Mar 6, 2013

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AFFECTIVE-EMOTIONAL DISORDERS IN LONG-TERM CARE FACILITIES

TRASTORNOS AFECTIVO EMOCIONAL EN INSTALACIONES DE CUIDADO A LARGO PLAZO

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AUTORES: Alberto Cavaleiro, Paulo Queirós, Zaida Azeredo, João Apóstolo, Daniela Cardoso

Resumo

Em Unidades de Internamento da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados no distrito de Coimbra, a condição da pessoa após AVC pode contribuir para o incremento de perturbações afectivo-emocionais. Este estudo, descritivo analítico desenvolvido a partir de uma amostra consecutiva de 88 pessoas idosas internadas por AVC, em processo de reabilitação em unidades de internamento da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados do distrito de Coimbra tem por objectivos analisar a prevalência pontual de depressão, ansiedade e stresse e as diferenças quanto ao género e quanto à tipologia de cuidados continuados bem como a validade de critério da Geriatric Depression Scale (GDS-15). Foram utilizadas as versões portuguesas da Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21), da GDS-15 e Satisfaction With Life Scale (SWLS).

Os valores de correlação elevados, positivos entre os dois conceitos semelhantes e negativos entre conceitos divergentes é a favor da validade concorrente da GDS-15. A prevalência pontual de perturbações afectivo-emocionais (depressão, ansiedade ou stresse) é elevada, respectivamente 45%, 30% e 22%. As mulheres apresentam níveis mais elevados de ansiedade do que os homens, não sendo evidenciada essa diferença em relação à depressão e ao stresse.

As pessoas que se encontram em unidades com tipologia Média-duração e Reabilitação apresentam valores de depressão mais elevados que as que se encontram nas unidades de tipologia de Convalescença não sendo evidente essa diferença em relação à ansiedade e ao stresse.

Palavras-chave: Depressão; Ansiedade; Stresse; Cuidados Continuados

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Abstract

In Hospitalization Units of the National Network for Long-term Integrated Care in the district of Coimbra, the circumstance of the person after a stroke can contribute to an increase of affective-emotional disorders. This analytical descriptive study was conducted on a sample of 85 elderly stroke patients in a process of rehabilitation in hospitalization units of the National Network for Long-term Integrated Care of the district of Coimbra. It aims to estimate the prevalence of depression, anxiety and stress and the differences in terms of gender and type of long-term care, as well as to analyze the criterion validity of the Geriatric Depression Scale (GDS-15). The Portuguese versions of the Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21), the GDS-15 and the Satisfaction with Life Scale (SWLS) were used.

The high correlation (positive between both similar concepts and negative between diverging concepts) suggests a good concurrent validity of GDS-15. The prevalence of affective-emotional disorders, such as depression, anxiety or stress is high: 45%, 30% and 22%, respectively. Women have higher levels of anxiety than men, although no gender difference was found in terms of depression or stress.

Patients in medium-term and rehabilitation units have higher levels of depression than those in convalescence units. However, this difference was not found in terms of anxiety or stress.

Keywords: Depression; Anxiety; Stress; Long-term Care

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Introdução

Na população idosa, as perturbações afectivo-emocionais, sobretudo a depressão, são um importante problema de saúde não só pela sua alta prevalência, mas também pela sua frequente associação a doenças físicas, tendo um impacto negativo na qualidade de vida, autonomia e agravamento de quadros clínicos pré-existentes, o que leva a um aumento do risco de morbilidade e mortalidade e a uma adesão reduzida aos tratamentos terapêuticos ocasionando um aumento na utilização dos serviços de saúde (Alexopoulos et al.,2002; Alexopoulos, 2005; Duarte e Rego, 2007; Irigaray e Schneider, 2007; Wouts et al., 2008). Desta forma, no contexto de pessoas idosas em Unidades de Cuidados Continuados (UCC) as perturbações afectivo-emocionais podem estar associadas a uma maior incapacidade para recuperar da sua condição de saúde prolongando o internamento.

Por outro lado, também a condição de saúde da pessoa idosa pode contribuir para o incremento destas perturbações. Podemos, assim, considerar que a associação feita entre doenças crónicas e perturbações afectivo-emocionais pode ser vista de modo bidireccional. A depressão, por exemplo, pode surgir como um factor promotor de doença crónica, tal como as doenças crónicas podem agravar os sintomas depressivos (Alexopoulos et al., 2002; Krishnan et al., 2002; Duarte e Rego, 2007).

Contudo as perturbações afectivo-emocionais não são convenientemente identificadas em pessoas idosas que se encontram a recuperar de uma condição de saúde, em particular em pessoas idosas em contexto de UCC, tornando-se necessária a sua identificação e reconhecimento. Os estudos focados na avaliação destas perturbações neste contexto, são escassos, pelo que o objectivo deste estudo é fazer uma avaliação destas perturbações em pessoas idosas institucionalizadas em UCC.

Fundamentação

 Os investigadores têm sugerido que as perturbações depressivas são um grupo de perturbações heterogéneas relativamente aos sintomas, causa, curso, terapia e prevenção. Durante os episódios depressivos os esquemas negativos dominam o processamento da informação e o sentido que a pessoa atribui aos acontecimentos (Beck, 1970; Beck et al., 1987; Abramson, Metalsky, e Alloy, 1989).

É também reconhecido que os acontecimentos de vida stressantes, sobretudo a forma como o indivíduo lida com esses acontecimentos, poderão estar na base do desenvolvimento da depressão. O conhecimento neurofisiológico e estrutural do funcionamento cerebral tem dado um grande contributo no esclarecimento das perturbações “afectivo-emocionais”. Nas perturbações depressivas, de ansiedade e de stresse, há uma consistência entre o afecto, a emoção e a cognição, pelo que terá sentido fazer-lhes referência como perturbações “afectivo-emocionais” ou “cognitivo-afectivo-emocionais”.

A ocorrência de eventos stressantes, como o surgimento de um Acidente Vascular Cerebral (AVC), por si só, não determina consequências negativas para as pessoas. As consequências negativas, positivas ou neutras desses eventos relativamente ao bem-estar dependem da avaliação cognitiva sobre a natureza e sobre a demanda que tais eventos exercem sobre os recursos pessoais e sociais, e também das estratégias de enfrentamento que são capazes de accionar. Um agente stressor, pode ser de natureza biológica, psicológica ou outra, sendo pela pessoa a ele exposto, considerado, como rotineiro ou desafiador, gratificante ou não, benigno ou prejudicial. No caso de a avaliação ser negativa, a pessoa pode ainda dispor de capacidades de coping ou interpretar o estímulo como demasiado ameaçador à sua integridade (Lazarus e Folkman, 1984; Praag, Kloet e Os, 2004). As emoções desagradáveis levam a um estado de tensão quando o estímulo é avaliado como perturbador. Do ponto de vista do comportamento evidente, as pessoas podem ficar irritáveis, tensas, agressivas, distraídas, desinteressadas, resignadas, ansiosas ou agitadas. Nelas pode ainda, ocorrer perturbações do sono, do apetite e diminuição da libido.

Neste sentido, o stresse e o seu efeito não é uniforme, sendo fortemente influenciado pelas capacidades individuais de coping, pelas características da personalidade, pelas condições de vida e,  pela severidade, duração e intensidade dos agentes  stressores.  A resposta a estes agentes não desencadeia por si só doença, podendo em algumas situações até ser benéfica (McEwen, 2002) porém para o ser humano, quando o ambiente começa a mudar para além da sua capacidade de adaptação, a ameaça à sua saúde e bem-estar torna-se real (Lovallo, 1997).

Apesar da ansiedade e da depressão serem habitualmente consideradas como duas entidades nosológicas distintas, as duas podem apresentar características sobreponíveis. Esta sobreposição levou a que fossem desenvolvidos modelos que explicam as características comuns e aquelas que distinguem estes dois conceitos.

O modelo tripartido da ansiedade e da depressão proposto pelos autores acima referenciados, explica as características que se sobrepõem e as que se distinguem na ansiedade e na depressão. Este modelo aponta os três factores seguintes: afecto negativo (AN) que agrupa características pertencentes à ansiedade e à depressão; reduzido afecto positivo (AP), comum à depressão, e hiperestimulação fisiológica (HF), comum à ansiedade (Clark e Watson, 1991; Apóstolo, 2010).

Para muitas pessoas, o stresse refere-se a um estado de completa sobrecarga. Os acontecimentos externos, em conjunto com o desconforto da resposta ao stresse, conjugam-se para esvaziar a capacidade para lidar com os estímulos, ou seja para subjugar as estratégias de coping da pessoa, tendo como consequência o estado de doença, com manifestações de cansaço, irritação e energia reduzida. A incapacidade para lidar com a situação e com o mundo provoca na pessoa uma sobrecarga e um sentido de insuficiência, de desamparo e de depressão (McEwen, 2002).

Os estudos sobre prevalência de perturbações depressivas, de ansiedade e stresse e a sua relação com o sexo e a Tipologia de Cuidados Continuados (TCC) em pessoas idosas, a recuperar de uma condição de saúde em cuidados continuados, são escassos.

Ainda que efetuados em outros contextos, há estudos que apresentam resultados dignos de serem aqui mencionados.

Djernes (2006), numa revisão de literatura realizada com o objectivo de oferecer uma actualização acerca da prevalência e dos preditores da depressão em populações de pessoas idosas caucasianas, observou para a prevalência da depressão major percentagens compreendidas entre os 0.9 % a 9.4 % em instituições privadas de acolhimento a idosos, 14 % a 42 % em habitações institucionais e em cerca de 1 % a 16 % entre os idosos a viver em instituições privadas; Verificou ainda que os sintomas clinicamente relevantes em locais semelhantes variavam entre os 7.2 % e os 49 %. Por fim, este autor concluiu que os principais preditores das perturbações depressivas eram: o sexo feminino, patologia somática, défice cognitivo, défice funcional, perda ou escassez da rede de contactos sociais e história clínica de episódios anteriores de depressão.

Papadopoulos et al. (2005), com o objectivo de estimar a prevalência específica de depressão e a sua relação com a idade e o género, entre pessoas acima dos 60 anos de idade e de examinar a relação entre a depressão e o défice cognitivo, estudou um total de 608 habitantes, de idades superiores a 60 anos, residentes na zona rural da Grécia. Neste estudo, a prevalência de depressão severa foi de 27 %, enquanto a prevalência de depressão moderada a severa foi de 12 %. Factores como a idade, o género feminino, níveis baixos de educação e o facto de não se encontrar num casamento estável, foram associados a um risco aumentado de Depressão. Contudo, estas associações desapareceram após o controlo da variável para a função cognitiva, excepto para a associação com o estado civil. Os autores concluíram então que a prevalência de depressão em pessoas idosas, na zona rural da Grécia é, de facto, elevada.

Fortes-Burgos, Neri e Cupertino (2008) examinaram a relação entre os eventos stressantes e a presença de sintomas depressivos, mediada por mecanismos psicológicos de avaliação e mecanismos de coping. O estudo revelou que o maior risco para a depressão foi associado a: excessos comportamentais e em comportamentos de risco, experiência de eventos que afectam a descendência, ter entre 60 e 69 anos, uso de estratégias de coping com foco na expressão de emoções negativas e avaliar a auto-eficácia destas estratégias como “inadequada”.

O estudo de Apóstolo et al. (2011a) evidenciou que as pessoas com idade superior a 65 anos apresentam valores de depressão, ansiedade e stresse mais elevados comparativamente aos de idade inferior a 65 anos; também no estudo de Apóstolo, Figueiredo e Loureiro (2012) foram classificados com perturbação depressiva 64,46% das mulheres e 47,69% dos homens, bem como 54,79% das pessoas idosas residentes na comunidade e 63,29% das residentes nos lares. Os testes de hipóteses evidenciaram níveis elevados de perturbações depressivas, sendo ainda mais elevados nas mulheres institucionalizadas. A co-morbilidade entre depressão e ansiedade e stresse é muito marcante implicando gravidade de sintomas. Estudos desenvolvidos em Portugal registaram uma forte correlação entre depressão, ansiedade e stresse (Apóstolo, 2010; Apóstolo et al., 2011a; Apóstolo et al., 2011b).

Apesar dos resultados acima apresentados, não existem estudos na população de pessoas idosas internadas em UCC que permitam uma avaliação destas perturbações. O diagnóstico dos estados afectivo-emocionais destas pessoas, bem como a detecção precoce destes casos pode colmatar as lacunas existentes e contribuir para uma maior compreensão desta realidade, promovendo, desta forma, uma maior capacidade de resposta por parte dos serviços de saúde. Este estudo tem como propósito fazer uma avaliação destas perturbações em pessoas idosas institucionalizadas em UCC.

Objectivos

Os objectivos principais deste estudo são analisar a prevalência pontual de depressão, ansiedade e stresse em pessoas idosas a experienciarem o seu processo de reabilitação apresentando como condição de saúde-AVC em unidades de cuidados continuados (UCC) do distrito de Coimbra; analisar, nestas pessoas, relativamente à depressão, ansiedade e stresse as diferenças quanto ao género e quanto à tipologia de cuidados continuados.

Como objectivo metodológico, apresentamos, ainda, a necessidade de validação da GDS-15 utilizando como medidas de critério a Satisfaction With Life Scale (SWLS) e a escala de depressão da DASS-21.

Material e Métodos

Tipo de estudo: Estudo descritivo analítico.

Procedimentos: Antes de iniciar a recolha de dados, o projecto de investigação foi formalmente aprovado pelas entidades envolvidas, após a solicitação das respectivas autorizações: Hospitais da Universidade de Coimbra, Administração Regional de Saúde do Centro e as Unidades de Internamento (Convalescença – HAJC; AFMP; CMRRC – RP, Média duração e Reabilitação – AFMP; LS – DV; CRC; SB; CDEC; N-GAG S.A.; SCMA; ADFP; INSN – SCMVNP, Longa duração e Manutenção – LS – DV; SB; CDEC; N-GAG S.A.; SCMA; ADFP; INSN – SCMVNP) da RNCCI seleccionadas no distrito de Coimbra.

Após terem sido devidamente esclarecidos foi solicitado aos participantes que assinassem o consentimento informado

Os Instrumentos de avaliação abaixo referidos, foram administrados por entrevista.

Amostra e Contexto

Sustentados na reflexão acerca do conjunto dos resultados obtidos num primeiro estudo (preliminar), e num segundo estudo que se focalizou na elaboração e análise da estrutura das dimensões (áreas emergentes) de um protocolo de avaliação multidimensional da pessoa idosa após AVC (PAMPI-AVC), foi-nos possível a caracterização da actividade motora e outros aspectos da vida de uma população idosa após AVC, a experienciarem o seu processo de reabilitação em unidades de internamento da RNCCI do distrito de Coimbra.

Este estudo decorreu no período compreendido entre Novembro de 2010 e Outubro de 2011, em cada unidade de internamento da RNCCI referenciadas do distrito de Coimbra.

Como critérios de inclusão previamente estabelecidos, temos: idade ≥ 65 anos (posteriormente alterada para os 55 anos), tratar-se do primeiro evento (AVC), ter lesão neurológica com compromisso da actividade motora, sem compromisso cognitivo que inviabilizasse a colaboração e concordar participar no estudo após ter recebido informação adequada a respeito do mesmo-

Assim foram referenciadas 564 pessoas idosas nas várias unidades de internamento (Convalescença – 130, Média duração e Reabilitação – 208, Longa duração e Manutenção – 126), sendo inquiridas 92 pessoas; foram invalidados 4 dos protocolos incluídos nos anteriores (1 por alterações cognitivas, 2 por altas precoces e 1 por falecimento), constituindo-se assim, a população deste estudo de 88 pessoas idosas que se encontravam no seu processo de reabilitação na RNCCI, no distrito de Coimbra (Convalescença – 44, Média duração e Reabilitação – 38, Longa duração e Manutenção – 6).

Instrumentos de investigação

O instrumento é composto por questões sociodemográficas, socioeconómica, biológica e de saúde (variáveis referidas nas características da amostra) e pelas versões portuguesas da Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21), Geriatric Depression Scale (GDS-15) e Satisfaction With Life Scale (SWLS).

A DASS-21, versão portuguesa (Apóstolo et al., 2006; Apóstolo, Tanner, e Arfken, 2012) são um conjunto de três sub-escalas, do tipo likert, de 4 pontos. Cada sub-escala é composta por 7 itens, destinados a avaliar a perturbação de depressão, de ansiedade e de stress (Lovibond & Lovibond, 1995). As três sub-escalas da DASS-21 podem ser consideradas consistentes com o modelo tripartido de Clark & Watson (1991), uma vez que a depressão é caracterizada por baixo afecto positivo, baixa auto-estima e incentivo e desesperança, a ansiedade por híper-estimulação fisiológica e o stresse por tensão persistente, irritabilidade e baixo limiar para ficar perturbado ou frustrado (Lovibond e Lovibond, 1995).

As pontuações da DASS-21 foram calculadas para cada uma das sub-escalas e multiplicadas por dois. Para cada um dos três estados (Depressão – DASS 3, 5, 10, 13, 16, 17 e 21; Ansiedade – DASS 2, 4, 7, 9, 15, 19 e 20 e Stress – DASS 1, 6, 8, 11, 12, 14, 18) foi usada a classificação, normal, leve, moderado, severo e muito severo (Lovibond e Lovibond, 1995).

A GDS-15 (Sheikh e Yesavage, 1986), versão portuguesa Apóstolo (2011) é uma escala de hetero-avaliação, composta por quinze itens, com duas alternativas de resposta (sim ou não), consoante o indivíduo se tem sentido ultimamente, em especial na semana transacta. É atribuído um (1) ponto à resposta “Sim” e zero (0) pontos à resposta “Não”. Nas questões 1,5,7,11 e 13 inverte-se a pontuação. Como ponto de corte foi utilizado o valor 5/6.

Na amostra em estudo (n=88) verificou-se forte correlação negativa (rs=-0,74**) entre a GDS-15 e a SWLS e forte correlação positiva entre a GDS-15 e a escada de depressão da DASS (rs=0,83**) que são fortes argumentos em relação à validade da GDS-15.

Satisfaction With Life Scale (SWLS), adaptado de Simões (1992) este instrumento de medida, configura-se como um dos instrumentos do género, potencialmente mais úteis e psicometricamente mais válidos, sendo originalmente elaborado por Diener e colaboradores em 1985 (Simões, 1992). Este autor afirma que em Portugal este instrumento foi validado pela primeira vez por (Neto et al.,1990) e que o seu estudo pretendia trazer novas aproximações para a validação do mesmo, tendo como finalidades a redução para cinco o número de opções de resposta, assim como tornar o conteúdo mais compreensível, por parte de populações de nível culturalmente inferior ao do estudo realizado inicialmente por (Neto et al.,1990), permitindo a avaliação a outras populações, com idades e níveis culturais diversificados.

Neste sentido entendemos adaptar este instrumento de medida no nosso estudo, por ser de fácil aplicabilidade e em termos conceptuais estar subjacente a satisfação com a vida, avaliando componentes fundamentais do bem-estar subjectivo, sendo constituído por cinco itens: “ A minha vida parece-se em quase tudo, com o que eu desejaria que ela fosse; As minhas condições de vida são muito boas; Estou satisfeito com a minha vida; Até agora, tenho conseguido as coisas importantes da vida, que eu desejaria; Se pudesse recomeçar a minha vida, não mudaria quase nada”, possibilitando cinco respostas alternativas, desde “1 – Discordo Muito” até “5 – Concordo Muito”.

Este instrumento permite obter uma classificação global (mínimo 5, máximo 25), que após a análise, quanto mais elevado for o resultado maior será a satisfação com a vida (Simões, 1992).

A satisfação com a vida foi utilizada neste estudo como para avaliar a validade de critério da GDS-15. Na amostra em estudo as três escalas revelaram consistência interna adequada.

Medidas estatísticas

As medidas estatísticas utilizadas neste estudo para apresentação de resultados foram: teste de Mann-Whitney, correlação de Spearman, estatísticas de resumo e frequências absolutas e relativas. Dado as variáveis em estudo não apresentam distribuição assimétrica, pelo que optámos pelo uso de testes não paramétricos.

Resultados

Participaram no estudo 88 utentes (na Dass Depressão e na GDS – 15 – n=87), idade mínima 55, máximo 91, média de idades 72,95 anos e desvio padrão 8,00. Maioritariamente idosos (17 pessoas apresentam idade inferior a 65 anos); 40,91% eram mulheres e 59,09% eram homens. Relativamente ao seu estado civil 9,09% eram solteiros, 53,41% casados, 9,09% divorciados e 28,41% viúvos; O nível de escolaridade mais frequente era de 1 a 4 anos (42.0%), seguindo-se 15,9% com escolaridade entre 5 e 9 anos; de salientar que 22,7% eram analfabetos

Entre os participantes 82,96% apresentavam o diagnóstico de AVC isquémico e 14,77% de AVC hemorrágico e 2.27% AVC mal definido.

Na amostra em estudo (n=88) verificou-se forte correlação negativa (rs=-0,74**) entre a GDS-15 e a SWLS e forte correlação positiva entre a GDS-15 e a escada de depressão da DASS (rs=0,83**) que são fortes argumentos em relação à validade da GDS-15.

Como pode ser observado na tabela 1, relativamente à gravidade das perturbações depressivas de ansiedade e stresse: 44,83% (GDS) ou 45,98% (DASS) dos indivíduos apresentavam algum grau de perturbação depressiva; 12,65% revelavam níveis severos ou extremamente severos; 29,54% apresentavam algum grau de ansiedade, com 9,09% a revelarem níveis severos ou extremamente severos; 21,84% apresentavam algum grau de stresse, com 4,6% a revelarem níveis severos ou extremamente severos. Verificamos ainda que 40,91% dos indivíduos da tipologia convalescença apresentam algum grau de perturbação depressiva que é mais elevada nos indivíduos da tipologia Média duração e Reabilitação (67,57%) e ainda mais elevada nos de tipologia de Longa duração e Manutenção (83,33%) com a limitação relacionada com o tamanho da amostra (n=6).

Tabela 1

 

Diferenças das perturbações depressivas de ansiedade e de stresse quanto ao sexo e quanto à tipologia de cuidados continuados (Quadro 1).

Relativamente às diferenças de sexo, as mulheres apresentam níveis mais elevados de ansiedade do que os homens, não sendo evidenciada essa diferença em relação à depressão e ao stresse. Analisando a diferença quanto à tipologia de cuidados continuados verifica-se, quer na avaliação com a GDS-15 que com a escala de depressão da DASS, que os indivíduos da tipologia 30 a 90 Dias – Média duração e Reabilitação apresentam valores de depressão mais elevados que os da tipologia 30 Dias – Convalescença não sendo evidente essa diferença em relação à ansiedade e ao stresse.

Quadro 1

Discussão dos resultados

A validade concorrente da GDS-15 avaliada através da análise da sua correlação com SWLS e a escala de depressão da DASS-21 revelou valores de correlação elevados, positivos entre os dois conceitos semelhantes e negativos entre conceitos divergentes o que é a favor da validade concorrente da GDS-15.

Os resultados obtidos para a prevalência pontual das perturbações afectivo-emocionais (depressão, ansiedade e stresse) são elevados, especialmente no que respeita à perturbação depressiva a rondar os 45% com 12,65% revelando níveis severos ou extremamente severos de depressão.

Estes valores sendo considerados elevados, são inferiores a outros em que foi evidenciada uma prevalência de 63,29% em residentes em lares de terceira idade e 54,79% dos idosos residentes na comunidade (Apóstolo, Figueiredo e Loureiro, 2012). De salientar, no entanto, que as situações clínicas e contextuais são diferentes

Em relação à ansiedade e ao stresse os valores são menos elevados (com 29,54% e 21,84% das pessoas a apresentarem algum grau deste tipo de perturbações; 9,09% e 4,6% revelaram respetivamente, níveis severos ou extremamente severos) sendo difícil a sua comparação com outros resultados em amostras com as mesmas características dado que os estudos em pessoas institucionalizadas são escassos.

Estudos com amostras de adultos e pessoas idosas na comunidade (Apóstolo et al., 2011a; Apóstolo et al., 2011b) revelaram que entre 40% a 50% das pessoas apresentam algum grau de perturbação afectivo-emocional (depressão, ansiedade ou stresse) valores semelhantes ao estudo em causa no que respeita à perturbação depressiva mas mais elevados no que respeita às perturbações de ansiedade e stresse. Também naqueles dois estudos foram identificados níveis severos ou muito severos de perturbações de depressão, ansiedade e stresse a oscilar entre 12 e 22% que são valores mais elevados do que no estudo em causa.

No que respeita à comparação por sexo, este estudo, apenas evidenciou diferenças para a depressão. Comparando com os estudos já referenciados (Apóstolo, Figueiredo e Loureiro, 2012; Apóstolo et al., 2011a; Apóstolo et al., 2011b) as mulheres apresentam níveis médios de depressão, ansiedade e stresse mais elevados que os homens e níveis de perturbação depressiva, mais elevados nas pessoas institucionalizadas comparativamente às residentes na comunidade (Apóstolo, Figueiredo e Loureiro, 2012).

Estes resultados são consonantes com outros resultados nacionais e internacionais (Gazalle et al., 2004; Papadopoulos et al., 2005; Bergdahl et al., 2005; Castro-Costa et al., 2008; Portugal, 2009).

De facto, nas pessoas mais idosas, a par do declínio cognitivo, a depressão é um problema de saúde mental comum, tendo impacto negativo em todos os domínios do quotidiano, sendo por isso de grande relevância na saúde pública. Os resultados de Djernes (2006) apontam como principais preditores de transtornos depressivos e de casos de sintomas depressivos o sexo feminino, doenças somáticas, declínio cognitivo, comprometimento funcional, falta ou perda de contactos sociais e história prévia de depressão. Já os resultados apresentados por Papadopoulos et al. (2005) evidenciam que factores como a idade, sexo feminino, níveis baixos de educação e não ser casado, estão associados ao risco aumentado de depressão. No entanto, controlando a variável – função cognitiva – estas correlações são espúrias, excepto para a associação com o estado civil.

O facto de estas pessoas apresentarem níveis mais baixos de perturbações afectivo-emocionais, sobretudo de stresse e de ansiedade, bem como a existência de maior prevalência naquelas com mais tempo de permanência leva-nos a levantar a questão em relação à forma como lidam e se adaptam à sua condição de saúde e contexto.

No modelo de Lazarus e Folkman (1984) o stresse é um estado emocional que é gerado quando a pessoa avalia as exigências (internas ou externas) como sendo causadoras de dano, ameaça ou desafio e como não tendo os recursos necessários para lhes fazer frente.

Assim, as emoções são desencadeadas tanto na avaliação primária (avaliação da exigência) como na secundária (avaliação de coping), constituindo os três conceitos – stresse, emoção e coping – uma unidade conceptual, na qual as emoções são o conceito supra organizador, pois inclui o stresse e o coping.

O fenómeno do stresse ocorre se a avaliação tem um resultado negativo e a situação é percebida como potencialmente prejudicial e difícil de lidar. O conceito de coping envolve uma variedade de comportamentos, cognições e percepções que oferecem alguma protecção ao stresse e estão relacionados com o bem-estar individual. A reacção pessoal aos acontecimentos depende de como cada pessoa a percebe, ameaçadora ou não. Neste sentido, não é a situação em si mesma, mas a forma como o indivíduo a avalia que determina a resposta emocional consequente. Na teoria de Lazarus, a avaliação cognitiva e o coping são os mediadores fundamentais das relações de stresse “pessoa-ambiente”. A reacção de stresse a um acontecimento não é uma simples propriedade do estímulo, mas o resultado das reacções emocionais e cognitivas do organismo. Apesar de se considerar que os estilos de coping são relativamente estáveis, estes são contextuais, podendo ser modificados de acordo com as situações. Assim, o conceito de coping deve ser entendido como um processo em que  as circunstâncias pessoais e a maneira como elas são avaliadas são modificadas pela pessoa, no sentido de as tornar mais favoráveis (Lazarus & Folkman, 1984, Lazarus, 1993; Lovallo, 1997; Lazarus, 1999; Lovallo e Thomas, 2000).

Tendo em conta a falta de estudos epidemiológicos em pessoas idosas internadas em UCC que permitam caracterizar as perturbações afectivo-emocionais e delinear intervenções adequadas, reduzindo a co-morbilidade, espera-se que os resultados deste estudo reforcem o conhecimento, especificamente no que diz respeito à prevalência, diferença de género e quanto à tipologia de CC, contribuindo para o desígnio maior de facilitar “as transições, os processos de transição, fornecendo, gerindo autocuidado terapêutico desde a concepção até à morte – ao longo do ciclo vital, procurando que o percurso vivencial de indivíduos, famílias e comunidades seja cumprido com bem-estar e não apenas no conceito de saúde ou no de ausência de doença” (Queirós, 2012)

Conclusões

A prevalência pontual de perturbações afectivo-emocionais (depressão, ansiedade ou stresse) é elevada, especialmente em relação à perturbação depressiva, mas mais baixa quando comparada com outros estudos como aqueles feitos em pessoas idosas institucionalizadas em lares de terceira idade residentes na comunidade.

As mulheres apresentam níveis mais elevados de ansiedade do que os homens, não sendo evidenciada essa diferença em relação à depressão e ao stresse. As pessoas que se encontram em unidades de internamento de tipologia de média duração e de reabilitação apresentam valores de depressão mais elevados que as da tipologia de convalescença não sendo evidente essa diferença em relação à ansiedade e ao stresse. Estas diferenças não são consonantes com outros resultados em que as mulheres apresentam, na generalidade níveis mais elevados de perturbações depressivas, de ansiedade e de stresse, em amostras de pessoas adultas e idosas internadas ou a residir na comunidade.

Estes resultados levam-nos a reflectir sobre a capacidade de adaptação destas pessoas à sua condição de saúde e contexto podendo justificar o desenvolvimento de uma estratégia de intervenção precoce ao nível das Unidades de Cuidados Continuados, prestando especial atenção às pessoas com internamentos mais prolongados.

Referências Bibliográficas

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