FUNÇÃO COGNITIVA E CAPACIDADE FUNCIONAL EM MULHERES ACIMA DE 50 ANOS DE IDADE

Rafael Benito Mancini
Sandra Mahecha Matsudo
Victor Matsudo

Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul
CELAFISCS

Endereço para Correspondência

Rafael Benito Mancini

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RESUMO

Durante o processo de envelhecimento ocorre diminuição da função cognitiva que pode estar associada com o declínio da capacidade funcional. O objetivo do estudo foi associar a função cognitiva com as variáveis antropométricas, força muscular e capacidade funcional e comparar às mesmas variáveis nas mulheres que apresentaram melhor desempenho cognitivo com aquelas que apresentaram déficit cognitivo. Foram avaliadas mulheres praticantes de atividade física. As variáveis antropométricas analisadas foram o IMC, a adiposidade e a relação cintura-quadril. A força muscular foi medida pelo teste de preensão manual e pelo teste de impulsão horizontal sem o auxilio dos braços e a capacidade funcional pelos testes de equilíbrio estático, velocidade de levantar da cadeira, velocidade de andar, velocidade máxima de andar e a agilidade. Análise estatística: Spearman rho, teste t de Student e o teste Mann-Whitney (p<0,05). Resultados: Foi encontrada associação da função cognitiva com o IMC, IVS, equilíbrio estático e velocidade de andar. Mulheres que apresentaram melhor desempenho cognitivo também mostraram melhores valores de IVS (16,09%) e equilíbrio estático (35,40%). Conclusão: Mulheres que apresentam uma preservação da força muscular de membros inferiores durante o processo de envelhecimento podem ter uma função cognitiva preservada, ressaltando a necessidade de um estilo de vida ativo.
Palavras chaves: Envelhecimento, Função Cognitiva, Força Muscular, Capacidade Funcional

ABSTRACT

During the aging process there is a decrease in cognitive function that may be associated with a decline in functional capacity. The purpose of this study was to measure the association cognitive function with the anthropometric variables, muscle strength and functional capacity and compare the same variables in women who had better cognitive performance with those who had cognitive impairment. We evaluated women who exercise. The anthropometric variables analyzed were BMI, body fat and waist-hip ratio. Muscle strength was measured by a handgrip test and the horizontal thrust without the help of arms and the functional capacity tests of static balance, speed of rising from a chair, walking speed, walking speed and agility. Statistical analysis: Spearman rho, Student’s t test and Mann-Whitney test (p <0.05). Results: We found an association of cognitive function with BMI, IVS, static balance and walking speed. Women who had better cognitive performance also showed higher values of IVS (16.09%) and static balance (35.40%). Conclusion: Women who have a preservation of muscle strength of lower limbs during the aging process may have a preserved cognitive function, emphasizing the need for an active lifestyle.
Keywords: Aging, Cognitive Function, Muscle Strength, Functional Capacity

INTRODUÇÃO
Podemos definir a função cognitiva ou sistema funcional cognitivo como as fases do processo de informação, que envolvem percepção, aprendizagem, memória, atenção, vigilância, raciocínio e solução de problemas, sendo que o funcionamento psicomotor (tempo de reação, tempo de movimento, velocidade de desempenho) poderia ser incluído também neste conceito (Antunes et al., 2006).

Nesse sentido, estudos mostram que o declínio cognitivo é influenciado pelo processo de envelhecimento. Entretanto, os motivos que levam ao prejuízo cognitivo ao longo dos anos ainda não estão bem claros na literatura. No entanto algumas hipóteses ganham destaque neste cenário, sendo que dentre elas estão o prejuízo na função do lobo frontal e na função neurotransmissora, além da diminuição da circulação sanguínea cerebral (Laurin et al., 2001). Outro achado importante foi o descrito por Colcombe et al. (2003), em que durante o envelhecimento ocorreria uma diminuição de densidade de tecido neural no córtex frontal, parietal e temporal, da mesma forma que ocorre na maiorias dos tecidos havendo um desequilíbrio entre a lesão e reparação neural, estabelecendo-se assim o envelhecimento cerebral.

Por outro lado, recentes estudos vêm mostrando que a atividade física pode atenuar o prejuízo causado pelo processo de envelhecimento na função cognitiva, tendo em vista que já é classificada como evidência categoria A/B (ACSM, 2009).
Dessa forma, atividade física com predomínio do metabolismo aeróbico vem sendo associada com uma melhora da função cognitiva em adultos idosos. Mulheres idosas com um maior nível de atividade física apresentam 50% menos riscos de apresentar demência e declínio cognitivo e 60% de desenvolver doença de Alzheimer quando comparadas com sedentárias (Laurin, 2001).

Em outro estudo, quando comparado o nível de atividade física em MET´s, as mulheres mais ativas tinham 20% menos risco de apresentar declínio cognitivo do que as menos ativas (Weuve, 2004). Nesse sentido, um estudo retrospectivo analisou a atividade física praticada por idosos de 65 anos durante a adolescência, aos 30 e aos 50 anos, sendo que quando a atividade física era praticada com regularidade em qualquer idade, havia um menor risco de desenvolver debilidades mentais durante a velhice e ainda a proteção era maior quando a atividade física era praticada na adolescência (Middleton, et al. 2010).

Mas o exercício de força muscular também vem sendo associado a uma melhora da performance cognitiva, sendo que após um período de treinamento com pesos de intensidade moderada a alta, idosos obtiveram impacto positivo nas funções cognitivas (Casilhas et al, 2007). Por outro lado, a função cognitiva vem sendo associada ao processo neuromuscular que pode afetar diretamente a força muscular (Clark e Manini, 2010) e indiretamente a capacidade funcional de pessoas mais velhas (Atkinson et al, 2010).

Assim, o presente estudo teve como objetivo associar a função cognitiva com as variáveis antropométricas, de força muscular e capacidade funcional de mulheres praticantes de atividade física, como também comparar as mesmas variáveis entre as mulheres que apresentaram um melhor desempenho cognitivo com aquelas com déficit cognitivo.

MATERIAIS E MÉTODOS

Amostra
A amostra do presente estudo foi composta por 154 mulheres de 50 a 88 anos de idade (68,44 +7,63 anos) que freqüentavam o centro social e recreacional para a terceira idade “Dr. Moacyr Rodrigues”, onde o Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (CELAFISCS) realiza, desde 1997, o Projeto Longitudinal de Envelhecimento e Aptidão Física de São Caetano do Sul. Os critérios de inclusão adotados foram: ser do sexo feminino, fazer parte do programa de exercícios físicos oferecidos pelo centro há pelo menos seis meses e ter freqüência nas aulas igual ou superior a 75%. Todas as participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido, previamente aprovado pelo comitê de ética em número 028/2010-A da Fundação Municipal de Saúde de São Caetano do Sul. As aulas eram realizadas duas vezes por semana, em dias alternados (terças e quintas-feiras ou quartas e sextas-feiras), no período matutino, com duração de 50 minutos por aula, com grupo de aproximadamente 30 mulheres e homens por turma. As atividades realizadas foram subdivididas em atividades de aquecimento, atividades aeróbicas, de alongamento e exercícios de fortalecimento muscular.

Estado Cognitivo
O estado cognitivo foi analisado através do questionário Mini exame de estado mental (MEEM), desenvolvido por Folstein (1975), mas adaptado por Bruck et al (2003) para utilização no Brasil,que foi aplicado individualmente a cada participante do estudo. O escore deste teste varia entre o mínimo de 0 e o máximo de 30 pontos. O MEEM é um teste composto por diversos quesitos, agrupados em sete categorias, cada um com o objetivo de avaliar funções cognitivas específicas como: orientação temporal (5 pontos), orientação espacial (5 pontos), memória imediata (3 pontos), atenção e cálculo (5 pontos), memória de evocação (3 pontos), linguagem geral (9 pontos). Para o presente estudo foi utilizado apenas a somatória dos pontos do instrumento e utilizando o escore geral para a análise dos dados.

Avaliação da Aptidão Física e Capacidade Funcional
Os dados de aptidão física e capacidade funcional foram coletados durante as avaliações realizadas pela equipe do CELAFISCS, que aconteciam periodicamente duas vezes ao ano, uma a cada semestre seguindo a padronização de baterias de testes e medidas propostos pelo CELAFISCS (Matsudo, S. 2010).

Variáveis Antropométricas, Força Muscular e Capacidade Funcional
As variáveis antropométricas analisadas foram a massa corporal total, a estatura, o índice de massa corporal (IMC), a adiposidade através da média de três dobras cutâneas (tríceps, subescapular e suprailíaca), a circunferência da cintura e do quadril e a relação cintura-quadril (Matsudo S, 2010).

Para medir a massa corporal total foi utilizada uma balança com capacidade de 200 quilogramas e com precisão de 100 gramas. As mulheres participantes do estudo foram orientadas a ficar descalças, em pé, sobre a plataforma da balança com o peso do corpo distribuído igualmente entre os pés, usando o mínimo de roupa possível.
A estatura foi medida com uma fita métrica graduada em centímetros fixada na parede e um cursor antropométrico. A participante foi orientada a ficar descalça na posição ortostática com o calcanhar, cintura pélvica, cintura escapular e região occipital encostados na parede. A medida foi realizada com o individuo em apnéia inspiratória e com a cabeça paralela ao solo orientada no plano de Frankfurt.

O IMC foi estimado a partir do cálculo dado pela divisão da massa corporal, em quilogramas, pelo quadrado da estatura em metros. A adiposidade foi determinada indiretamente com mensurações de três dobras cutâneas que representavam as regiões dos membros superiores (dobra cutânea tricipital – TR) e tronco (dobra cutânea subescapular – SE e dobra cutânea supraílica – SI); utilizando para calcular a média de três medidas de cada dobra cutânea.
As circunferências foram obtidas com uma fita métrica metálica, aplicada na parte mais estreita do tronco para circunferência da cintura (CC) e no maior volume dos glúteos para circunferência do quadril (CQ). A relação da cintura em relação ao quadril (RCQ) foi calculada dividindo a CC pela CQ, ambas medidas em cm.
A força muscular de membros superiores foi determinada pelo teste de preensão manual (dinamometria) do lado direito. Já a força muscular de membros inferiores foi medida pelo teste de impulsão vertical sem o auxílio dos braços (IVS).
A capacidade funcional foi analisada pelos testes de:
a. Equilíbrio estático: medido através do teste de 30 segundos com controle visual.
b. Velocidade de levantar da cadeira: dada pelo tempo do individuo se movimentar da posição sentada à posição em pé o mais rápido possível.
c. Velocidade normal de andar: dada pelo tempo do individuo percorrer 3,33 metros.
d. Velocidade máxima de andar: medida pela velocidade máxima do individuo percorrer 3,33 metros.
e. Agilidade: medida pelo teste de “shuttle run”.

ANÁLISE ESTATÍSTICA
Para testar a normalidade da distribuição dos dados foi utilizado o teste de Kolmogorov Smirnov. Para correlacionar a função cognitiva dado pelo escore geral do MEEM, com as variáveis antropométricas, força muscular e com a capacidade funcional foi usada a correlação de Spearman’rho.
Para fazer a comparação foi utilizado o seguinte critério – A amostra foi dividida em dois grupos: Grupo Melhor Desempenho Cognitivo: aquelas que obtiveram mais de 28 pontos no teste MEEM; e Grupo Déficit Cognitivo: aquelas que apresentaram menos que 24 pontos no teste de MEEM. Para comparar as variáveis antropométricas, força muscular e a capacidade funcional entre os grupos foi utilizado o teste t de Student para amostras independentes nos dados paramétricos e o teste de Mann-Whitney nos dados não paramétricos, sendo o nível de significância adotado de p<0,05.

RESULTADOS
Convencionando o valor máximo em 30 pontos, os resultados do MEEM obtidos foram expressivos, com uma média de 25,25 (+ 3,57). O nível de escolaridade apurou que 75% das mulheres tinham o ensino fundamental completo ou incompleto, 16% o ensino médio, 7% o ensino superior e apenas 2% eram analfabetas.
Quando se analisou o desempenho do MEEM (Tabela 1) com as variáveis antropométricas, encontrou-se associação negativa de baixa magnitude e estatisticamente significante apenas com o IMC, enquanto que nas variáveis adiposidade e RCQ foram encontradas associações não significantes.

Tabela 1: Associação entre o MEEM e as variáveis antropométricas
Variáveis x s rho p
IMC (kg/m2) 27,14 5,45 -0,14 0,04*
Adiposidade (mm) 19,33 7,68 0,01 0,49
RCQ 0,92 0,68 -0,10 0,11
Sperman rho
*p<0,05

A Tabela 2 mostra os valores da associação do MEEM entre as variáveis de força muscular. Ao analisar o MEEM com a dinamometria não foi encontrada associação estatisticamente significante, mas houve associação significante entre o MEEM e a impulsão vertical, que foi positiva, porém de baixa magnitude.

Tabela 2: Associação entre o MEEM e a força muscular
Variáveis x s rho p
Dinamometria (kg) 24,76 4,74 0,08 0,16
Impulsão Vertical (cm) 13,06 4,20 0,20 0,01*
Sperman rho
*p<0,05

Ao analisar o MEEM quanto ao desempenho nos testes da capacidade funcional (Tabela 3), foram encontradas associações significantes entre o MEEM e o equilíbrio estático e a velocidade de andar, porém a relação foi de baixa magnitude. Não foi encontrada associação significante entre o MEEM com a velocidade de levantar da cadeira, velocidade máxima de andar e agilidade.

Tabela 3: Associação entre o MEEM e a capacidade funcional
Variáveis x s rho P
Velocidade de Levantar da Cadeira (seg.) 0,69 0,28 -0,07 0,21
Equilíbrio Estático (seg.) 17,06 9,71 0,15 0,04*
Velocidade de Andar (seg.) 3,07 0,57 -0,14 0,04*
Velocidade Máxima de Andar (seg.) 2,40 0,45 -0,04 0,30
Agilidade (seg.) 20,37 3,12 -0,11 0,09
Sperman rho
*p<0,05
Considerando-se a comparação do grupo de melhor desempenho cognitivo e de déficit cognitivo, os dados paramétricos estão descritos na Tabela 4, enquanto que na Tabela 5 estão os dados não paramétricos. Não foram encontradas diferenças estatísticamente significantes no IMC, dinamometria, agilidade e velocidade máxima de andar (Tabela 4).
Tabela 4: Comparação do grupo melhor desempenho cognitivo entre o grupo déficit cognitivo
Variáveis Melhor Desempenho Cognitivo Déficit Cognitivo
média s média s Δ% p
IMC (kg/m2) 26,99 3,80 28,84 5,16 -6,41 0,07
Dinamometria 25,75 4,53 24,25 4,74 6,19 0,96
Agilidade 19,80 2,55 21,35 3,64 -7,26 0,24
Velocidade Máxima de Andar (seg.) 2,37 0,39 2,49 0,64 -4,82 0,09
teste t; *= p<0,05
Verificou-se que as participantes incluídas no grupo de melhor desempenho cognitivo a apresentaram melhor desempenho nos testes de impulsão vertical (16,09%) e equilíbrio (35,40%), ambas estatisticamente significantes (Tabela 5). Na comparação das variáveis adiposidade, RCQ, velocidade de levantar da cadeira e velocidade de andar, não se encontraram diferenças significantes.
Tabela 5: Comparação do grupo melhor desempenho cognitivo com o grupo com déficit cognitivo
Variáveis Melhor Desempenho Cognitivo Déficit Cognitivo
média s média s Δ% p
Adiposidade (mm) 19,61 5,93 19,94 9,88 -1,65 0,91
RCQ 0,89 0,09 0,89 0,09 -0,4 0,64
Impulsão Vertical (cm) 14,50 4,30 12,49 9,66 16,09 0,01*
Velocidade de Levantar da Cadeira (seg.) 0,72 0,33 0,71 0,27 1,41 0,84
Equilíbrio Estático (seg.) 19,20 8,76 14,18 9,81 35,40 0,03*
Velocidade de Andar (seg.) 3,26 1,89 3,24 0,71 0,62 0,14
Mann-Whitney; *= p<0,05

DISCUSSÃO
De um modo geral as variáveis antropométricas analisadas no presente estudo, não pareceram se associar com prejuízo à função cognitiva avaliada pelo MEEM, com exceção do IMC. O resultado apresentado foi inversamente associado com o desempenho cognitivo, onde mulheres com um IMC maior apresentaram menores resultados do escore geral do MEEM. Quando comparamos as variáveis antropométricas de acordo com a função cognitiva, o grupo que apresentou déficit cognitivo obteve piores resultados nas variáveis antropométricas (IMC, Adiposidade e RCQ). Resultados semelhantes foram encontrados por Romeira (2006), que ao analisar a relação entre função cognitiva e as variáveis antropométricas (IMC, % de gordura, RCQ e circunferência da cintura) não encontrou associações significantes. Outro estudo mais recente mostrou que mulheres acima de 50 anos de idade, com a RCQ abaixo de 0,78, apresentaram piores resultados da função cognitiva avaliada pelo MEEM em mulheres com altos valores de IMC; e quando a RCQ era maior que 0,90 o grupo que tinha maiores valores do IMC, teve melhores resultados do MEEM (Kervin et al, 2010)
A hipótese sobre o mecanismo envolvido na relação dessas variáveis está baseada em Gustafson et al.(2004), que postularam que o excesso de peso e obesidade durante a vida adulta poderiam contribuir para a atrofia do lobo temporal em mulheres após a menopausa e ainda Jagust et al. (2005) que relataram que a obesidade visceral estava associada a processos neurodegenerativos vasculares e metabólicos que afetam estruturas cerebrais, contribuindo para o declínio cognitivo e a demência.
No que se refere à força muscular relacionada com a função cognitiva, nesta amostra mulheres que apresentaram melhor função cognitiva tenderam a apresentar maior força muscular de membros inferiores. A comparação dos grupos revelou que o grupo com melhor desempenho cognitivo apresentou força muscular de membros inferiores 16,09% maior do que o grupo com déficit cognitivo. Já a força muscular de membros superiores não se associou com o MEEM, com o grupo de melhor desempenho cognitivo apresentando maiores valores (6,19%) de dinamometria, porém a diferença não foi significante.
Em um estudo realizado por Atkinson et al. (2010) encontrou-se fraca correlação entre a função cognitiva e o teste de preensão manual. A perda da força muscular decorrente da idade tem características importantes na diminuição da força muscular de membros superiores quando comparadas com membros inferiores. Matsudo, et al., (2003) mostraram que de acordo com a idade cronológica não houve diferença na força de preensão manual entre mulheres ativas de 70 à 79 anos comparadas com mulheres de 50 à 59 anos. Um estudo de “tracking” mostrou que após 4 anos houve a manutenção da força muscular de membros superiores e queda na força muscular de membros inferiores em idosas praticantes de atividade física (Matsudo, et al., 2004). Os resultados sugerem que a força exercida no teste pode ser explicada pela participação das mãos e dos punhos em outras atividades da vida diária e a diminuição de força exercida por membros inferiores foi explicado pelo estilo de vida inativo que acompanha o envelhecimento, fato que favorece as incapacidades e a dependência física (Mazo et al. 2005).
Mas ainda existe outro mecanismo que envolve as questões aqui citadas. Clark e Manini (2010) sugerem que a função cognitiva esteja relacionada com o processo neuromuscular sendo fatores como a excitabilidade espinhal, a taxa de descarga e o recrutamento de unidades motoras entre aqueles que poderiam comprometer assim a força muscular. Outro fator que poderia explicar tal fenômeno seria a diminuição do circuito espinhal que inerva um menor número de motoneurônios em membros inferiores quando comparado com os membros superiores a medida que se envelhece (Aagaard, et al. 2010).
Esse aspecto de diminuição da força muscular se relaciona com o desempenho nos testes de capacidade funcional, onde o melhor resultado no MEEM se relacionou com melhores resultados nos testes de equilíbrio estático e velocidade de andar (teste que tem característica de equilíbrio dinâmico), sendo que estes dois testes dependem da força muscular exercida. Reforçando a hipótese, cita-se o fato do grupo com melhor desempenho cognitivo foi 35,40% melhor no teste de equilíbrio estático do que o grupo com déficit cognitivo.
Atkinson, et al. (2010) encontraram fraca associação entre a velocidade de andar e a velocidade de levantar da cadeira. Por outro lado, Watson et al. (2010) demonstraram que quanto menor a velocidade de andar pior foi a função executiva e a memória, resultados semelhantes aos do presente estudo.

LIMITAÇÕES
O presente estudo apresentou algumas limitações, como o fato de serem utilizados testes indiretos, uma ampla faixa etária e não terem sido controladas algumas variáveis que pudessem interferir nos resultados, como a presença de doenças e o início do consumo de medicamentos.

CONCLUSÃO
Com base nos resultados obtidos no presente estudo podemos concluir que nesta amostra houve associação entre a função cognitiva com o IMC, com a força muscular de membros inferiores e com a capacidade funcional através dos testes de equilíbrio estático e velocidade de andar, porém associações de baixa e fraca magnitude. Por outro lado, mulheres que apresentaram melhor desempenho cognitivo também mostraram melhores valores de força muscular de membros inferiores e equilíbrio estático.
Assim sendo, mulheres que apresentam uma preservação da força muscular de membros inferiores durante o processo de envelhecimento também podem ter uma função cognitiva preservada ressaltando a necessidade de um estilo de vida ativo.

Agradecimentos
Parte deste artigo foi apresentada no 33º Simpósio Internacional de Ciências do Esporte em 2010, com o titulo de Associação entre Função Cognitiva e Capacidade Funcional em mulheres acima de 50 anos de idade praticantes de atividade física.

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