CONTEXTO HISTÓRICO DA PRESTAÇÃO DE CUIDADOS DE SAÚDE MENTAL

Jan 3, 2013

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HISTORICAL CONTEXT OF MENTAL HEALTH CARE

CONTEXTO HISTÓRICO DE LA  ATENCIÓN EN SALUD MENTAL
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AUTORES: Albano Ramos, César Fonseca, Vitor Santos

RESUMO

A evolução terapêutica, na Casa de Saúde do Telhal, foi, desde cedo, marcada pela preocupação de reabilitar os doentes para a vida social através do trabalho. A par dos melhores hospitais estrangeiros similares, foram-se aperfeiçoando métodos terapêuticos reconhecidamente eficazes para a época de que são exemplo: a hidroterapia, a diatermia, a organoterapia, a soroterapia, a malarioterapia, a electroconvulsivoterapia, tal como a terapêutica convulsionante e a realização de lobotomias aos doentes internados. De todas estas formas de tratamento hoje pouco mais nos resta que a sua história, mas todas ela contribuíram para realçar e desenvolver o papel do enfermeiro em enfermagem psiquiátrica.

PALAVRAS-CHAVE: Evolução, cuidar, terapêutica, CST, enfermeiro

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ABSTRACT

The therapeutical evolution, in Casa de Saúde do Telhal, was, since early, characterized for the concern to rehabilitate the sick people for the social life through the work.Along with the best similar hospitals of the world, they had been perfecting efficient therapeutical methods admittedly for each time, of that they are example: the hidrotherapy, the diatermy, the organotherapy, the sorotherapy, the malariotherapy, the electroconvulsive therapy, as the convulsive therapeutical and the accomplishment of lobotomias to the interned patients. Of all these forms of treatment, today little more remain of what its history, but all it had contributed to enhance and to develop the paper of the nurse in psychiatric nursing.

KEY-WORDS: Evolution, to care, therapeutical, CST, nurse.

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São João de Deus não frequentou nenhum curso de medicina, de enfermagem ou de gestão hospitalar, mas deu cartas aos médicos, aos enfermeiros e aos gestores das obras assistenciais do seu tempo e de todos os tempos, provocando uma autêntica revolução hospitalar. A sua escola foi a escola da vida, dinamizada pela força do amor. Ele foi um verdadeiro inovador nos campos da medicina e da enfermagem. Essa glória é-lhe hoje reconhecida, quer em Portugal quer no estrangeiro.

A Casa de Saúde do Telhal (CST), consagrada desde a sua fundação em 1893 aos doentes mentais, soube captar o espírito de S. João de Deus, da Ordem Hospitaleira e do seu restaurador em Portugal.

Antes de mais, a sua fundação veio preencher em Portugal uma grande lacuna no campo da medicina psiquiátrica, onde foi pioneira.

Os cuidados prestados aos doentes internados na CST foram quase sempre marcados pela inovação e pela excelência. Daí que desde a fundação da CST até aos dias que correm, a evolução dos cuidados aí praticados nunca tenha estagnado. Esta evolução não divergiu muito da que ocorreu nos grandes e importantes Hospitais psiquiátricos nacionais e europeus.

 Desde os primeiros tempos de existência da CST que o trabalho foi considerado como um dos meios mais valiosos, tendo em vista o tratamento e a reabilitação dos doentes. Chama-se ao trabalho executado com objectivos terapêuticos: trabalho terapêutico ou laborterapia, e, em função dos seus objectivos, terapia do trabalho, terapia activa ou, simplesmente, ergoterapia.

Assim, seleccionados previamente os enfermos, de harmonia com o estado físico, a idade e a educação, o trabalho agrícola e industrial constituiu na Casa de Saúde do Telhal um dos seus meios curativos mais valiosos.

Desta forma se esbateram muitos acessos de agitação psicomotora. É o próprio Dr. Luís Cebola, um dos Directores Clínicos da CST que refere em relação ao trabalho: “Os acessos de fúria quebram, as alucinações visuais se apagam, as vozes alucinatórias se emudecem e as ideias delirantes se extinguem; em muitos se esbatem sintomas importunos e perigosos”.

A hidroterapia foi o processo terapêutico mais utilizado durante os primeiros anos de existência da Casa de Saúde do Telhal. Como terapêutica sedativa normal, a Casa de Saúde do Telhal utilizava, sobretudo, dois tipos de banho:

       – O banho de imersão

       – O duche escocês.

No banho de imersão o doente era deitado e mantido numa banheira com água a 37/38ºC, atado a uma lona fixa à parte superior da banheira, mantendo apenas a cabeça de fora, que era molhada pelo enfermeiro com toalhas de água fria;

No duche escocês o doente, atado a uma estrutura de ferro no extremo de uma sala era atingido por fortes jactos de água quente lançados sobre os trajectos dos seus plexos nervosos. Quando a pele apresentava manchas vermelhas, passava-se um jacto de água fria sobre o doente que era, em seguida, levado para a cama. Este duche era usado em doentes deprimidos.

Além destes, eram ainda utilizados outros tipos de banhos:

  •       Os banhos de chuva;
  •       Duche de pressão ou de esguicho;
  •       Duche circular;
  •       Banho de assento.

 A década de 30 do século XX corresponde a um período de profunda transformação da medicina e correspondeu, no Telhal, a um grande salto qualitativo.

Em 1931 os doentes internados eram agrupados em 4 categorias: os alcoólicos, os esquizofrénicos, os maníacos-depressivos e os paralíticos gerais.

Para os alcoólicos, o tratamento era simples: a abstenção do álcool, apoiada, de quando em vez, por 10 gramas de sulfato de sódio.

Para os esquizofrénicos agitados ou furiosos, usavam-se os meios de contenção em voga na época: a reclusão em celas e a utilização de coletes de forças. Para controlar os seus instintos de violência, os pacientes eram amarrados à cama com correias e lençóis. Aos gatistas era frequentemente dada a alternativa do cadeirão com um buraco ao centro, sobre um bacio, onde eram compulsivamente sentados, nus da cintura para baixo, e onde permaneciam longas horas.

Para os esquizofrénicos agitados ou furiosos, também se usava o leite como sedativo. Eram injectados ao doente cerca de 3 a 5 cc de leite, por via intramuscular, o que ia provocar febre alta, prostração e desidratação, aliviando assim a sua agitação porque este passava a “fixar-se” mais no sofrimento físico provocado pela febre e dor, causadas pela administração do produto e menos no seu sofrimento psicológico.

Por vezes também se utilizava a Terebentina, em injecção sub-cutânea profunda, que provocava no tecido celular sub-cutâneo uma enorme irritação e depois um abcesso. Mais uma vez era desviada a atenção do doente para o sofrimento físico, era a substituição da antiga chicotada. Este abcesso de fixação mantinha-se durante alguns dias e quando já se encontrava em plena maturação, abria-se e drenava-se. Não era raro que logo a seguir se procedesse a idêntica terapêutica na outra coxa.

Para os maníacos-depressivos e os esquizofrénicos calmos, a melhor terapêutica eram os passeios pelos parques, ao ar livre.

Para os paralíticos gerais, forma quaternária da sífilis, a terapêutica mais frequente, era a malarioterapia. Estávamos por volta do ano de 1935. Por essa altura havia muita malária em Portugal e criavam-se mosquitos anofelis em estações construídas para o efeito. Os irmãos de S. João de Deus, requisitavam os mosquitos na estação antipalúdica, nomeadamente em Pegões, que vinham em gaiolas de rede finas. Estas eram atadas com uma ligadura entre as coxas dos doentes. Como a rede era fina os mosquitos não podiam fugir mas podiam picar, infectando assim o doente e transmitindo-lhe a malária. Logo que se dava conta de o mosquito ter produzido efeito num doente, a gaiola era retirada àquele doente e colocada noutro. Quando o doente começava a ficar com temperaturas elevadas, era-lhe feito um gráfico e observada a temperatura regularmente para se poder definir o tipo de febre. O ideal era que o mosquito provocasse um tipo de temperatura que desse acessos febris de 3 em 3 dias (febre terça), pois os acessos febris diários, porque eram demasiado frequentes, provocavam muita desidratação no doente e os de 4 em 4 dias já se tornavam demasiados espaçados. Se a febre era terça, e só essa interessava, uma vez o doente infectado, podia transmitir-se a doença a outros doentes por colheitas de sangue dos doentes infectados. Faziam-se colheitas de sangue (cerca de 20 cc cada) de um doente infectado que era depois injectado noutro doente, produzindo-se assim a contaminação. Nessa altura a CST tinha cerca de 600 doentes, com 30 a 40 a fazerem malarioterapia. Depois de cerca de uma dezena de acessos, procedia-se à cura do paludismo, através do quinino. A CST foi pioneira na introdução desta terapia em Portugal.

Para muitos doentes, estas foram, até à década de 30, as únicas formas de acalmar temporariamente a agitação e a agressividade.

Estes métodos de tratamento eram, contudo, utilizados quando a agitação do doente não conseguia ser acalmada por processos menos dolorosos e invasivos.

Foi também na década de 30, por volta de 1933, que se começou a utilizar agentes convulsivos, no tratamento da esquizofrenia. Como exemplo temos o Cardiozol, extraído da cânfora, que injectado endovenosamente nos esquizofrénicos lhes provocava uma crise convulsiva muito forte e violenta que acabava por se traduzir em resultados muito benéficos para os doentes. Apesar dos benefícios a violência da convulsão fazia com que fossem necessários 4 enfermeiros para segurar no doente, não sendo coisa rara de se observar as luxações e fracturas. Foi muito utilizado durante vários anos na CST.

 Além destes processos terapêuticos, a década de 30 assistiu ao nascimento e implementação de outros mais modernos e mais eficientes. Os principais foram:

       – O choque-insulínico;

       – O electro-choque;

       – A leucotomia.

O CHOQUE-INSULÍNICO ou insulinoterapia:

O choque-insulínico foi muito utilizado na CST no tratamento das psicoses e do delírium tremens, desde a sua introdução em Portugal em 1936.

A insulinoterapia consistia na administração de doses progressivas de insulina ao doente (iniciava-se por 10 u até 60 u) em jejum, até atingir o coma, de que era depois despertado pela administração de um solução açucarada administrada por gavagem ou, quando o coma era já muito profundo ou a administração por gavagem não resultava tão célere como se previa, pela administração de 20 a 40 cc de soro glucosado hipertónico, por via endovenosa. Sempre que possível, a administração por gavagem era preferida à endovenosa por a primeira originar normalmente um acordar mais suave, apresentando também o doente uma melhor disposição ao acordar.

O ELECTRO-CHOQUE:

O electro-choque começou a ser utilizado em Roma em 1938, em doentes esquizofrénicos, no ano seguinte já se tinha tornado uma prática normal no Telhal.

Por vezes a terapêutica com a insulina e pelo electro-choque eram associadas, designando-se por terapêutica dupla: quando o doente entrava em coma insulínico era-lhe por vezes administrado um electro-choque.

A LEUCOTOMIA:

A leucotomia ou lobotomia pré-frontal consistia em seccionar na substância branca do cérebro feixes de associações com centros afectivos diencefálicos. Foi desenvolvida pelo Prof. Egas Moniz e valeu-lhe o Prémio Nobel.

Este deslocava-se frequentemente à CST, começou imediatamente a realizar aí as célebres intervenções. Só em 1936, quando a nova técnica ainda ensaiava os primeiros passos, realizou 9.

De todas estas formas de tratamento hoje pouco mais nos resta que a sua história, mas todas ela contribuíram para realçar e desenvolver o papel do enfermeiro em enfermagem psiquiátrica.

A CST acompanhou e contribuiu de maneira definitiva para a grande revolução psiquiátrica realizada em Portugal a partir de meados do século XX.

A década de 50 foi a grande viragem da psiquiatria, com a implementação maciça da quimioterapia, a que se refere o Dr. Pistacchini Galvão, clínico do Telhal: “ Entrámos na era da psicofarmacologia, dos neurolépticos ( 1952 ), dos antidepressivos ( a Imipramina data de 1957 ), dos ansiolíticos ou tranquilizantes, que vão progressivamente tomando o lugar ”, “ A eficácia, pelo menos sintomática, dos psicofármacos, atenuando rapidamente a sintomatologia psicótica, modifica o comportamento do doente, desalienando-o e permitindo uma relação terapêutica complementar no plano psicológico e sociológico ”.

1952 marca a entrada na CST do Serpasil e do Largatil, derivados da Fenotiazina. Daí para cá, não mais parou a utilização dos psicotrópicos, que permitem uma humanização cada vez maior dos tratamentos hospitalares dos doentes psicóticos.

Segundo o Dr. José Castelão, a CST em muito contribuiu para a investigação científico-farmacológica em Portugal, refere-nos em 1995 que:

“ … desde sempre o corpo clínico desta Casa se preocupou com os trabalhos de investigação, colaborando com os Laboratórios no ensaio de novos medicamentos psicotrópicos. ”

“ No ano de 1985, em colaboração com os colegas Silveira Nunes e Vasconcelos Rodrigues, tivemos oportunidade de ensaiar o Haldol Decanoato, que recentemente havia sido introduzido em Portugal, … ”

“ … em 1987, ensaiei um novo neuroléptico, o Risperidone, que ainda não se encontra comercializado entre nós e que foi o primeiro ensaio realizado em Portugal com esta molécula. ”

Para além desta evolução terapêutica, hoje em dia o doente da CST tem à sua disposição serviços e programas de reabilitação estruturados, para além de meios de distracção, cultura e desporto que lhe permitem atingir a reorganização do seu mundo interior e reencontrar a identidade consigo mesmo, lhe incute a consciência de ser uma pessoa entre as outras pessoas, lhe restitui dignidade e lhe franqueia a porta de regresso à sociedade quando possível e, se possível, ao trabalho que a doença obrigou a interromper.

Assim na CST desde sempre se pretendeu prestar uma assistência marcada pela inovação e vanguarda.

Esta pesquisa que realizei em muito se deve ao Irmão Enfermeiro Cândido Costa e aos seus testemunhos que ainda tive o prazer de ouvir dos seus próprios lábios nos poucos meses que o acompanhei em vida. É justo que enalteça o trabalho e a dedicação que ele sempre teve para com os doentes e para com a Enfermagem, sobretudo na Casa de Saúde do Telhal.

BIBLIOGRAFIA:

BOTELHO, José Rodrigues – História da enfermagem psiquiátrica em Portugal, Lisboa 1996, p. 42-46.
CORDO, Margarida – Casa de Saúde do Telhal, apresentação 1893 – 2003, Lisboa 2003, p. 3-11.
COSTA, Ir. Cândido da – Clínica escolar dos irmãos de S. João de Deus – Hospitalidade, nº 72, 1953, p. 402 – 404.
LAVAJO, Joaquim Chorão – Ordem Hospitaleira de São João de Deus em Portugal 1892 – 2002, Lisboa 2003, p. 185-205.

 

 

 

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