AUTORA

S. Rodrigues, Enfermeira Especialista em Enfermagem de Saúde Materna e Obstetrícia

Trabalho realizado no âmbito da monografia de Licenciatura em Enfermagem

CORRESPONDÊNCIA

E-mail: sofia.i.borges@gmail.com

2.RESUMO

A hospitalização constitui um risco de infeção, que justifica o facto de a infeção urinária nosocomial (IUN) permanecer uma problemática constante, apesar do seu longo historial temporal.

O processo de investigação desenvolvido teve por objectivos determinar se os enfermeiros conhecem os principais fatores de risco para a ocorrência da IUN, se utilizam sempre a técnica asséptica no cateterismo vesical, bem como identificar o nível de conhecimentos que detêm sobre a prevenção desta patologia.

Trata-se de um trabalho descritivo-exploratório no qual foi adoptado o método quantitativo. A colheita de dados fez-se pela aplicação de um questionário a 50 enfermeiros, sendo utilizada a amostragem por conveniência.

ABSTRACT

A “simple” hospitalization is a risk of infection, which justifies the fact that nosocomial urinary tract infection remains a constant problem, despite its long history.

The research process was developed had the following objectives: to determine whether nurses know the main risk factors for the occurrence of nosocomial urinary tract infection, if they always use aseptic technique in catheterization, and identify the level of knowledge they have about the prevention of this disease.

This is a descriptive exploratory study in which the quantitative method was adopted. Data collection was done by applying a questionnaire to 50 nurses, by convenience sampling.

3.INTRODUÇÃO

O objectivo principal deste trabalho de investigação é a realização de um estudo comparativo do nível de conhecimentos dos enfermeiros, na temática da infecção urinária nosocomial (IUN), a nível de três instituições distintas de prestação de cuidados de saúde: hospital central, hospital distrital e centro de saúde. Pretende ainda saber-se se os enfermeiros utilizam sempre a técnica asséptica no cateterismo vesical, se conhecem os principais factores para a ocorrência de IUN e identificar o nível de conhecimentos que estes detêm acerca da sua prevenção.

Normalmente, as vias urinárias e a urina são estéreis, ou seja, não contêm microorganismos, mas se por qual quer motivo estes conseguirem penetrar nas vias urinárias, desenvolvem-se com facilidade na urina, ocasionando uma infecção. A infecção urinária é definida como sendo “a presença de organismos patogénicos no trato urinário, com ou sem sinais e/ou sintomas”(1). Por sua vez, a IUN é definida pela “presença de sinais, sintomas e uroculturas positivas após 72 horas do internamento hospitalar e até sete dias após a alta hospitalar desde que não associadas a procedimentos de manipulação ou instrumentalização em ambulatório”(2).

Os cuidados de Enfermagem na prevenção e controle da IUN, baseiam-se em: “conhecer e ter segurança para realizar o ceteterismo vesical dentro da técnica específica; usar técnica correcta para lavagem das mãos e assepsia; manipular o sistema de drenagem do catéter com segurança e observar se não está desconectado ou com alguma obstrução; providenciar para que o colector esteja sempre em local limpo; fazer manipulação do catéter somente se necessário e com técnica adequada; promover a higiene do meato urinário diariamente, dentro da técnica asséptica”(3).

 Para alguns autores consultados “as atitudes chave para prevenir as infecções relacionadas com algália consistem em reduzir a duração da algaliação e garantir que o sistema de drenagem fechado se mantenha fechado”(4). Esta autora defende ainda que devem adoptar-se práticas de prevenção da infecção baseadas na evidência científica, desde a inserção da sonda vesical até à forma de lidar com o sistema de drenagem e aos cuidados a ter com o meato urinário.

Pode então afirmar-se que todos os cuidados de Enfermagem, por mais simples que aparentem ser, desde a lavagem das mãos e uso de luvas, a higiene do meato urinário dos doentes, a execução da algaliação; os cuidados diários de mobilização, mudança e fixação da sonda vesical; os procedimentos de colheitas de urina; a manutenção do circuito de drenagem; as irrigações vesicais; a realização de algaliações intermitentes, até aos cuidados com outros sistemas de drenagem urinária, como sejam a punção suprapúbica, e o sistema Pen’Rose, ou fazendo uso de fraldas descartáveis, até à educação do doente e família, são cuidados que influenciam em muito a prevenção e controlo da IUN.

 4.MATERIAL E MÉTODOS

Esta investigação tem um carácter descritivo-exploratório, situando-se no nível I de conhecimentos, de acordo com a hierarquia dos níveis de investigação sugerida por Fortin(5), pois o seu objectivo é denominar ou descrever, e existem à partida poucos conhecimentos no domínio em estudo. Foi ainda adoptado o método quantitativo, dado que se trata de um processo sistemático de colheita de dados observáveis e quantificáveis.

Hipóteses formuladas

H1 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante o género sexual dos enfermeiros.

H2 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a idade dos enfermeiros.

H3 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a formação profissional dos enfermeiros.

H4 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a instituição de exercício profissional dos enfermeiros.

H5 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a categoria profissional dos enfermeiros.

H6 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante o tempo de exercício profissional dos enfermeiros.

Variáveis em Estudo

Neste estudo, definiu-se como variável dependente o nível de conhecimentos dos enfermeiros acerca da prevenção da IUN. Como variáveis independentes temos: o sexo, a idade, a formação académica, a formação profissional, a instituição em que trabalha, a categoria profissional, o tempo de exercício profissional e o tempo no serviço actual. De referir ainda que todas estas variáveis foram escolhidas, de modo a proporcionar uma descrição o mais real possível da amostra em estudo.

Amostra

A amostra é constituída por 25 enfermeiros que trabalham num serviço de Medicina (sector masculino e feminino) de um Hospital Central, por 18 enfermeiros que trabalham num serviço de Medicina misto de um Hospital Distrital, e 7 enfermeiros que trabalham no serviço domiciliário de um Centro de Saúde. O método de amostragem utilizado foi o acidental, que significa que houve selecção de pessoas “mais prontamente disponíveis como sujeitos de um estudo”(6), e é também conhecido por amostragem por conveniência. Este tipo de amostragem favorece o uso das pessoas mais convenientemente disponíveis como sujeitos de um estudo, e o seu custo “é o risco de tendências e descobertas erróneas”(6).

Instrumento de Colheita de Dados

Dado o carácter do estudo, optou-se pelo questionário como instrumento para a recolha de informação. O questionário elaborado e utilizado incluía perguntas fechadas e perguntas abertas, e encontra-se estruturado em três partes distintas, sendo a primeira respeitante à caracterização da amostra, a segunda parte aos conhecimentos dos enfermeiros na área da IUN (consistindo numa escala de conhecimentos, cotada para 20 pontos), e a terceira e última parte é dirigida aos procedimentos dos enfermeiros, na prevenção da IUN. Antes da aplicação dos questionários procedeu-se ao pedido de autorização para o fazer nas três instituições prestadoras de cuidados, e após a recepção das respostas positivas procedeu-se à sua aplicação no período de 2 a 24 de Junho de 2004. Foram também respeitados todos os princípios éticos devidos na aplicação do instrumento de colheita de dados.

5.RESULTADOS

 No presente capítulo pretende-se dar a conhecer os resultados obtidos, em função de toda a informação colhida através da aplicação do questionário.

Caracterização da Amostra

Nesta amostra o sexo feminino domina com 68% sobre os 32% do sexo oposto, salientando-se um mínimo de 22 anos e um máximo de 52 anos, em que a média se centra nos 31 anos, com um desvio padrão a oscilar em torno da média de 7,33 anos. A maioria dos inquiridos encontra-se, com 36%, na classe etária dos 22 aos 27 anos, seguindo-se a classe etária dos 27-32 anos com 22%., possuindo também, maioritariamente, o grau de licenciados (64%), seguindo-se os bacharéis e pós-graduados com 26% e 6% respectivamente.

Metade da amostra trabalha no Hospital Central, enquanto que 36,00% exercem a sua actividade no Hospital Distrital e os restantes 14% no Centros de Saúde. Relativamente à categoria profissional, constata-se que 54% da amostra são enfermeiros, enquanto que 42% são enfermeiros graduados. Apenas 2% são enfermeiros especialistas e 4% são chefes.

Relativamente ao tempo de exercício profissional, salienta-se um mínimo de 1 ano e um máximo de 33 anos, centrando-se a média nos 8,24 anos, com um desvio padrão a oscilar em torno da média de 7,12 anos. Constata-se que a maioria exerce há menos de 5 anos com 44%, seguido de 40% entre 6 e 15 anos. Apenas 4% exercem a profissão há mais de 25 anos. Já em relação ao tempo no serviço actual, entre um mínimo inferior a 1 ano e um máximo de 33 anos, a média centra-se nos 4,62 anos, com um desvio padrão a oscilar em torno da média de 5,46 anos.    Desta amostra, 72% trabalha há menos 5 anos no serviço actual e 24% entre 6 e 15 anos.

Relativamente aos conhecimentos dos enfermeiros acerca da prevenção da infecção urinária, verifica-se um mínimo de 1 ponto e um máximo de 18 pontos, a média centra-se nos 10,8 pontos, com um desvio padrão a oscilar em torno da média de 3,98 pontos. Verifica-se que a maioria possui conhecimentos insuficientes com 38%, seguido de 34% de conhecimentos satisfatórios. Apenas 6% possuem um nível de conhecimentos muito bom. 76% dos enfermeiros consideram possuir formação suficiente na área da prevenção da IUN, os restantes 24% consideram não ter recebido formação suficiente nessa área.

Análise Inferencial

H1 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante o género sexual dos enfermeiros.

Para testar esta hipótese utilizou-se um Teste t de Student para comparação de médias de grupos independentes (neste caso para comparar as médias de conhecimentos entre homens e mulheres). Mediante os resultados obtidos (t = -0,468 e p=0,642), concluiu-se que não existe diferença significativa no nível de conhecimento entre os indivíduos do sexo masculino e feminino. Contudo, os inquiridos do sexo masculino tendem para melhores conhecimentos (x = 11,19) que os do sexo feminino. Verifica-se não haver diferenças estatisticamente significativas (p=0,642), o que implica a rejeição da hipótese H1 e a aceitação de Ho: “O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN não é diferente consoante o género sexual dos enfermeiros”.

H2 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a idade dos enfermeiros.

Para averiguar a existência de uma relação entre a idade e o nível de conhecimentos do profissional, realizou-se uma correlação de Pearson, verificando-se a existência de uma correlação negativa (r=-0,397 – associação negativa moderada), que significa que com o aumento da idade, diminui o nível de conhecimentos dos inquiridos. Assim, constata-se que essa variação apresenta significado estatístico significativo (p=0,004). Face aos resultados obtidos conclui-se que a hipótese estatística (H0) não é aceite (p=0,004), prevalecendo a formulada pelo autor (H2): “O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a idade dos enfermeiros”.

H3 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a formação profissional dos enfermeiros.

Para testar a H3 aplicou-se uma análise de variância (ANOVA), verificando-se que os enfermeiros com um curso de pós-graduação são os que possuem, em média, melhor nível de conhecimentos (12 pontos), seguidos dos licenciados com (11,75 pontos). Os enfermeiros do CESE (Curso de Estudos Superiores Especializados) são os que têm um nível de conhecimentos inferior (5,5 pontos). Constata-se a existência de diferenças estatisticamente significativas (p=0,035), o que leva à conclusão de que a hipótese estatística (H0) não é aceite (p=0,035), prevalecendo a hipótese formulada inicialmente (H3): “O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a formação profissional dos enfermeiros”.

H4 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a instituição de exercício profissional dos enfermeiros.

Para testar a H4 aplicou-se uma ANOVA, verificando-se que os enfermeiros do Hospital Distrital são os que possuem, em média, melhor nível de conhecimentos (13,72 pontos), seguidos dos enfermeiros do Hospital Central com (9,8 pontos). Os enfermeiros do Centro de Saúde são os que têm um nível de conhecimentos inferior (6,86 pontos). Verifica-se a existência de diferenças estatísticas altamente significativas (p=0,000), o que leva a concluir que a hipótese estatística (H0) não é aceite (p=0,000), prevalecendo a hipótese formulada pelo autor (H4): “O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a instituição de exercício profissional dos enfermeiros”.

H5 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante a categoria profissional dos enfermeiros.

Para estar a H5 aplicou-se uma ANOVA, verificando-se que os enfermeiros chefes são os que possuem, em média, melhor nível de conhecimentos (12 pontos), seguidos dos enfermeiros (11,92 pontos), depois pelos especialistas (com 10 pontos). Os enfermeiros graduados são os que têm um nível de conhecimentos inferior (9,33 pontos). Assim, constata-se a inexistência de diferenças estatisticamente significativas (p=0,162), o que leva a concluir que a hipótese formulada inicialmente (H5) não é aceite (p=0,162), prevalecendo a hipótese estatística: “O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN não é diferente consoante a categoria profissional dos enfermeiros”.

H6 – O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante o tempo de exercício profissional dos enfermeiros.

Ao formular esta hipótese, tentou-se averiguar e existência de uma relação entre o tempo de exercício profissional e o nível de conhecimentos, e para isso, optou-se por aplicar uma correlação de Pearson. Verificou-se a existência de uma correlação negativa (r=-0,316 – associação negativa moderada), que significa que com o aumento do tempo de exercício profissional diminui o nível de conhecimentos. Verifica-se que esta associação apresenta significado estatístico (p=0,026) e, perante os resultados obtidos conclui-se que a hipótese estatística (H0) não é aceite (p=0,026), prevalecendo a formulada inicialmente (H6): “O nível de conhecimentos sobre a prevenção da IUN é diferente consoante o tempo de exercício profissional dos enfermeiros”.

 6.DISCUSSÃO

Após a análise dos resultados, constatou-se que nesta amostra o sexo feminino é dominante, com uma percentagem de 68% enfermeiras e 32% enfermeiros, respectivamente. Esta diferença não surpreende, pois como é de conhecimento comum existe maior percentagem de mulheres a exercerem a profissão de Enfermagem. Relativamente aos conhecimentos, verificou-se pela análise inferencial que não existem diferenças significativas no nível de conhecimentos entre homens e mulheres, se bem que os inquiridos do sexo masculino tendem para apresentar melhor nível de conhecimentos (x = 11,19 pontos) que os do sexo feminino (x = 10,62 pontos).

Relativamente à idade dos inquiridos, foi encontrado um mínimo de 22 anos e um máximo de 52 anos, sendo que 36% encontram-se na faixa etária dos 22 aos 27 anos e apenas 4% na dos 42-47 anos, bem como dos 47-52 (4%), com uma média de 31 anos, ou seja, trata-se de uma amostra jovem. Quanto ao nível de conhecimentos, pela análise inferencial constatou-se que com o aumento da idade diminui o nível de conhecimentos dos inquiridos.

Relativamente à formação profissional, 64% são licenciados, 26% são bacharéis, 6% pós-graduados e 4% do CESE. Na análise inferencial constatou-se que os inquiridos que apresentam melhor nível de conhecimentos são os pós-graduados (12 pontos), seguidos dos licenciados (11,75 pontos), depois dos bacharéis (9 pontos). Isto faz pressupor que os indivíduos bacharéis e os do CESE sejam também os da faixa etária mais elevada, uma vez que se verificou que com o aumento da idade havia um decréscimo no nível de conhecimentos.

Quanto à distribuição por instituição de trabalho, 50% dos enfermeiros inquiridos exercem a sua actividade num Hospital Central, 36% num Hospital Distrital e 14% num Centro de Saúde. Na análise inferencial constatou-se que o nível de conhecimentos dos inquiridos é estatisticamente diferente consoante a instituição onde exercem, pelo que os inquiridos do Hospital Distrital são os que apresentam uma média de conhecimentos mais elevada (13,72 pontos). Por sua vez os do Hospital Central e os do Centro de Saúde apresentam médias baixas, e abaixo do esperado.

No âmbito da categoria profissional, 52% da amostra são enfermeiros, 42% enfermeiros graduados, 4% enfermeiros chefes e apenas 2% enfermeiros especialistas. Relativamente à análise inferencial, constatou-se que os enfermeiros chefes são os que apresentam melhores conhecimentos seguidos pelos enfermeiros e depois pelos especialistas, e os graduados são os que apresentam pior nível de conhecimentos

Relativamente ao tempo de exercício profissional, foi encontrado um mínimo de um ano e uma máximo de 33 anos, sendo que 44% trabalham há menos de cinco anos e apenas 4% há mais de 25 anos. Quanto ao tempo no serviço actual, foi encontrado um mínimo de menos de um ano e um máximo de 33 anos, sendo que 72% dos inquiridos trabalham no seu serviço há menos de cinco anos e 2% fazem-no num período entre 16 e 25 anos, e outros 2% há mais de vinte e cinco anos. Ao analisar estas duas variáveis, pôde também constatar-se que o indivíduo que trabalha há 33 anos esteve também durante todos esses anos no mesmo serviço. Pela análise inferencial constatou-se que o nível de conhecimentos é diferente consoante o tempo de exercício profissional, pois verificou-se que com o aumento do tempo de exercício da profissão diminui o nível de conhecimentos. Isto faz pressupor que os inquiridos não frequentam formações após o curso de base.

No nível de conhecimentos, foi encontrada uma média de 10,8 pontos, numa escala de 20 pontos, com um mínimo de 1 ponto (ou seja, uma única questão correcta), e um máximo de 18 pontos. 38% dos enfermeiros revelaram um nível insuficiente de conhecimentos na área da prevenção da IUN e apenas 6% atingem o nível muito bom. Contrapondo-se a estes resultados, 76% dos inquiridos afirmam ter formação suficiente nesta área e apenas 24% afirmam ter recebido formação insuficiente.

Através da terceira (e última) parte do questionário foram descritos os procedimentos utilizados pelos enfermeiros no seu dia-a-dia do cuidar. Assim, 92% dos enfermeiros afirmam lavar as mãos antes e depois de algaliar e apenas 8% afirmaram não o fazer por usarem luvas e não acharem este acto essencial. O uso de luvas é essencial quando houver contacto com a urina ou com a região de inserção da sonda vesical(7), contudo, e tal como refere Teixeira(8) “antes de mais, é indispensável lavar bem as mãos, antes e depois de qualquer operação”.

Relativamente à higiene do meato urinário do doente algaliado, 38% dos enfermeiros afirmaram realizar aplicação local de pomada de clorhexidina ou iodopovidona, lavagem diária com água e sabão e uso de técnicas específicas de desinfecção do meato; 30% afirmaram realizar técnicas específicas de desinfecção do meato; 6% afirmam realizar aplicação local de pomada de clorhexidina ou iodopovidona. Apenas 26% afirmam realizar a lavagem diária, com água e sabão, que é o único procedimento recomendado pelos autores consultados: como medida fulcral, é recomendado que se lave o meato urinário do doente algaliado uma vez por dia, mais concretamente a área à volta do orifício uretral, com água e sabão, não sendo necessário aplicar localmente pomada de clorhexidina ou de iodopovidona(8). As bactérias terão tendência a penetrar na uretra durante a limpeza, devendo portanto evitar-se o uso de técnicas específicas de desinfecção do meato urinário(4).

Quanto ao método de drenagem urinária mais frequentemente utilizado nos serviços, domina a algaliação de longa duração (54%), seguida da algaliação intermitente (34%) e do sistema Pen’Rose (12%). Constata-se então que é predominantemente utilizado o método de drenagem vesical que mais aumenta o risco de infecção urinária – Wilson(4) afirma existir uma forte correlação entre o tempo que uma algália fica colocada e o risco de infecção urinária.

Verificou-se que na grande maioria dos casos quem realiza a troca dos sacos colectores de urina são os auxiliares de acção médica (46%), em segundo lugar pelos enfermeiros (36%); 18% dos resultados revelam que tanto os enfermeiros como os auxiliares o fazem, em alguns serviços. Questionamos se os auxiliares de acção médica recebem formação suficiente para procederem à troca dos sacos colectores respeitando a técnica devida.

Na introdução da algália no meato, a grande maioria dos enfermeiros utiliza luvas esterilizadas (84%) e apenas 2% revelaram utilizar o invólucro da sonda. Constata-se que a grande maioria dos enfermeiros adopta a postura correcta, optando pela utilização de luvas esterilizadas no momento da introdução da algália, pois um estudo português(9) mostrou que a utilização de luvas esterilizadas é meio que proporciona uma taxa de infecção significativamente mais reduzida comparativamente às compressas e ao invólucro da sonda, pelo que este último contribui cerca de 2,5 vezes mais para a existência destas infecções.

As algálias mais utilizadas nos serviços são maioritariamente as de silicone (68%), seguidas das de látex (56%), apenas 2% dos enfermeiros referiram utilizar sondas de silicone com prata. A escolha das sondas de silicone é a mais correcta, pois o silicone é um material muito inerte, provocando uma irritação mínima e resistindo bastante à incrustação(4); contudo ainda se verifica uma alta utilização das sondas de látex que são muito irritantes(4). É curioso o facto de 2% dos enfermeiros referir a utilização de sondas de silicone com revestimento de prata, pois a autora referida aponta que estas, apesar de serem as mais vantajosas, uma vez que parecem reduzir a incidência de bacteriúria, não se encontram disponíveis no mercado.

Quanto ao tipo de mobilização da sonda, 64% dos enfermeiros afirmam fazê-lo em sentido rotativo, contrastando com 2% que afirmam fazê-lo em sentido ascendente e outros 2% em sentido descendente. A grande maioria dos enfermeiros questionados adoptam a técnica correcta, pois quando é necessário mobilizar a sonda vesical, deve-se fazê-lo em sentido rotativo(8).

Relativamente ao tempo aproximado que os enfermeiros mantêm a sonda “pinçada” ou clampada, quando necessário, a maioria refere fazê-lo por um período de cerca de uma hora (42%), contrastando com 2% que afirmam fazê-lo por mais de três horas. A sonda vesical nunca deve ser clampada por um período de tempo superior a duas horas, pois tal acto leva a que haja estase de urina na bexiga, o que predispõe à infecção(8). Neste estudo, verificou-se que a maior parte dos enfermeiros adopta a técnica correcta neste acto.

Em relação ao local de fixação da sonda vesical, mais de metade da amostra revelou não fixar a algália (64%), seguindo-se os que a fixam na coxa do doente (34%), e apenas 2% a fixam no abdómen do doente. Tanto os enfermeiros que fixam a sonda na coxa como no abdómen do doente revelam procedimentos correctos e aceites pelos autores consultados: “a sonda vesical deve ser fixada no abdómen ou na coxa (no homem) ou na coxa (na mulher), para evitar movimentos de tracção e ulceração uretral”(8). Infelizmente a grande maioria dos enfermeiros não atribui importância a este acto, uma vez que 64% afirmam não o fazer.

Metade dos enfermeiros afirmaram raramente utilizar a realgaliação como método de colheita asséptica de urina, seguindo-se 42% que afirmaram nunca o fazer, e apenas 8% o fazem frequentemente. De facto a realgaliação, como método de colheita de urina asséptica é contra-indicada dado que uma realgaliação aumenta o risco de infecção urinária(1).

A maioria dos enfermeiros afirmou utilizar punção da sonda vesical como método de colheita de urina em doentes algaliados (48% das respostas), seguindo-se os que o fazem por desconexão do circuito de drenagem (42%), e apenas 10% revelaram fazê-lo por punção do saco colector. As colheitas de urina em doentes algaliados devem ser feitas por punção com técnica asséptica na zona própria para o efeito, não devendo o sistema de drenagem ser aberto para este fim(4). Outros autores acrescentam que nunca se deve desconectar o circuito para obter amostras de urina, pois isto facilita a entrada de microorganismos patogénicos no sistema de drenagem(8). A maioria dos enfermeiros adopta o procedimento correcto para colher urina em doentes algaliados, contudo ainda uma grande porção opta por desconectar o sistema de drenagem.

Nas colheitas de urina em sonda Foley, por punção, 54% dos enfermeiros utilizam uma agulha endovenosa, seguindo-se os que optam pela subcutânea (40%); apenas 6% afirmaram optar pela agulha intramuscular para o efeito. Neste mesmo procedimento, 56% dos enfermeiros afirmaram desinfectar previamente a área da punção com iodopovidona, seguindo-se os que o fazem com álcool a 70º (26%) e 18% afirmam fazê-lo com éter.

Para a punção das sondas vesicais, a maioria dos enfermeiros opta pelo tipo de agulha errado, uma vez que a preconizada pelos autores é a subcutânea, pelo seu menor calibre. Quanto à desinfecção, a grande maioria (82%) optam pelo desinfectante apropriado, pois tanto a iodopovidona como o álcool a 70º são indicados para o efeito(8).

Quanto ao tipo de circuito de drenagem vesical, a esmagadora maioria dos enfermeiros apontou o descendente fechado como sendo o utilizado no seu serviço (92%). Apenas 6% apontaram o descendente aberto e 2% o ascendente aberto. Com a utilização do sistema de drenagem fechado, comparativamente ao aberto, o risco desce para cerca de 5 a 10% por cada dia de cateterismo(10), sendo portanto este sistema o mais indicado. É  bastante positivo constatar-se que mais de 90% dos participantes do estudo utilizam este tipo de circuito de drenagem vesical. Quanto aos circuitos descendente aberto e ascendente fechado, é de referir que o primeiro há décadas caiu em desuso, com o aparecimento dos sacos colectores, e o segundo é inexistente e impossível de realizar.

Relativamente ao tipo de sacos colectores de urina, 82% dos enfermeiros utilizam os de tipo anti-refluxo, mas apenas 6% utiliza esterilizados e outros 6% os que possuem  dispositivo de colheita de urina. A utilização de sacos anti-refluxo, e se possível esterilizados, é a mais vantajosa pois apesar de serem mais caros são trocados menos vezes, e idealmente, deveria utilizar-se sempre um saco de drenagem urinária com dispositivo de colheita de urina, mas ainda não é possível em algumas instituições(8).

Relativamente à posição do saco colector, 92% dos questionados coloca-o em suporte adequado, pendurado na cama do doente; apenas 4% afirmou colocá-lo sobre a cama, ao lado do doente, e 2% no chão, sem que o doente o pise e outros 2% em cima de uma cadeira, ao lado da cama. Constata-se que a quase totalidade dos enfermeiros coloca os sacos colectores de forma a prevenir o refluxo e a evitar o contacto com o chão, uma vez que os colocam no suporte adequado. Este procedimento é preconizado cientificamente, pois a posição incorrecta do saco colector pode contribuir para transportar bactérias do saco colector para a bexiga(4).

Quanto à utilização das irrigações vesicais, 42% dos enfermeiros afirmaram não a realizar. Contudo ainda 30% as realizam quando a sonda está obstruída, e 28% esporadicamente. A realização de irrigações vesicais é um procedimento contra-indicado, pois implica que haja desconexão do sistema de drenagem fechado, o que aumenta a incidência de IUN(4). Além disto, outros autores advertem para o facto de as irrigações vesicais predisporem à colonização e à infecção por organismos resistentes(11).

Na questão do uso ou não de fraldas descartáveis nos serviços, 94% dos enfermeiros responderam afirmativamente e apenas 6% responderam negativamente. Neste aspecto, a quase totalidade dos enfermeiros optam por um procedimento correcto: “para mulheres, as fraldas descartáveis associadas a roupas de cama especiais, devem ser utilizadas sempre que possível”(11).

Quanto à educação do doente algaliado, a maioria dos enfermeiros afirmou realizá-la sempre que possível (58%); apenas 4% referiram não ter tempo para este procedimento. Pela análise dos dados verifica-se que a percentagem de enfermeiros a adoptar esta atitude é ainda inferior ao que se esperava, uma vez que a educação do doente algaliado é muito vantajosa até para o próprio doente. Para Santos(3) a educação é uma estratégia preventiva fundamental, pelo que, sempre que possível, os profissionais de saúde devem fornecer orientações aos doentes, relativas às medidas que podem tomar para evitar a infecção e melhorar as suas defesas naturais. Este deve ser um procedimento a adoptar, pois “estimular o doente a cuidar da sua própria algália diminui o risco de infecção cruzada”(4).

 7.BIBLIOGRAFIA

(1)  LINO, Cristina et al (1996). “Infecção Urinária provocada pela utilização de sacos colectores de urina”. Nursing. 104. Pp. 8-12.

(2) HENRIQUES, Mª Carmo et al (2001). Manuel de Prevenção de Infecções Nosocomiais – Comissão de Controlo de Infecção Hospital S. Teotónio. Viseu: Asta Médica. Pp. 57-61.

(3) SANTOS, Nívea (2003). Enfermagem na Prevenção e Controle da Infecção Hospitalar. São Paulo: Iátria. Pp. 17-24, 37-47, 51-61.

(4) WILSON, Jennie (2003). Controlo de Infecção na Prática Clínica. Loures: Lusociência. Pp. 249-261.

(5) FORTIN, Marie-Fabienne (2000). O Processo de Investigação: da concepção à realização. Loures: Lusociência. P. 22, 37, 48, 100, 202, 368.

(6) POLIT, Denise; HUNGLER, Bernardette (1995). Fundamentos da Pesquisa em Enfermagem. Porto Alegre: Artes Médicas. Pp. 146, 357.

(7) BOLICK, Dianna et al (2000). Segurança e Controle de Infecção. Rio de Janeiro: Reichmann & Affonso Editores. Pp. 79-85, 92-123, 193-196.

(8) TEIXEIRA, Mário (1997). “Prevenção da Infecção Urinária”. Sinais Vitais. 10. Pp. 41-42.

(9) COSTA, Isabel Mª (1999). “Estudo de Incidência de Infecções Urinárias em Doentes Algaliados”. Sinais Vitais. 22. Pp. 29-31.

(10) AZEVEDO, Fabiano (2001). “Infecções Urinárias”. In Manual de Infecção Hospitalar: epidemiologia, prevenção e controle. Editado por Maria Aparecida Martins. Rio de Janeiro: Medsi. Pp. 165-170.

 

(11) GAGLIARDI, Eloisa et al (2000). “Infecção do Trato Urinário”. In Infecção Hospitalar e suas interfaces na área da saúde. Editado por António Tadeu Fernandes. São Paulo: Editora Atheneu. Pp. 459-475.

 

admin
EnglishFrenchPortuguese