNI no domicílio.

Metodologia: Efetuada pesquisa na EBSCO (na CINAHL Plus with Full Text, MEDLINE with Full Text, British Nursing Index). Foram procurados artigos em texto integral (Janeiro / 2012), publicados entre 2002 e 2011. Foi utilizado o método de PI[C]O e selecionados 10 artigos do total de 98 encontrados.

Resultados: Foram identificados indicadores de necessidades de cuidados que poderão condicionar a adesão à VNI no domicílio a que foram associados variáveis de resultados sensíveis aos cuidados de enfermagem como: controle de sintomas, segurança / ocorrências adversas, apoio psicológico, utilização dos serviços de saúde, gestão do regime terapêutico e qualidade de vida.

Conclusões: O doente submetido a VNI devidamente apoiado pelos enfermeiros, resolve melhor as complicações inerentes ao tratamento refletindo-se na redução de internamentos hospitalares assim como uma maior estabilização clínica e melhor qualidade de vida no domicílio.

Implicações na prática profissional: Necessidade de formação inicial e contínua dos enfermeiros.

Palavras-chave: Ventilação mecânica não Invasiva (VNI), Resultados sensíveis aos cuidados de enfermagem, Cuidados de Enfermagem.

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ABSTRACT

Objective: To demonstrate the results sensitive to nursing care to people with NIV at home.

Methodology: The research was carried out in EBSCO (CINAHL Plus with Full Text, MEDLINE with Full Text, British Nursing Index). Articles were searched in full text (January/2012), published between 2002 and 2011. We used the method of PI [C]O and selected 10 items of total 98.

Results: Indicators of care needs that may restrict the adherence to the NIV at home were identified and associated with nursing outcome variables such as symptom management, adverse patient outcomes, psychological support, healthcare utilization, management of therapeutic regimen and quality of life.

Conclusions: The patient receiving NIV duly supported by nurses, best solves adverse outcomes of the treatment being reflected in reduced hospital admissions and greater clinical stability and better quality of life at home.

 Implications for practice: The need for initial and continuing training of nurses.

 Keywords: Noninvasive mechanical ventilation (NIV), Nursing Outcome and Nursing Care.

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INTRODUÇÃO

A ventilação não invasiva tem um papel cada vez mais importante quer em patologia aguda, quer na doença respiratória crónica (Ferreira, 2009). Evita a entubação endotraqueal e consequentemente os riscos associados, como por exemplo lesões da via aérea e pneumonias (Prado, 2008).

 Por ser fácil de instituir e de retirar, pode ser efetuada fora de uma unidade de cuidados intensivos, levando assim a uma diminuição do tempo de internamento hospitalar, da mortalidade e uma diminuição dos custos (Ferreira, 2009). O seu uso em doentes crónicos demonstrou benefícios fisiológicos que levaram à diminuição de necessidade de hospitalização e aumento da sobrevivência (Chang, 2010).

De acordo com a Canadian Thoracic Society (2011) os cuidados de saúde continuam a evoluir, sendo mais sofisticados, permitindo utilizar a tecnologia médica fora do ambiente hospitalar tradicional. Fatores como as preferências do doente e família, tecnologia de fácil manuseamento, escassez de camas a nível de internamento e a pressão económica sobre orçamentos hospitalares têm influenciado a transição de cuidados hospitalares para os cuidados na comunidade.

Em Portugal, o Relatório de Situação de Cuidados de Saúde Respiratórios Domiciliários publicado em 2010 refere que as doenças respiratórias crónicas graves, as perturbações respiratórias do sono e as doenças neuromusculares afetam mais de um milhão de doentes, sendo que no controlo clínico destas doenças estão indicadas a oxigenoterapia e ventiloterapia domiciliárias. A despesa do Sistema Nacional de Saúde com os Cuidados Respiratórios Domiciliários é da ordem dos 55,5 milhões de euros anuais, sendo que mais de 50% deste valor é referente à ventiloterapia. Os estudos disponíveis indicam claramente que a adesão dos doentes é muito baixa em virtude da falta de esclarecimento e supervisão. São vários os fatores descritos associados à tolerância e consequente adesão à VNI (Schneider et al, 2006) e por isso, tal como no doente agudo tratado em meio hospitalar, o doente com VNI no domicílio necessita de monitorização de parâmetros clínicos, supervisão por parte de profissionais e formação contínua (Prado, 2008).

Quando se iniciou o uso da VNI, a sua implementação era realizada exclusivamente por médicos. No entanto, mais recentemente a Enfermagem tem vindo a assumir um papel de grande responsabilidade na gestão deste tratamento (Rose e Gerdtz, 2009). Considera-se primordial que os enfermeiros que cuidam destes doentes tenham conhecimento sobre como implementar o tratamento, avaliar a monitorização e sucesso da intervenção (Jarvis, 2006). Transmitir competência, empatia e cuidado com profissionalismo facilita a adesão à terapêutica através da diminuição do stresse, do aumento da cooperação e motivação do doente (Pertab, 2009).

De acordo com Prado (2008), o doente crónico com VNI apresenta menos exacerbações agudas e menos internamentos, tem maior capacidade de resposta a exacerbações e melhor qualidade de vida. O Relatório de Situação (2010) supracitado acrescenta que estes doentes têm melhor integração familiar e social, e ao mesmo tempo permite uma importante redução de custos hospitalares. A Canadian Thoracic Society (2011) acrescenta ainda que o uso da VNI no domicílio tem aumentado a qualidade de vida destes doentes.

Neste contexto consideramos primordial a realização desta Revisão Sistemática de Literatura de forma a permitir uma reflexão sobre esta problemática. A nossa experiência profissional tem-nos mostrado que muitos dos doentes com VNI domiciliária de longa duração quando são internados apresentam várias dificuldades que condicionam a adesão e o uso correto do tratamento, dificuldades estas que se prendem com condições socioeconómicas dos doentes e familiares, como por exemplo as condições habitacionais, apoio de familiares, dificuldade de acesso aos cuidados de saúde quer primários, quer diferenciados. Existe também por parte das empresas fornecedoras dos equipamentos uma escassez de informação e de manutenção dos mesmos, apesar de todas facultarem um acesso telefónico gratuito no sentido de esclarecimento de dúvidas. Durante a nossa experiência de visita domiciliária de enfermagem deparámo-nos com uma elevada taxa de analfabetismo e idades superiores a 65 anos o que condicionava a exposição de dúvidas tanto aos técnicos como aos enfermeiros (enfermeiro da visita domiciliária respiratória e enfermeiro do Centro de Saúde da área de residência do doente). Estas dúvidas consistiam essencialmente no manuseamento do equipamento, higiene e manutenção do mesmo e complicações inerentes à VNI, pelo que se verificava a necessidade de realizar ensinos à pessoa e cuidador.

Face ao exposto pretendemos com esta Revisão Sistemática da Literatura demonstrar os resultados sensíveis aos cuidados de enfermagem à pessoa com VNI no domicílio.

CONCEITOS

Segundo Esquinas (2011, p.47),

“Ventilação mecânica não invasiva (VMNI) corresponde à aplicação de suporte ventilatório através de máscara ou de outra interface sem recurso a via aérea artificial invasiva, nomeadamente tubo endotraqueal ou de traqueostomia”.

Segundo Doran (2011),

Resultados sensíveis aos cuidados de enfermagem são definidos como cuidados de enfermagem direcionados para as necessidades das pessoas ou grupo, nos seus determinantes da saúde, que têm por base fatores organizacionais, de experiência, e o nível de conhecimento elevado, com impacto direto no estado funcional, auto cuidado, controle de sintomas, segurança/ocorrência adversas e satisfação do cliente. Desenvolvem-se na mesma estrutura de qualidade proposta por Donabedian (2003) e está relacionada com variáveis do cliente (idade, género, educação, tipo e adversidade da doença e co morbilidades) variáveis dos enfermeiros (nível de ensino, experiencia, rácios, organização e carga de trabalho). Este processo engloba as ações independentes (intervenções de enfermagem) e ações interdependentes (comunicação em equipa, coordenação de casos e sua gestão).

Segundo Dalpezzo (2009),

Cuidados de Enfermagem consistem na prestação de cuidados com segurança, qualidade, ética e colaboração através de um processo individualizado, o qual é planeado e concebido com base nas melhores evidências disponíveis, cujos resultados nos doentes se revelam positivos, em relação à otimização da saúde, redução dos sintomas ou na preparação de uma morte pacífica.

METODOLOGIA

Para delimitar um vasto campo de hipóteses inerentes à problemática da VNI e a responder ao objetivo delineado, elaborou-se a seguinte questão de partida, que atende aos critérios do formato PICO (Melny e Fineout-Overholt, 2005): Em relação à pessoa submetida a VNI (Population), quais as variáveis de resultados sensíveis aos cuidados de enfermagem (Outcomes), com a visitação domiciliária (Intervention)?

Por conseguinte, ao se definir o objeto alvo de estudo e ao se pretender uma compreensão mais ampla deste fenómeno foi levada a cabo uma pesquisa em base de dados eletrónica, na EBSCO em geral e, em particular na CINAHL Plus with Full Text, MEDLINE with Full Text, British Nursing Index). As palavras-chave orientadoras utilizadas foram (Positive Pressure Ventilation OR Continuous Positive Airway Pressure OR noninvasive ventilation) AND (nursing intervention OR nursing OR nurse) AND (HOME care services OR HOME care services OR NURSING care facilities).

Guyatt e Rennie (2002), consideram que as revisões sistemáticas da literatura devem considerar a evidência dos últimos 5 anos, no entanto consideramos o período temporal de 10 anos pelo facto da maior abrangência face ao conhecimento existente sobre a matéria em análise. Para avaliarmos os níveis de evidência utilizamos seis níveis de evidência: Nível I: revisões sistemáticas (meta análises/ linhas de orientação para a prática clínica com base em revisões sistemáticas), Nível II: estudo experimental, Nível III: estudos quasi experimentais, Nível IV: estudos não experimentais, Nível V: estudo qualitativo/ revisões sistemáticas da literatura sem meta análise, Nível VI: opiniões de autoridades respeitadas/ painéis de consenso (Capezuti, 2008; Guyatt, e Rennie, 2002).

Como critérios de inclusão privilegiaram-se os artigos com base na problemática das pessoas submetidas a VNI, com recurso a metodologia qualitativa e/ou quantitativa ou revisão sistemática da literatura, que clarificassem quais os resultados sensíveis aos cuidados de enfermagem. Nos critérios de exclusão inseriram-se todos os artigos repetidos nas bases de dados, com data anterior a 2002 e todos aqueles sem correlação com o objeto de estudo. O percurso metodológico levado a cabo encontra-se exemplificado na seguinte figura.

Fig.1

De seguida são apresentados os 10 artigos selecionados que constituíram o substrato para a elaboração da discussão e respetivas conclusões.

APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

Q.1

DISCUSÃO DOS RESULTADOS

Como resultado da análise dos artigos anteriormente referenciados é possível denotar que os doentes submetidos a VNI apresentam necessidades de cuidados que poderão condicionar a sua adesão no domicílio e que consideramos passíveis de associar a seis das variáveis identificadas por Doran (2011): controle de sintomas, segurança / ocorrências adversas, apoio psicológico, utilização dos serviços de saúde, gestão do regime terapêutico e qualidade de vida.

Na gestão do regime terapêutico, a seleção do interface utilizado na VNI é considerada por Schneider et al (2006) num estudo prospectivo e randomizado, um dos fatores mais importantes associados à adesão ao tratamento, sua tolerância e eficácia. O mesmo autor salienta que a interação entre enfermeiro e doente é um fator determinante no sucesso da VNI. Stoltzfus (2006) acrescenta que o enfermeiro, em colaboração com a equipa multidisciplinar deve avaliar o tipo de máscara que o doente poderá tolerar melhor. De Silva (2009) baseado em Shee e Green (2003) afirma que a máscara facial é geralmente a mais utilizada. No entanto os doentes reportam sentir desconforto e claustrofobia, que segundo Pertab (2009) pode levar a angústia, o que não acontece com a máscara nasal, permitindo um maior controle pessoal. Segundo Stoltzfus (2006) a máscara nasal permite falar ou vomitar sem risco de aspiração. Maciel, Silva e Teixeira (2009) citando Gonçalves e Pinto (2008) acrescenta que a máscara nasal é mais confortável permitindo expelir secreções, implicando a necessidade de colaboração do doente.

De Silva (2009) citando Hore (2002) refere que a máscara nasal é mais adequada a doentes com barba ou bigode, característica que pode aumentar a probabilidade de fuga de ar no uso da máscara facial. Contudo o seu uso é limitado em doentes com obstrução nasal (Antonelli e Conti, 2000 citado por De Silva, 2009).

A secura nasal e oral e a congestão nasal são complicações também mencionadas por Pertab (2009) e Rose e Gerdtz et al (2009), que podem ser solucionadas através de descongestionantes nasais e humidificação no ventilador. No entanto, Pertab (2009) considera que o uso da humidificação pode aumentar as fugas de ar tornando a VNI menos eficiente. Ainda a British Thoracic Society sugere que a humidificação deve ser usada com precaução porque interfere com os parâmetros do ventilador (De Silva, 2009).

Independentemente do interface usado, o ajuste da máscara deve considerar o conforto do doente, a redução de complicações, como a necrose da pele e controle de outros sintomas (De Silva, 2009 citando Hill, 2004).

De facto, a complicação mais referenciada pelos autores consultados prende-se com a possibilidade de ocorrer ulceração nasal (Pertab, 2009; De Silva, 2009;Rose e Gerdtz, 2009; Stoltzfus, 2006). Barbosa e Marques (2003) numa revisão sistemática de literatura, refere que esta é a complicação mais séria ocorrendo em aproximadamente 8 a 10% dos doentes. A maioria destes autores refere que esta complicação pode ser prevenida/tratada com apósito hidrocolóide, sendo que alguns também referem a importância da alternância dos pontos de pressão da máscara. Uma das causas referenciadas por Rose e Gerdtz (2009) para a ocorrência de ulceração nasal é a necessidade de apertar as tiras de fixação da máscara para que o ajuste seja eficiente com redução de fugas de ar. O facto de esta não ser corrigida está associado à ocorrência de conjuntivite e irritação ocular também descrita por Stoltzfus (2006).

Para Pertab (2009), numa revisão sistemática da literatura a distensão gástrica surge como uma das complicações associadas ao uso da VNI. Stoltzfus (2006) no seu estudo atribui a distensão gástrica e vómitos a elevadas pressões, podendo conduzir à broncoaspiração também referida por Barbosa e Marques (2003). Segundo Jarvis (2006), é importante informar os doentes como retirar rapidamente a máscara em caso de necessidade de vomitar. O mesmo autor refere ainda a possibilidade de recorrer ao uso de antieméticos na presença de náuseas.

Na sua revisão sistemática de literatura, Jarvis (2006) citando Sawkins (2001) alerta para outras complicações que incluem a desidratação e desnutrição. O mesmo autor refere um estudo de 1993 em que 25% dos pacientes com DPOC sofriam de desnutrição atribuída a numerosos fatores. A nutrição dos pacientes é considerada por este autor uma área fundamental dos cuidados de enfermagem que incluem intervenções como encorajar o paciente a comer às horas da refeição e remover a máscara nestes períodos, e se necessário, utilizar oxigénio por sonda nasal.

Sundling et al (2009) num estudo qualitativo alerta para a necessidade de o doente e cuidador terem conhecimentos técnicos sobre o manuseamento do ventilador, uma vez que situações não previstas podem levar a momentos de stresse. Maciel, Silva e Teixeira (2009) e Barbosa e Marques (2003) referem a importância de promover a correta manutenção e higiene do equipamento.

De acordo com Eng (2006) o envolvimento do doente nas decisões sobre o tratamento é considerado um fator importante na adesão ao mesmo. A informação e apoio psicológico ao doente e cuidador são considerados primordiais para reduzir a ansiedade e conseguir a autonomia do doente (Pertab, 2009), melhorando a sua qualidade de vida.

O sucesso da VNI depende de uma equipa treinada e experiente (Maciel, Silva e Teixeira, 2009), contribuindo para a redução do número de internamentos hospitalares (Eng, 2006), diminuição de mortalidade e morbilidade (Rose e Gerdtz, 2009) e diminuição de gastos hospitalares (Stoltzfus, 2006; Barbosa e Marques, 2003). Pertab (2009) considera essencial a relação e comunicação entre enfermeiro e doente e Barbosa e Marques (2003) acrescenta que o enfermeiro desempenha um papel importante na prevenção e resolução de complicações.

Tendo por base as variáveis definidas por Doran (2011) e considerando as necessidades de cuidados identificadas anteriormente, podemos inferir os resultados identificados no seguinte quadro:

Fig.2

CONCLUSÃO

Tendo por base o nosso objeto de estudo, realizámos uma análise dos artigos selecionados que nos remetem para os indicadores de necessidades, sendo resolvidos através de intervenções que se traduzem em resultados sensíveis aos cuidados de enfermagem.

Os artigos selecionados dão relevo à intervenção de enfermagem, associando o sucesso da VNI ao treino, experiencia e formação destes profissionais de saúde, pelo que a estes se exige uma prática profissional baseada na evidência e em linhas de orientação que elevem os cuidados prestados ao doente a um nível de excelência.

Como vimos anteriormente, o enfermeiro desempenha um papel importante na prevenção e resolução de complicações associadas à VNI, ação que no domicílio só é possível através de ensinos adequados e envolvimento do doente na gestão do seu tratamento. Tendo em conta que os doentes do foro respiratório são muito ansiosos e receiam sempre o pior, é importante que o enfermeiro estabeleça uma relação de empatia e demonstre competência no que diz respeito ao tratamento com VNI. Conseguindo a cooperação e motivação do doente, mais facilmente o sucesso da VNI será atingido.

Face ao exposto, um doente submetido a VNI devidamente apoiado pelos enfermeiros, resolve melhor as complicações inerentes ao tratamento refletindo-se na redução de internamentos hospitalares assim como uma maior estabilização clínica e melhor qualidade de vida no domicílio.

Implicações na Prática Profissional

Tendo em conta o crescente número de doentes com doenças respiratórias crónicas, o recurso à VNI fazendo parte do seu tratamento também tenderá a aumentar.

Consideramos ser importante a realização de novos estudos que evidenciem a necessidade de apoio destes doentes no domicílio, por enfermeiros e ainda a formação específica destes profissionais nesta área.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Jul 26, 2012

THE EXPERIENCES FROM THE CAREGIVER OF THE PERSON WHO IS SUBMITTED TO NIV AT HOME…

AUTORES: Sofia Vital

RESUMO

Nos últimos anos a ventilação não invasiva surge como opção para o tratamento de doenças pulmonares, apesar de pouco abordada na literatura. O objectivo é: identificar os benefícios/experiências do cuidador da pessoa submetida a VNI em contexto domiciliário. Através de uma metodologia com base na pesquisa no motor de busca da EBSCO, em duas bases de dados, a CINAHL Plus with Full Text e na MEDLINE with Full Text, British Nursing Index, pelo método de pergunta PI(C)O, foram seleccionados 9 artigos de um total de 22 encontrados, publicados entre Janeiro de 2006 e Novembro de 2011. Dos resultados encontrados verifica-se que estar dependente de respiração assistida durante o sono é de extrema importância na vida das pessoas, sendo que uma grande proporção escolhe ser cuidado em casa. Também é identificado uma melhoria na qualidade do sono e a possibilidade de estar em casa com as suas famílias, sendo o benefício mais notório a capacidade de ir para a cama e adormecer. Verifica-se uma melhoria no discurso, menos fadiga, diminui a ansiedade e pânico, maior actividade diurna com menos períodos de labilidade emocional. Concluí-se que é fulcral poder realizar o tratamento com ventiloterapia e permanecer no seu lar, junto da família/cuidador, permite poder manter a actividade profissional sem prejuízo para si e para o meio envolvente. Na prática de enfermagem é relevante que os profissionais de saúde no seu campo de acção, aquando da tomada de decisão da prática profissional conheçam o modo como as pessoas vivem e pensam para adequar as estratégias de saúde, e deste modo, ir ao encontro das suas necessidades.

Palavras-chave: ventilação não-invasiva, benefícios/experiências, cuidador/família.

ABSTRACT

At the last few years non invasive ventilation appeared as an option to pulmonary disease treatment, although it is not so much approach in literature. The main purpose is to identify the benefits/experiences from the caregiver of the person who is submitted to NIV at home. Through a methodology that has as base the search motor EBSCO, at CINAHL Plus with Full Text and MEDLINE with Full Text, British nursing databases, by the asking PI(C)O method, there were selected 9 from 22 articles, those articles were published between January 2006 and November 2011. From the results found, it was verified that being dependent from NIV during sleep it is from extremely importance at patient’s lives, and a large number of those patients chooses to be treated at home. There was also identified a significant improve at the patients sleep quality and the ability of being at home with their families, despite this, the major benefit for the patients is the ability to go to bed and fall asleep. There is an also relevant improvement at speech, less tiredness, anxiety and panic, more daily activity with less emotional lability periods. At conclusion, it is from extreme importance for the patient to be able to do the NIV treatment and stay at home, near his family/caregiver; it allows the patient to be able to continue his professional activity. At nursing practice it is relevant that health professionals know how patients live and think so they can adapt their health strategies to fulfil the patient needs.

Keywords: non-invasive ventilation, benefits/experiences, family/caregiver.

INTRODUÇÃO

É fulcral considerarmos que só reconhecendo as vivências e experiências do utente/cuidador na relação com o enfermeiro, é que podemos garantir uma boa relação de ajuda, melhorando as atitudes/valores da relação terapêutica. Deste modo, a profissão de enfermagem é exigente do ponto de vista do enfermeiro estabelecer com o utente/cuidador uma relação que permita ser cada vez mais ele próprio, minimizando o sofrimento (Pereira e Araújo, 2011).

O envelhecimento demográfico nos países mais desenvolvidos é uma realidade actual, com preocupações sociais, económicas e de saúde das populações. As pessoas em situação de dependência aumentaram, o que implica que a família/cuidador adquire competências para lidar com novos desafios (Petronilho, 2010).

Posto isto, ainda há a considerar que a Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica é a quarta causa de morte no mundo, e em 2020 prevê-se que seja a terceira, em Portugal será a sexta causa de morte. Em cinco anos os internamentos hospitalares aumentaram em flecha, assim bem como a taxa de mortalidade intra-hospitalar (Magalhães, 2009). No Brasil, verifica-se um aumento do número de mortes por DPOC nos últimos 20 anos, em ambos os sexos. Na década de 1980 a taxa de mortalidade era de 7,88/100.000 habitantes, passando para 19,04/100.000 habitantes na década de 1990, com um crescimento de 340%. A DPOC, apesar de tudo, nos últimos anos neste país, passou da quarta para a sétima posição entre as principais causas de morte (Rocha e Carneiro, 2008).

Segundo a Direcção Geral da Saúde, em 2050 prevê-se que Portugal seja um dos países da União Europeia com maior percentagem de idosos e menor percentagem de população activa. Esta percentagem passará de 16,9% para 31,9% entre 2004 e 2050, respectivamente, sendo que neste último, Portugal será o quarto país da União Europeia com maior percentagem, apenas abaixo da Espanha (35,6%), da Itália (35,3%) e da Grécia com 32,5% (Petronilho, 2010).

Carratu et al afirmaram que a VNI reduz a necessidade de entubação em 80% dos utentes com moderada a grave falência respiratória e com hipercapnia na DPOC. A utilização de CPAP em utentes com a DPOC exacerbada e com a pressão positiva ao final da expiração (PEEP) de 10-12 cmH2O diminui o trabalho respiratório e a dispneia (Rocha et al, 2008).

Deste modo, a DPOC define-se como um estado patológico caracterizado por uma limitação do débito aéreo que não é totalmente reversível, a limitação ventilatória é geralmente progressiva e está associada a uma resposta inflamatória anómala dos pulmões à inalação de partículas ou gazes nocivos (Programa Nacional de Prevenção e Controlo da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, 2004). A VNI tem evidência major na exacerbação aguda da DPOC, especialmente para aqueles utentes com exacerbação grave, caracterizada pela presença de acidose respiratória (pH <7,35) e deve ser mantida no domicílio após esse episódio agudo, se verificar que mantêm hipercapnia e se tolerar bem a ventiloterapia (Comissão Nacional para os Cuidados Respiratórios Domiciliários, 2011).

Relativamente ao SAOS é previsível que atinja cerca de 5% da população portuguesa, associada a hipertensão arterial, cardiopatia isquémica, disritmias e doença cerebrovascular. A sonolência diurna excessiva (SDE), é uma das manifestações major, sendo uma das principais causas de acidentes de viação e condiciona portanto, o regular desempenho profissional. Esta doença tem como tratamento de primeira linha a VNI de pressão positiva com indicação nas situações moderadas a graves ou nas ligeiras se acompanhada de risco cardiovascular ou sonolência diurna significativa (Comissão Nacional para os Cuidados Respiratórios Domiciliários, 2011).

A VNI também é adequada e bastante eficaz nas deformações da caixa torácica e nas doenças neuromusculares. Como tal, deve ser aplicada o mais precocemente possível na presença de hipoventilação (associada a fadiga, dispneia, cefaleia matinal, lentificação cognitiva, falta de memória e SDE) ou pelo menos um destes critérios fisiopatológicos, como a PCO2 ser superior a 45 mmHg, a dessaturação nocturna inferior a 88% em 6 minutos consecutivos, a capacidade vital forçada ser inferior a 50% ou a 70% (no caso da ELA) e/ou a pressão máxima inspiratória ser inferior a 60 cmH2O (Direcção Geral de Saúde, 2006).

Desta forma, pretende-se salientar os benefícios e experiências identificadas pelo cuidador/família, em contexto domiciliário.

METODOLOGIA

Elaborou-se uma questão de partida, que atende aos critérios do formato PI(C)O, utilizando o inglês como idioma, em textos completos (full text) de Novembro de 2011, retrospectivamente até Janeiro de 2006. Deste modo, para compreender mais amplamente este fenómeno foi feita uma pesquisa através do motor de busca electrónico – EBSCO, recorrendo à base de dados da CINAHL (Plus with Full Text) e MEDLINE (Plus with Full Text, British Nursing Index). As palavras-chave orientadoras utilizadas foram previamente validadas pelos seguintes descritores de pesquisa: [(“Positive Pressure Ventilation” OR “Continuos Positive Airway Pressure” OR “noninvasive ventilation”) AND (“nursing intervention” OR “nursing” OR “nurse”) AND (“carevige*” OR “family carevigers” OR “families”)] especificamente, resultando num total de 22 artigos.

Para a selecção dos estudos encontrados, foram definidos critérios de inclusão e exclusão, para uma melhor definição dos benefícios/experiências dos cuidadores da pessoa submetida a VNI no domicílio, como se observa na tabela 1.

 

APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

Nesta fase, incluíram-se 9 estudos que correspondiam aos critérios de inclusão e exclusão considerados. Para uma melhor transparência da metodologia utilizada, segue-se a apresentação dos resultados obtidos (quadro 1).

 

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Como resultado da análise dos artigos acima mencionados é possível verificar que o cuidador da pessoa submetida a VNI no domicílio identifica benefícios, como também descreve experiências vivenciadas e salienta alguns sintomas que denota atenuarem com a aplicação de VNI.

Ingadóttir et al (2006) referem que estar dependente de respiração assistida durante o sono (com ou sem oxigénio) é de extrema importância na vida dos utentes, podendo surgir alguma confusão com os sentimentos espirituais. Eng (2006) realça que as “falhas” na respiração causa um aumento da taxa de morbilidade nas pessoas com doença neuromuscular, sendo que uma grande proporção escolhe ser cuidado em casa, em estadio já avançado.

Jackson et al (2006) salientam que 146 (36%) utentes de 403 (participantes no estudo) usaram VNI, sendo a dispneia (p=0,0003) e a ortopneia (p=0,0357) os sintomas mais descritos. Todavia, não houve relação com a idade, raça, tipo de seguro de saúde, capacidade vital e duração dos sintomas. Baseando-se nas guidelines actuais, deve-se recorrer à utilização de VNI quando a capacidade vital forçada desce 50%, estas não estão a ser seguidas na maioria dos utentes, sendo que no estudo, o autor sugere que a modificação das guidelines deveria incluir a utilização de VNI em qualquer utente com sintomas de ortopneia. Segundo Bucher et al (2008), o CPAP melhora a vigilância de dia e diminui os acidentes com veículos motores em utentes com apneia obstrutiva do sono. Dos 25,3% dos utentes com suave a moderada SAOS não foi utilizado VNI, desenvolvendo problemas cardiovasculares em comparação com 14,4% (p=.024) que optou por usar CPAP.

Também Israel-Ancoli et al (2008) num estudo comparativo com utentes com doença de Alzheimer verificaram que o uso de CPAP terapêutico permitiu um aumento significativo da cognição, de um modo geral. Os benefícios de modo individual sugerem melhoria na aprendizagem verbal, na memória, na flexibilidade cognitiva e na rapidez de raciocínio.

Sundling et al (2009), pretendiam através de entrevistas ao cuidador no domicílio da pessoa submetida a VNI identificar os benefícios da ventilação nos utentes com ELA. Com este estudo verificaram uma melhoria na qualidade do sono e a possibilidade de estar em casa com as suas famílias, os cuidadores motivam-nos a usar também no período diurno, o benefício mais notório é a capacidade de ir para a cama e adormecer, também no mesmo estudo verificou-se uma melhoria no discurso, menos fadiga, ansiedade e pânico, maior actividade diurna e menos períodos de labilidade emocional.

Da experiência vivenciada no domicílio pelo cuidador, segundo Eng (2006) a máscara e a pressão positiva causam desconforto, por vezes úlceras de pressão e acumulação de secreções brônquicas, daí considerarem que a orientação para os cuidados em casa deve ser prestada por uma equipa multidisciplinar coordenada e estruturada. Contudo, apesar dos benefícios e do decrescente risco de um segundo EAM em utentes com distúrbios do sono, os resultados obtidos no estudo de Palombini et al (2006) foram desanimadores, o CPAP nasal foi pouco aceite no tratamento em casa, o desconforto e o aumento de distúrbios nocturnos foram as principais razões para a descontinuidade no tratamento com CPAP. Os autores sugerem, deste modo, alterações na aplicação nasal, com recurso a sessões como parte de um Programa de Reabilitação com a colocação de máscara nasal, como também sessões de educação para a saúde sobre a conexão e a desconexão ao equipamento enquanto está na cama.

Posto isto, Sundling et al (2009), também salientam que os prestadores de cuidados experienciam períodos de alívio de stress para eles mesmos, assim bem como o alívio de períodos stressantes como é o caso, do sono ininterrupto e o envolvimento no tratamento com a ventiloterapia.

Ainda Battisti et al (2006), sugerem que estudos futuros deveriam determinar como melhorar a interacção entre utente e ventilador e reduzir o esforço do cuidador/família.

Relativamente aos utentes com doença de Parkinson que apresentam distúrbios do sono, Friedman et al (2008), avaliou as características do sono durante uma noite e, verificou que 80 a 90% dos utentes têm distúrbios do sono afectando a capacidade de adormecer, de sonhar, os comportamentos pós-sono, assim bem como insónias diárias. Os cuidadores identificam a demência e a psicose como os sintomas mais complicados de gerir, e consideram que o sono tem um impacto fulcral no bem-estar e na qualidade de vida do idoso.

 

CONCLUSÃO

Podemos concluir que o cuidador da pessoa submetida a VNI no domicílio, salienta os benefícios e as experiências vivenciadas de uma forma clara e sucinta.

Foi identificado que estar dependente de VNI no domicílio contribuiu para um aumento da qualidade de vida, bem-estar físico, social e familiar. É de extrema importância poder realizar o tratamento com ventiloterapia e permanecer no seu lar, junto da família/cuidador, permitindo manter a actividade profissional sem prejuízo para si e para o meio envolvente. Em pleno século XX, observou-se o desenvolvimento no idoso de doenças degenerativas (Parkinson, Alzheimer), quando associadas a alterações do foro respiratório (SAOS, DPOC, ELA) manter VNI no domicílio (CPAP), contribui em largo espectro para a manutenção da plenitude das suas capacidades cognitivas, relacionais e sociais, promovendo deste modo, a autonomia, o conforto e o aumento da esperança média de vida (Quadro 3).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quadro 3: Benefícios/experiências identificadas pelo cuidador da pessoa submetida a VNI no domicílio.

Face ao exposto é fulcral que os profissionais de saúde compreendam o utente e o cuidador/família com uma história de vida, aceitem as suas crenças, os seus valores e as suas experiências, o que vai contribuir para definir o modo como assimilam a orientação para os cuidados no domicílio.

Em estudos futuros, será interessante comparar a percepção do profissional acerca da informação dada à pessoa que cuida com a percepção da pessoa cuidada face à informação fornecida pelo profissional.

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